144. 14 Bis: “Perdido Em Abbey Road”

Estava andando pela rua
Quando de repente eu me vi
Perdido em Abbey Road
Onde está o caminho
Que me leve de volta?
Onde é que eu vim parar?


blog começou com uma canção emblemática do Clube da Esquina (“Cais”), passou por diversas composições desse pessoal surgidas em BH e arredores (“Vento De Maio”, “Pela Claridade Da Nossa Casa”, “Clube Da Esquina 2”) e trouxe até um som mais contemporâneo dos bons mineiros (“Quem Sabe Isso Quer Dizer Amor”, que já nem é uma canção tão nova).

Mas essa turma ficou um pouco esquecida nas últimas semanas. Isso porque travei: sabia que os próximos artistas do coletivo/movimento/bando/chame-do-que-quiser seriam os rapazes do 14 Bis (por muito tempo, meus favoritos entre toda essa patota), mas não sabia qual canção escolher. Afinal, há muitas obviedades no repertório da banda: “Canção Da América”, “Bola De Meia, Bola De Gude”, “Bailes Da Vida”, “Caçador De Mim” (todas de enorme sucesso, e todas com a assinatura de Milton Nascimento), além de “Planeta Sonho”, “Linda Juventude” e “Natural”. Estava até inclinado a falar sobre “Carrossel”, que não chega a ser um lado-B (embora também não seja um hit), mas ando numa vibe animada e seria mais coerente, nesse momento, injetar um pouco de energia no blog.

A solução foi trazer “Perdido Em Abbey Road”, justamente a primeira faixa do primeiro disco da banda, 14 Bis (1979). A canção não tem muitos segredos, mas vale a abordagem por ser bastante representativa do que é o 14 Bis – e o próprio Clube da Esquina.

Composta pelos tecladistas/vocalistas (aliás, no 14 Bis, vocalistas todos são) Vermelho e Flávio Venturini, trata-se de um rock com boa pegada setentista. A propósito, para Ricardo Alexandre, em Dias de luta: o rock e o Brasil dos anos 80 (2ª ed. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2013), a banda não pode ser enquadrada como representante do BRock pois, apesar de lançada às portas dos anos 1980, tratava-se do rabicho de uma geração anterior, mais ligada no rock inglês anterior à revolução punk. O instrumental, nesse sentido, é até barroco: em meio ao pulso de baixo, bateria e as guitarras de Cláudio Venturini (com seus solos sempre antológicos), sobram cordas, metais e teclados, muitos teclados.

Já a letra traz um sujeito que se perde em meio às lembranças de um tempo que não voltará, quando tudo se resumia à escuta despreocupada das canções dos Beatles. Mas esse passado se foi: em referência à personagem de “She’s Leaving Home” de Lennon e McCartney, a voz da canção sentencia que “A menina que saiu de casa / Numa quarta-feira / Já voltou há muito tempo / E dela nunca mais se ouviu falar”. The dream is over – e mal poderiam advinhar, os então jovens do 14 Bis, que em pouco tempo o sonho acabaria mesmo, com o assassinato de Lennon.

Não posso deixar de notar que as referências à banda de Liverpool são quase uma assinatura do Clube da Esquina. Em ao menos duas canções da turma, os Beatles aparecem como interlocutores da voz que canta – é o caso de “Para Lennon E McCartney”, de Fernando Brant, Márcio Borges e Lô Borges, gravada por Bituca e, depois, por Lô; e “Canção Do Novo Mundo”, de Ronaldo Bastos e Beto Guedes, gravada por este último.

Retornemos a “Perdido Em Abbey Road”. O sentimento de nostalgia (de certa forma, resignada, já que a aceleração da canção, do alto de seus 147 bpm, mal permite o pleno desenvolvimento dos estados passionais) é tão concreto que o sujeito, ao deslocar-se temporalmente com as recordações, acaba mesmo transladado espacialmente, atirado no cenário mais icônico por onde caminharam os Fab Four: a travessia da Abbey Road.

