141. Diogo Nogueira e Hamilton de Holanda: “Bossa Negra”

Minha alegria, uma só nação
O coração não nega fogo
É bossa negra, meu irmão
É bossa negra, meu irmão
Corre o mundo essa canção
O choro, o jongo, o partideiro
É bossa negra meu irmão


Diogo Nogueira herdou a voz e os trejeitos malandros de seu pai, João Nogueira. Teria tudo para se firmar, assim, como um artista à altura dele e de demais associados do lendário Clube do Samba. No entanto, acabou construindo uma carreira irregular, que alterna momentos de excelente gosto musical e de reverência às melhores tradições da canção brasileira, com fases de apelo populista – que exploram o carisma e a beleza do intérprete de forma a atingir o público feminino, com pagodes românticos abaixo da crítica.

Hamilton de Holanda, por sua vez, é um instrumentista completo: virtuose do bandolim e, ao mesmo tempo, versátil, sendo capaz de transitar em nichos mais populares que o estreito contexto da música instrumental. Completíssimo, representa o sangue novo na tradiçao do bandolim, que viu tantos craques florescerem nas searas brasileiras – desde Jacob do Bandolim, passando por Joel Nascimento e Déo Rian, só para citar três.

Após um show em Miami, em que Hamilton convidou Diogo para cantar e este veio mesmo a roubar a cena, os dois artistas idealizaram no camarim um projeto para tocar “umas bossas negras”, inspirando-se em realizações como os Afro-sambas de Baden Powell e Vinícius de Moraes. Em 2014, a ideia se concretizou, com o lançamento do álbum intitulado asssim mesmo, Bossa negra. Uma parceria frutífera para ambos: popularizou ainda mais o nome do bandolinista e representou o ponto mais alto, em termos de requinte e sofisticação musical, na discografia de Diogo.

A canção de hoje é justamente a que nomeia o álbum, composta por Diogo, Hamilton e Marcos Portinari. “Bossa Negra” é inclassificável, representando uma síntese azeitadíssima, em termos instrumentais: o pulso da percussão tem um quê jazzístico e a harmonia evoca peças da música erudita. Já a letra sugere a influência do samba de exaltação, o que é reforçado pelas belíssimas imagens panorâmicas do Rio de Janeiro, no videoclipe da canção.

A mensagem é clara: as bossas negras (que abrangem os ritmos mencionados em vários versos – o choro, o jongo, o partido, o samba e a própria bossa-nova que, apesar de ligada ao nome de brancos como João Gilberto, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, tem nas suas raízes a música negra de todo o continente americano) são tesouros musicais da humanidade. Ao mesmo tempo, são a dynamis de nosso povo, parte constituinte de seu ser, dando vazão não apenas à necessidade do se-movimentar, mas também acompanhando os quereres, as glórias e as derrotas dessa gente – daí os versos do refrão, “Ouvi, curti, meu pé mexeu / Senti, pedi, o samba é meu / Partiu, caiu ninguém perdeu / Senti, pedi, o samba é meu”.

Na euforia ou na disforia, o samba ainda é a melhor companhia. (E brasileiro faz rima até sem querer… não é mesmo, Ademar?)

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Hamilton de Holanda e Diogo Nogueira: cantando suas próprias raízes negras em sambas e outras bossas. Parceria que pode render ainda ótimos frutos…

2 comentários

  1. Adoro o álbum dos dois,uma parceria que deu liga.Quanto à rimas,ainda ontem eu desejei ser repentista,pra falar e escrever tudo com rima,rs.

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  2. Eu sabia que você iria gostar do post e qual não foi minha surpresa ao detectar um comentário seu ao clipe no YouTube, deixado lá há um bom tempo – e isso depois que o post estava publicado.

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