143. Marisa Monte: “De Mais Ninguém”

Se ela me deixou, a dor
É minha só, não é de mais ninguém
Aos outros eu devolvo a dó
Eu tenho a minha dor
Se ela preferiu ficar sozinha
Ou já tem um outro bem
Se ela me deixou a dor é minha
A dor é de quem tem


“De Mais Ninguém” é um dos sucessos do inspiradíssimo álbum Verde anil amarelo cor de rosa e carvão, lançado em 1994 por Marisa Monte – à época, já consolidada como uma das maiores vozes da nova geração de cantoras que debutaram no cenário musical ainda nos anos 1980.

Composta pela artista carioca e por Arnaldo Antunes, a canção é um choro de apelo radiofônico (ou, mais propriamente, um choro-canção), sabiamente conduzido pelo conjunto Época de Ouro, fundado por Jacob do Bandolim em 1964. Após a morte do fundador em 1969, o regional prosseguiu se apresentando e gravando, e já visitou o Festival Chorando Sem Parar em São Carlos, em 2011. Não costumo perder nenhuma atração do festival, mas essa apresentação do Época é uma ausência quase imperdoável em minha coleção de espetáculos apreciados. Justificativa: o show aconteceu justamente no dia 4 de dezembro de 2011, quando a torcida corintiana amanheceu com a notícia da morte de Doutor Sócrates e foi dormir pentacampeã brasileira (título conquistado com um empate num insosso e mal-jogado clássico com o Palmeiras, terminado em 0×0). Em vez de comparecer ao Chorando Sem Parar, fui com os amigos Demorô e Jeca ao saudoso bar Recanto do Poeta – beber umas e outras, petiscar algumas porções, torcer, vibrar e, findo o jogo, provocar temerosamente os carros que passavam na Avenida Trabalhador Sancarlense, gritando “Vai Curíntcha!”.

Enfim, digressões sobre ébrios vexames à parte, o Época de Ouro garante o fundo instrumental perfeito para que o timbre da Soprano (ou seria Mezzo?) Marisa discorra sobre uma disjunção amorosa. No entanto, a letra não traz um sujeito amargurado, desesperado, desiludido. A separação é tratada, aqui, de forma sóbria e resignada, rejeitando-se todas as comiserações. “Se eu não tenho o meu amor / Eu tenho a minha dor” canta Marisa, numa curiosa inversão em que a perda é transmutada em ganho, e a disjunção é vista como uma forma de conjunção – com o sinal trocado, é verdade, ainda assim, conjunção.

Esse estado passional racionalizado – em si, uma contradição em termos, mas aí é que está o barato da letra de Arnaldo – é refletido na melodia, que após atingir os pontos mais elevados da tessitura (“A sala, o quarto, a casa está vazia / A cozinha, o corredor / Se nos meus braços ela não se aninha”), desloca-se asseverativamente para as regiões mais graves (“A dor é minha, a dor”), transmitindo a sensação de recolhimento, moderação e (por que não?) serenidade.

marisa-monte.jpg
Marisa Monte, uma das mais belas vozes da canção popular brasileira, sempre parceira do poeta Arnaldo Antunes.

Em Verdade de uma ilusão – tour 2012/2013, Marisa relê “De Mais Ninguém” sem o Época de Ouro. Saem os sons agudos de Ronaldo do Bandolim, entram os graves de Marcus Ribeiro Oliveira no violoncelo. A canção atinge, assim, o grau máximo de dramaticidade – o que, penso eu, não se compatibiliza totalmente com a sobriedade explicitada na letra. Mesmo assim, o arranjo é caprichado e muito bonito:

Em 1997, Nelson Gonçalves lançava seu último álbum (o 128º!), intitulado Ainda é cedo. Nele, o Rei do Rádio interpretava um repertório arrojado, explorando cancionistas revelados na onda do BRock. Da lavra de Arnaldo Antunes, “De Mais Ninguém” foi a escolhida. Sobre essa versão, gosto do comentário presente no blog Escapar Fedendo:

Marisa Monte, junto com Arnaldo Antunes, se arriscam a fazer um choro canção. E não fazem feio, principalmente pelo arranjo com um regional que casa muito bem. Só que aqui, parceiro, é o Nelson Gonçalves jogando em casa com o apoio da torcida. O arranjo é basicamente o mesmo (escolha acertada de repertório, com uns toques mais abolerados, como o restante do disco), só que com as cores carregadas do samba canção. Ou seja, saem os miados da Marisa para entrar o peso das cordas. […] Ponto pro Nelson, que acerta ao carregar na passionalidade do arranjo, rompendo com o despojamento MPB da Marisa (mas, para sermos justos, esse despojamento faz bem para sua versão). A dor do Nelson é mais doída.

Veja se você concorda:

2 comentários

  1. Nelson Gonçalves é uma glória da velha-guarda,mas eu prefiro a versão de estúdio de Marisa Monte,o estilo blasé da cantora expressou muito bem o sentido da letra.

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