139. Tim Maia: “Imunização Racional (Que Beleza)”

Que beleza é sentir a natureza
Ter certeza pr’onde vai
E de onde vem
Que beleza é vir da pureza
E sem medo distinguir
O mal e o bem
Uh, uh, uh, que beleza!


Recebi, por volta de 2010, um exemplar do livro Universo em desencanto: imunização racional. À época, fazia mais ou menos um ano que presenciara um espetáculo musical impressionante do Instituto Racional, no 3º Festival Contato. O coletivo, arranjado para reproduzir as canções da fase “Racional” de Tim Maia, contava, à época, com Carlos Dafé, BNegão e Thalma de Freitas (imagens da apresentação extraídas do Flickr de Cássio Abreu):

Apesar do show ter sido bom, não animei de ler o livro, que ficou intocável em minha estante “esotérica” até os dias finais destas minhas férias de 2019. E eis que resolvi folhear o livro, “ditado pelo RACIONAL SUPERIOR, Entidade da PLANÍCIE RACIONAL” para a figura de Manoel Jacintho Coelho.

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Capa do livro Universo em desencanto, que pirou Tim Maia por algum tempo. Esse é o primeiro volume de uma série de 21 livros da “obra básica”, que se estende por mais outros volumes.

Pensei que leria Universo em desencanto justamente com a ideia de compartilhar algo da obra com os frequentadores do blog. No entanto, logo nas primeiras páginas percebi um fato inegável: o livro é escrito de forma péssima e, por vezes, incompreensível. Não se trata de inadequação estilística, ou de questões vocabulares: o texto é ruim mesmo (pelo menos nessa edição que consultei, editada por volta de 1985). Assim, a ideia de transcrever passagens e, quem sabe, compartilhar achados interessantes sobre a seita de Manoel Jacintho Coelho, logo perdeu seu encanto, com o perdão do trocadilho.

No entanto, anteontem, dia em que concluí a leitura, fui surpreendido com a canção “Imunização Racional (Que Beleza)”, a faixa de abertura de Tim Maia Racional, vol. 1 (1975) – primeira obra do cantor carioca influenciada pelos preceitos do Universo em Desencanto -, em duas ocasiões: ao chegar na USP, quando os garotos do Grupo de Som do CAASO colocaram justamente esse álbum para tocar nas caixas acústicas; e enquanto estava no carro com meus pais, ouvindo a programação de alguma boa rádio em meio ao trânsito. Achei que era muita coincidência, justificando que a canção-tema de hoje fosse exatamente essa que me apareceu por duas vezes em menos de três horas.

Sobre o livro, muito já foi falado. A obra, escrita pelo punho de Manoel mas, segundo ele, inspirada pelo tal Racional Superior, explica que a humanidade tem se mantido “encantada”, isto é, iludida, enganada e aprisionada em seus sonhos materialistas. A solução apresentada é a chamada Imunização Racional, processo pelo qual os homens se tornam conscientes de sua origem e, desapegando-se das ilusões materiais, são capazes de transcender sua condição animalesca e perecível, em direção à eternidade na Planície Racional. Esse processo envolveria a superação das dualidades representadas pelos “fluidos elétrico e magnético” (respectivamente, as energias aparentemente boas e ruins), responsáveis pelo sensualismo que entorpece as criaturas humanas. Haveria, por outro lado, um “fluido racional”, todo puro e único. E como conquistar a Imunização Racional? Lendo. Lendo diligente e frequentemente os livros do Universo em Desencanto, para justamente desencantar os viventes, fazendo com que se tornem conscientes de sua natureza limitada e se esforcem em alcançar o astral superior.

Palavras do próprio escritor:

Essa vida, é a vida dos encantados, que são todos os viventes que vivem mais angustiados do que contentes, pois vivem uma vida passageira, de lutas, onde se geram as ambições, os aborrecimentos e o descontentamento. Os encantados vivem sempre preocupados em enfrentar a vida com as lutas dos sofrimentos, lutando e sofrendo sempre nessa vida de encanto.

Encanto quer dizer: tormento! Por isso, a vida é tormentosa e atormentados vivem todos os encantados; quando não é por isto é por aquilo, quando não é por uma coisa é por outra. A vida, sempre cheia de tormentos, sempre com uma infinidade de pensamentos, bons, mais ou intranquilizadores (p. 32).

Já li em algum lugar que o Universo em Desencanto guarda relações com a umbanda. Nada mais inexato: o livro rejeita toda forma de espiritismo e incorporação mediúnica – e, curiosamente, dedica um capítulo inteiro, intitulado “Preto Velho”, ao assunto, apenas para argumentar por sua falsidade – como já o fizera, aliás, repetidas vezes em capítulos anteriores.

Além dessas reiterações, incomoda bastante o tom pseudocientífico e os raciocínios nada “racionais” do texto, como no fragmento abaixo:

O carbonário, que é a origem de vocês, é uma vida diferente, inferior ao fluido que é superior a vocês, que são as consequências dos fluidos. A sombra é o efeito do corpo visível. O corpo é a sombra do fluido. O fluido é a sombra e o efeito dos seres orgânicos. Os seres orgânicos são a sombra do antes do ser. O antes do ser é a sombra daquilo que eram. A sombra daquilo que eram é a sombra daquilo que foram. A sombra daquilo que foram é a sombra de onde saíram. E a sombra de onde saíram é dos corpos puros e limpos, sem defeitos (p. 54).

