145. Luedji Luna: “Banho De Folhas”

Foi em uma quarta-feira
Saí pra te procurar
Andei a cidade inteira
Mas, cadê você?
Cadê você?
A cidade é grande
As pessoas muitas
E eu por aí
Sem te encontrar
Vou pedir a Oxalá
Oxalá quem guia
Oxalá quem te mandou


Meu último fim-de-semana completo de férias, em São Carlos, foi maravilhoso. Uma coincidência muito feliz fez com que o Festival Contato, em sua 11ª edição, terminasse com muita música, justo naqueles dias. Evento que animou meus anos universitários e que me fez conhecer gente e sons, o Contato é sempre lembrado com muito carinho.

Mais do que isso, representa uma excelente oportunidade para se conhecer novos sons – e, por isso, o festival já rendeu alguns posts aqui, e farei ao menos dois sobre canções que vim a conhecer nessa última edição.


O primeiro é o post de hoje, sobre a cantora Luedji Luna. Onde eu estava, desde 2017, que não conhecia seu álbum Um corpo no mundo? Pois escutando-o, como que retorno à noite do dia 11 de maio quando, perto de várias pessoas queridas, tive contato com a obra dessa incrível e jovem cantora baiana, atualmente residente em São Paulo.

Abaixo, fotos que roubei do Facebook do Contato, para trazer um gostinho do que foi o maravilhoso show a que assisti:

O som da Luedji não é facilmente descritível: é preciso recorrer a muitas palavras e referências. O fundamento é a percussão afro-baiana – ou seria afro-cubana (pois há, é certo, um ar de latinidade em suas canções)? Acompanhando a base percussiva, violões que remetem à tradição cancional dos afro-sambas, tão bem (mas relativamente pouco) explorada desde o disco antológico de Baden Powell e Vinícius de Moraes. Os sons graves do baixo fazem, quase sempre, um contraponto à voz da cantora, explorando timbres que aproximam as canções do universo do jazz. Além de tudo isso, há muito de MPB – e o nome que mais me vêm à cabeça, neste momento, é Jorge Ben, mas talvez eu esteja sugestionado demais pela impressionante faixa “Saudação Malungo”, que evoca imediatamente “Zumbi”, uma das canções mais fortes de A tábua de esmeralda. Penso em Gil também.

A canção escalada para o post é “Banho De Folhas”, que já é um dos hits da cantora – como descobri ao perceber que boa parte da plateia, naquele show, sabia a letra de cor. Composta por Luedji e Emillie Lapa, foi escolhida para encerrar a apresentação, após uma breve explicação da cantora sobre a letra. Segundo ela, ao contrário do que os versos iniciais sugerem (“Foi em uma quarta-feira / Saí pra te procurar / Andei a cidade inteira / Mas, cadê você?”), o eu-lírico não está à procura de um amor. Inspirada numa estória vivenciada pela própria Luedji, a canção relata, na verdade, uma jornada por Salvador à procura de um pai-de-santo: decidida a se consultar com um babalorixá, a moça andou por ruas e mais ruas, envolveu-se num acidente de trânsito, até finalmente encontrar o sacerdote certo. Ou nem tanto… pois a orientação que procurava não foi oferecida (“Tanta volta pra nenhuma resposta”) e, ainda por cima, recebeu a incumbência de providenciar um banho de ervas, das que nunca ouvira falar (“Nenhuma resposta / Mas um punhado de folhas sagradas / Pra me curar, pra me afastar de todo mal / Para-raio, bete branca, assa peixe / Abre caminho, patchuli”).

(Luedji é a simpatia em pessoa e, narrando a mesma estória, fez todo mundo gargalhar diversas vezes – o que me faz ter vergonha do parágrafo acima. Mas, lembremos que fui ao Contato também para uma espécie de investigação de campo, na busca por novas canções. A objetividade do relato é um indesejável resultado desse trabalho amador de jornalista e crítico musical).

Impossível ouvir “Banho De Folhas” sem se remexer. À medida que pulsa, a canção cresce, nos traga e parece mesmo trazer alívio (como prometem os rituais de banhos de ervas) – isso, especialmente após a súplica à figura mais paterna do panteão do candomblé (“Vou pedir a Oxalá”), que parece ser respondida com os suaves agudos do belo timbre de Luedji, nos versos “Oxalá quem guia / Oxalá quem te mandou”.

Enfim, não deixe de escutar todo o Um corpo no mundo – e tente ficar indiferente ao arrepiante encerramento do álbum com “Iodo + Now Frágil”, talvez a faixa mais experimental do projeto, e também a mais militante (e necessária, ainda).

Luedji foi mais uma grata surpresa que o Contato me proporcionou. Olho nessa menina.

luedji-luna
Luedji Luna: voz nova que ainda será muito escutada Brasil e mundo afora.

No projeto Estúdio Showlivre, em 2018, Luedji registrou uma versão ao vivo de “Banho De Folhas”, que transmite um pouco do axé que conferi ao vivo no Contato:

Pesquisando por aí, é possível encontrar diversos remixes da canção, alguns avalizados pela própria cantora. Fique com o seguinte, parceria entre DJ Moma e Guy Furious, e se jogue na pista:

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