138. Lobão: “A Vida É Doce”

Com a mesma falta de vergonha na cara eu procurava alento no
Seu último vestígio, no território, da sua presença
Impregnando tudo tudo que
Eu não posso, nem quero, deixar que me abandone
Não posso, nem quero, deixar que me abandone
Não posso, nem quero, deixar que me abandone não


No ano de 1999, iniciei um hábito que supus perene, mas que não durou nem dois anos: comprar (e ler integralmente) revistas sobre música. Tinha então de 14 para 15 anos e minha primeira aquisição foi um exemplar da saudosa revista Showbizz, justamente numa edição (169) comemorativa ao 14º aniversário da publicação, trazendo 100 páginas e a chamativa capa estampando a frase “Como o rock marcou o século 20” sobre as fotos de diversos personagens (estou com o volume à minha frente e vou testar meus conhecimentos, enumerando cada uma das cabecinhas ali retratadas: Chuck Berry, Elvis Presley, Mick Jagger, John Lennon, Jimi Hendrix, Jim Morrison, Bob Dylan, Janis Joplin, David Bowie, John Lydon/Johnny Rotten, Bob Marley, Marvin Gaye, Madonna, Bono Vox, Morrissey, Ozzy Osbourne e Kurt Cobain – ufa, consegui, e sem cola!).

Lá dentro, havia uma entrevista intitulada “A voz da discórdia”, com ninguém menos que Lobão. À época, o cantor carioca estava sumido da mídia e andava se apresentando discreta e acusticamente (sozinho, acompanhado apenas de seu violão) em pequenos palcos. Nas quatro páginas dedicadas ao músico, havia até a resenha de um desses shows, acontecido no Teatro Crowne Plaza em 27 de junho daquele 1999. As nostálgicas apresentações traziam, vez ou outra, canções inéditas que o velho lobo começava a testar ao vivo, antes de coligi-las num novo álbum, prometido para os meses finais daquele ano.

Três edições depois (na 172), a Showbizz encartou um single com duas dessas novas canções, antecipando que o novo disco, intitulado A vida é doce, seria vendido em bancas de jornal por módicos R$14,90. Como não ser fã do cara, àquela época? Era um verdadeiro herói, um lobo solitário da música brasileira, lutando contra os oligopólios e as multinacionais, vendendo exemplares numerados de seus álbuns, e a preços bastante camaradas.

lobao-inedito
O surrado single que tenho até hoje. Repare que ele dava acesso a “1 mês grátis de internet”!

Assim, mergulhei na escuta do compacto que trazia duas canções: a própria “A Vida É Doce” e “Mais Uma Vez”. A matéria que falava sobre o single encartado trazia alguns detalhes sobre a gravação das faixas e do álbum:

O disco foi quase todo gravado no estúdio caseiro de Humberto Barros, num apartamento na Barra da Tijuca, Rio de Janeiro. “Cerca de 95% dos vocais foram feitos dentro de um armário, made in armário”, diverte-se o cantor. Humberto e Jongui assinam com Lobão a sofisticada produção do disco, repetindo a equipe responsável pelo elogiado Noite.

O resultado é rock e MPB, a música popular brasileira que João Luís Woerdenbag reivindica para si, para seus colegas de geração e quem mais quiser chegar. “Sou músico, não sou erudito – sou popular – e sou brasileiro”, raciocina. O som também mostra influências contemporâneas de grupos como Nine Inch Nails e do que se convencionou chamar de trip hop (Massive Attack e Portishead) e que os mais xiitas preferem chamar de downtempo, com tempos desacelerados. “As músicas são todas mesmo para trás”, traduz Lobão, que sabiamente desconhece tal preciosismo de denominação.

Pois é, mas a nova produção do artista está longe de ser só isso: inclui belos arranjos de cordas (de Sacha Amback, tecladista que já trabalhou com Lulu Santos), instrumentos como o teremin, minimoog e piano Wurlitzer… E claro, a bossa nova e a rica tradição harmônica brasileira, reprocessadas e imbuídas de uma urgência e densidade inéditas em trabalhos com esses ingredientes.

