142. Mamonas Assassinas: “Mundo Animal”

Comer tatu é bom
Que pena que dá dor nas costas
Porque o bicho é baixinho
E é por isso que eu prefiro as cabritas
As cabrita tem seios
Que alimentam os seus descendentes


O ano era 1995 e a rotina era sempre a mesma: acordar cedo, ir para a Escola de Primeiro Grau Bispo Dom Gastão, ter aulas com apenas três professoras (Dona Rose, Dona Elenice e Dona Luisa), almoçar uma merendinha ixperrta e, na saída, voltar a pé com os colegas, caminhando pela Vila Prado.

A certa altura do ano esses pivetes, que aterrorizavam a Rua Dr. Duarte Nunes, inventaram de cantar algumas canções besteirentas que estavam estourando nas rádios. Por exemplo, “Selim”, sucesso do primeiro álbum dos Raimundos (lançado no ano anterior), permaneceu por um bom tempo no top-5 dessa criançada boca-suja.

No entanto, desbancando todas as faixas de nossa parada musical, apareceram algumas canções novas, de uns tais de Mamonas Assassinas. E, de agosto em diante, nossos brados espelhavam as paradas de sucesso das FMs que, por sua vez, refletiam as entregas de promos, pela gravadora EMI-Odeon, extraídos do álbum Mamonas Assassinas. As músicas de trabalho iam se sucedendo uma a uma, em breve já esgotando o disco de estreia da excêntrica trupe de Guarulhos. Lembro de termos cantado “Pelados Em Santos”, “Vira-Vira”, “Sabão Crá-Crá”, “Sábado De Sol”, “Robocop Gay” e “Jumento Celestino”. “Chopis Centis”, por exemplo, acho que nunca cantamos, pois começou a tocar nas rádios por volta de dezembro, quando já não íamos à escola. E “Mundo Animal” era um clássico à parte.

Tudo bem que, para nós, boa parte das letras não faziam sentido (ou apenas começavam a). Mas achávamos tudo muito engraçado, solar, divertido. (Já a vizinhança devia achar um horror uns meninos tão pequenos falando sobre surubas, maconheiros, cabelos do saco e ciborgues travestidos).

Quando, na manhã do domingo 2 de março de 1996, o plantão da Globo noticiou a tragédia com a maior revelação da música brasileira de então, foi o início de uma enorme tristeza, que só encontrou paralelo na também trágica e inesperada morte de Ayrton Senna, dois anos antes. Nossas cantorias a caminho da escola nunca mais se repetiriam – afinal, não haveria mais Mamonas Assassinas, já não seríamos tão crianças (o salto entre o primário e o ginásio é um mistério que me intriga até hoje!) e, aliás, sequer estudávamos no Dom Gastão, tendo sido compulsoriamente remanejados para a Escola Estadual Jesuíno de Arruda, por conta de uma reorganização na rede escolar de São Paulo.

O acidente aéreo que matou nossos últimos heróis de infância, de certa maneira, aniquilou também parte de nossos sonhos ingênuos de meninos, explicitando a dura realidade de que a vida passa rápido e, às vezes, é curta como uma boa piada.

mamonas-assassinas.jpg
Mamonas Assassinas: efêmeros palhaços no pop-rock nacional, cativando públicos de todas as idades.

Hoje, ouço Mamonas Assassinas com um misto de nostalgia e de admiração. E “Mundo Animal”, curiosamente, me faz mais pensar do que rir.

Acho incrível a ruptura de expectativa provocada entre o primeiro (“Comer tatu é bom”) e o segundo verso (“Que pena que dá dor nas costas”). Gosto também da forma como o instrumental, nas estrofes, simula uma canção séria, como se os divertidos fatos zoológicos ali narrados fossem produto de uma inquirição bastante diligente, por parte do narrador.

O escracho do refrão também não deixa nada a desejar, mesclando besteirol com questões anatômicas, fisiológicas e comportamentais (!) do mundo animal: “Os animal, tem uns bicho interessante / Imaginem só como é o sexo dos elefante / E os camelos que tem as bolas em cima das costas / E as vaquinhas que por onde passam / Deixam um rastro de bosta”.

No meio de tudo isso, uma etnografia do homem sertanejo (e aposto que apenas por conta de “Mundo Animal” é que muita gente veio a se dar conta de como a zoofilia é uma prática – ainda que condenável – arraigada entre os costumes do semi-árido) e uma lição de consciência ecológica: “Totalmente beautiful as baleias no oceano / Nadando com graça, fugindo da caça / Dos homens humanos / O homem é corno e cruel / Mata a baleia que não chifra e é fiel”.

E quer mais? Perceba a ironia sutilíssima no finalzinho da canção, que emula o encerramento de “Toda Forma De Amor” (!!!) de Lulu Santos (compare o que se segue ao instante 3’40” da canção dos Mamonas com o que se segue ao instante 3’09 da composição de Lulu, abaixo):

Gênios!


Depois do acidente aéreo, houve algumas tentativas de se compilar materiais já gravados, entre sobras de estúdio e performances ao vivo, de Dinho e companhia. Entre esses lançamentos, Mamonas ao vivo (2006) traz uma versão cheia de punch para “Mundo Animal”. Confira:

2 comentários

  1. Mamonas Assassinas assustou em vida e na morte – Será que hoje teria espaço na mídia-politicamente-correta?

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    1. Acho que teriam sim. E é um tipo de “politicamente incorreto” que me até me agrada, pois não zomba dos excluídos, pelo contrário, dá voz a eles – sejam pobres, nordestinos, gays, etc. (inclusive os cornos!).

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