E o que tudo isso tem a ver com a canção de Tim Maia? Bom, após três centenas de páginas confusas e, como vimos, herméticas (além de uma passagem pra lá de machista na p. 297: “Os fluidos mais carregados de força magnética [lembremos, negativa] produzem mais vírus desta parte e daí, a geração e formação do sexo feminino. Se o fluido está mais carregado de força elétrica [aparentemente positiva, embora não manifeste ainda a positividade do “fluido racional”], mais vírus desta parte, prevalece o sexo masculino.”), encontramos passagens que estão parafraseadas na letra da incrível canção de Tim Maia.

Assim, os versos Ter certeza pr’onde vai / E de onde vem” e “Que beleza é saber seu nome / Sua origem, seu passado / E seu futuro” remetem a diversas passagens dos capítulos finais do livro, como as seguintes:

Depois que se formaram em animais Racionais, passaram estas vinte e uma eternidades, todas esclarecidas no UNIVERSO EM DESENCANTOPara que conheçam tudo isto, leiam Livro da formação de onde vieram, como vieram e para onde vão e como vão. O Livro da origem dos seres, sua formação e criação, a gênese verdadeira (p. 321).

Ou:

Sofre o bom, sofre o mau, sofre quem nunca faz mal a ninguém, sofrem os inocentes, sofrem todos, por todos serem criminosos, pelo crime que cometeram pelo livre arbítrio que tinham e têm, de saírem de uma parte e entrarem em outra. E hoje, em vossas mãos, todo o histórico de todo este acontecimento. Todo o histórico do passado, do presente e do futuro.

O passado é de onde vieram, como vieram e porque vieram; o presente, todos de volta ao lugar de origem e o futuro, sendo Racionais puros, limpos e perfeitos (p. 334).

Ou ainda:

Aparências não são verdades. Traído com este falso saber do nada, só para aparentar até não poder mais e remediar até não aguentar mais, tornando-se a vida desse jeito, desanimadora. Ora, a pessoa está animada, ora desanimada, e assim vivendo horrivelmente desse jeito. Ora aguentando, ora não aguentando, tornando a vida uma aventura e todos vivendo de aventuras, como quem diz: – “Eu vou fazer desta vida, uma aventura.” Vivendo neste desequilíbrio, porque não tinham ainda o desencanto em mãos. Hoje, tendo mudado todo este estado de coisas, aí a pessoa passando a saber o que quer, por ter a situação definida, sabendo de onde veio e para onde vai (p. 338).

Ainda nesta p. 338 pode estar a origem de outros versos, “Que beleza é vir da pureza / E sem medo distinguir / O mal e o bem”:

Agora, são para se considerarem felicíssimos, por terem todo esse translado em mãos, do que é o encanto e do que é desencanto. São para viverem o resto da vida felicíssimos por encontrar a bússola de sua formação e criação e se guiando por esta bússola, que é a IMUNIZAÇÃO RACIONAL.

A bússola Racional indicando o certo e o errado, o bom e o ruim, o encanto e o desencanto.

E bem no finalzinho da obra, está a explicação do verso inicial, “Que beleza é sentir a natureza”:

Tudo devagar, naturalmente, vai chegando ao seu lugar. Vão fazendo essa modificação sem sentir, sem abalo, naturalmente, porque o que é natural a pessoa não sente, pois o seu ser é de Racional, a natureza é Racional, o que é natural é a razão do ser e a razão do ser é porque está no seu lugar verdadeiro (p. 369-370).

Enfim, a leitura de Universo em desencanto não abalou minhas convicções espiritualistas e, devo dizer, foi mesmo um exercício de antropologia da religião – pois já havia avistado seguidores da seita à época em que visitava Ipatinga, em Minas Gerais, para rever Cristiane, e morria de curiosidade em saber o que pensavam, faziam e acreditavam aquelas pessoas vestidas inteiramente em branco.

Mas paro por aqui e acho que, no meu caso, seguir com a leitura dos outros 20 volumes (e de mais fascículos anunciados por Manoel no início do livro) seria um desperdício de tempo – embora reconheça que, para muitas criaturas, os ensinamentos da seita possam soar verdadeiros e úteis a seu progresso moral e espiritual.

A moral da história, para mim, é: só um cancionista como Tim Maia conseguiria transformar o texto confuso e vacilante de Manoel Jacintho Coelho numa obra musical que resiste ao tempo, sendo idolatrada até hoje (o mundo simplesmente veio abaixo quando do lançamento, em 2006, da versão em CD de Tim Maia Racional vol. 1). E só um artista de caráter inabalável seria capaz de recusar os louros advindos de um tal trabalho cancional, em vez de surfar eterna e comodamente em sua glória.

Tim Maia é grande mesmo, e faz muita falta.

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Tim Maia: a voz potente que cantou a obra de Manoel Jacintho Coelho, e desencantou-se por ela.

No Tim Maia Racional vol. 2 (1976), encerrando o álbum, há uma versão alternativa para a canção, com menor duração. Preste atenção ao iradíssimo solo de guitarra:

Gal Costa regravou “Imunização Racional (Que Beleza)” em Aquele frevo axé (1998), sobre uma batida eletrônica e bons grooves de baixo. Repare na modulação da harmonia, na metade da faixa:

Tem também a versão do Monobloco, em seu primeiro álbum, de 2002. O registro é todo calcado na percussão:

Há também uma versão ao vivo, bem bacana (oriunda do Monobloco: ao vivo, de 2006), que você escuta aqui.

Por fim, como curiosidade, há a versão reggae do grupo francês Wyman Low & The Ravers, no álbum Trippin’ (2016). Muito bom! Confira:

5 comentários

  1. Manoel Jacinto era contra incorporações mediúnicas,mas parece que foi inspirado por alguma ”entidade”,é tudo muito doido – Seitas à parte,a música do Tim Maia é ótima.

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