Esse texto à página 8, não assinado, traduz muito bem o que o ouvinte iria encontrar não apenas em “A Vida É Doce”, mas nas demais faixas do álbum – que logo teria suas 50.000 cópias iniciais esgotadas nas bancas de jornal. Mas vale a pena ler também o que registra pequeno “faixa a faixa” do single sobre a canção de hoje, trazendo também sua ficha técnica:

Lobão: voz, cordas, guitarra, synth e programação de bateria; Jongui: programação de bateria, samplers e bateria; Humberto Barros: teclado e vocal; Dé: baixo.

O texto é afiado (“São novamente quatro horas / Ouço lixo no futuro / Do presente que tritura / As sirenes que se atrasam / Pra salvar atropelados / Que morreram, que fugiam / Que nasciam, que perderam / Que viveram tão depressa, tão depressa”), a interpretação, condizente, a angústia é… feliz.

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Lobão: em 1999, um irresistível e quixotesco personagem do rock nacional (ou seria da MPB?).

Foi em 2001 que pude me aproximar mais da obra de Lobão, graças à coletânea Focus que meu pai emprestou de meu tio Silvio. Escutei bastante aquelas 20 canções e, definitivamente, já era um fã do cantor. Jamais poderia imaginar, então, que o compositor de “Panamericana (Sob O Sol De Parador)” se tornaria um ícone da “nova” direita… mas isso é assunto pra outra conversa. Importa destacar que, naquele ano, o cantor e multi-instrumentista perseverou na estratégia de lançar suas obras em exemplares numerados em bancas. Foi assim que adquiri meu primeiro (e até hoje único) disco do Lobão: 2001 – uma odisséia no universo paralelo. Esse álbum ao vivo trazia uma formação minimalista (Lobão nos vocais e na pesadíssima guitarra; o baixista Marcelo Granja; e o excelente baterista Alexandre Fonseca) e um repertório impecável. Lá estava “A Vida É Doce” despida de suas programações eletrônicas, convertida, agora (e irreversivelmente) numa deprimida balada rock: 

Na entrevista à edição 169 da Showbizz, Lobão foi perguntado se gravaria um especial para o Acústico MTV (selo que costumava ressuscitar muitas carreiras, à época), ao que respondeu:

A princípio, não. Não gosto deles, não me dou com eles. Quando eu vou lá, rola um clima esquisitíssimo. Não concordo com a programação da MTV e todas as minhas entrevistas são cortadas, editadas. É uma coisa “supermetida a muito louca”, mas ao mesmo tempo careta, corporativista, com uma pseudo-crítica.

Em mais um entre tantos recuos de sua vida nos âmbitos artístico, estético e político, eis que Lobão gravou seu Acústico MTV em 2007. Na apresentação, “A Vida É Doce”, embora mantenha algo do tom lúgubre de seus registros anteriores, teve sua pungência diluída pelo arranjo mais pop – e mais bonito, é preciso dizer, repleto de cordas e dedilhados de violões. Confira:

Finalmente, em Lino, sexy e brutal (2012), “A Vida É Doce” ganhou mais um registro, retornando à eletricidade e ao peso – embora a versão de 2001 – uma odisséia no universo paralelo, por conta de seu andamento contido, me pareça a melhor de todas, favorecendo a passionalidade disfórica que une harmonia, letra e melodia. Ouça e julgue:

2 comentários

  1. Adorava ler revistas sobre música,tinha uma que chamava ”revista do CD” que teve pouquíssimas edições.Quanto a música de Lobão,desconhecia,e quanto ao Lobão militante,parece que o cara arrependeu de ter acreditado em certas pessoas,mas continua do lado errado.

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    1. Pois é, essas conversas sobre revistas e CDs nos lembram como já foi mais difícil escutar (e ler sobre) música no Brasil. Quanto ao Lobão, ele gosta mesmo é da polêmica.

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