Nelson Marzullo Tangerini, em crônica/resenha que você pode acessar no Recanto das Letras, explica como Vermelho teve a ideia de compor a canção:

Vermelho se lembra dos bons tempos do rock: “Naquele tempo, a gente se reunia para ouvir e tocar Beatles. Hoje, as pessoas só desenvolvem o som”. Todo sentimento foi colocado em “Perdido Em Abbey Road”. […] Vermelho estava na rua, em meio a buzinas, apitos, multidão e todo aquele rush característico de cidade grande, quando ouviu, no meio de tudo, uma canção dos Beatles, vinda de uma loja de discos. “Foi uma sensação de distância muito grande daquela época dos Beatles. Nossos amigos dispersos pelo mundo, a gente não tem tem mais tempo de se encontrar, para cantarmos juntos as canções de que a gente gostava”.

Nesse sentido, acho interessante mencionar também outra assinatura do Clube da Esquina presente em “Perdido Em Abbey Road”: a nostalgia de um passado que não é tão longínquo, nunca chegando a ser idílico ou bucólico. Sente-se a falta não de naturezas intocáveis ou de singelezas rurais soterradas pela civilização (marca, por exemplo, da música caipira), mas de uma simplicidade urbana, não muito remota espaço-temporalmente, mas já saudosa. Canções gravadas por Milton, como “Ponta De Areia” e “Conversando No Bar (Nas Asas Da Panair)”, são ótimos exemplares desse tipo de abordagem não-parnasiana sobre o passado.

Por fim, gosto do comentário de Luiz Henrique Garcia, do Massa Crítica, sobre a questão geográfico-afetiva, transversal à canção do 14 Bis:

Um dos temas que abordo constantemente em minhas pesquisas é a relação da música popular com os lugares da cidade. Muitos locais prosaicos tornaram-se, depois de serem abordados em uma canção ou retratados numa capa de disco, espaços recobertos de significados diferentes dos que a princípio guardavam. É o caso da faixa de pedestres mais famosa do mundo, em Abbey Road, Londres, local em que os Beatles posaram para a capa do álbum homônimo […]. O endereço dos estúdios em que os Beatles gravaram a maior parte de sua obra também foi citado na […] estréia da banda 14Bis […].

Esses lugares também são cada vez mais apropriados em um viés mercadológico, como roteiro turístico e como “produto cultural”. Reconhecer esse processo não implica dizer que se apagam outras formas de apropriação, mas que este deve ser considerado como compenente que constitui as relações, eventualmente conflituosas, que dão forma ao espaço urbano. Os estúdios Abbey Road posicionaram uma webcam que permite visualizar “ao vivo” a faixa e as práticas de pedestres e motoristas em seu entorno [abbey road crossing webcam]. Que objeto privilegiado para observação!

14-bis.jpg
14 Bis: a veia roqueira e barroca do Clube da Esquina.

Em 1987, em 14 Bis ao vivo, “Perdido Em Abbey Road” é introduzida com os arpejos de cordas que adornam os refrães na versão original, para depois explodir num andamento mais acelerado (160 bpm) que o da primeira gravação. Solos iradíssimos de Cláudio! Delire:

Em Bis (1999), disco em que a banda relê seus sucessos com arranjos acústicos, “Perdido Em Abbey Road” reaparece mais contida e sem citar a introdução da versão original, mas ainda introduzida pelas cordas, como no registro de 1987:


Momento frustração: estive em dois shows do 14 Bis, em São Carlos (2006) e Araraquara (2012). Havia a expectativa de que rolasse “Perdido Em Abbey Road” ao menos nessa última apresentação. Quando cheguei ao Sesc e recebi o folhetinho com repertório do show (que integrava uma espécie de festival sobre o Clube da Esquina, celebrado com todas as pompas, como já expliquei no post sobre “Pela Claridade Da Nossa Casa”), o coração disparou: ela seria a última música, provavelmente num bis inequecível!

14-bis-sesc.jpg

Bom, curti o show inteirinho, que teve um repertório parecido com o de seis anos antes e, chegado o bis… nada de “Perdido Em Abbey Road”. Fica para o próximo!

Ao menos o final foi arrebatador, com o medley “Nova Manhã” e “Natural” conduzindo a “Planeta Sonho”. Alguém filmou:

3 comentários

  1. Assim como A Cor do Som,o 14 Bis talvez tenha preparado o terreno para o BRock oitentista,ou não.A sonoridade é bem diferente,adoro.

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    1. Gosto muito das bandas dos anos 1980, mas o pessoal do 14 Bis, vindo de uma geração mais antiga, era infinitamente superior, em termos instrumentais, que a maior parte dos conjuntos que surgiriam de 1982 pra frente.

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