146. Capital Inicial: “Belos E Malditos”

Belos e malditos
Feitos para o prazer
Os últimos a sair
Os primeiros a morrer
Belos e malditos
Eles ou ninguém
De carne quase sempre
São anjos para alguém


Era 1989 e o Capital Inicial precisava se reinventar: após uma excelente e vigorosa estreia (Capital Inicial, 1986), veio um álbum razoável (Independência, 1987) e, seguindo a tendência de queda, o lamentável Você não precisa entender (1988).

Antes pós-punk, a sonoridade da banda envolvia-se de forma constrangedora com batidas eletrônicas e tentativas desastrosas de soar funky ou dançante, ainda que mantendo certo apreço lírico.

A saída foi cercar-se de outros compositores, desvencilhar-se um pouco das eletroniquices e tentar a redenção com um novo álbum. E assim foi gestado Todos os lados (1989), que soa excelente, em comparação com o execrado (e execrável) disco anterior.

Alvin L., nascido na Bahia mas criado no Rio de Janeiro, foi um dos escalados para acudir o Capital, auxiliando na composição de 9 das 11 faixas do álbum. Em entrevista ao fã-clube de Belo Horizonte da banda brasiliense, o compositor narra como veio a conhecer os novos companheiros musiciais:

Como e quando surgiu sua parceria com o Capital?

No final dos anos 80, eu tinha uma banda chamada Brasil Palace, que eu fiz pra tocar bossa-nova com distorção. Era o auge do RPM e eu querendo tocar bossa-nova com distorção! (risos) Eu fui fazer um show em São Paulo com essa banda e convidei todos do Capital, mas só o Fê [Lemos] foi. Depois, ele chegou pra mim no camarim e disse que tinha amado as letras, que apesar de não gostar de bossa-nova e muito menos de distorção, não sabia que eu escrevia tão bem. Três meses depois, o Dinho [Ouro-Preto] me ligou e pediu pra que eu lhe mandasse minhas composições.

Uma dessas composições era a canção de hoje, “Belos E Malditos”, cujo processo de gravação é detalhado em outra entrevista de Alvin, concedida a Bernardo Schmidt:

A – […] “Manda suas músicas, vamos ouvir”. Isso foi mais ou menos por 89. E eu tinha uma música do Brasil Palace que era muito boa, que era minha e do Renato [Russo], chamada “Belos E Malditos”. Pensei “essa música é muito boa”, e como eles gravavam muita coisa do Renato, falei “vou mandar essa” […] e mandei umas letras soltas que eu tinha. Aí depois ele [Dinho] me ligou, falou “Ah, adorei ‘Belos E Malditos’”, não sei o quê, “as outras letras eu não gostei”. Eu acho que eu mandei umas coisas meio muito em cima… achando que eles iam querer uma coisa meio Renato Russo, eu pensei “as mais Renato Russo que eu tenho são essas e não eram muito boas”. Você fica meio sem saber, naquela época eu não tinha esse lance de compositor, não era, eu fazia porque fazia. […] Uma semana depois me liga o Dinho e me diz “fizemos ‘Belos E Malditos!'”, eu digo “fizemos como?”, “ah, porque a gente perdeu a fita, aí pegamos só a letra e fizemos a música!” (risos) Nessa história eu já tava assim: “Quer saber? WHATEVER!!! (risos) Be happy!” Liguei pro Renato, falei “aconteceu isso”, o Renato “ah, você vai ganhar dinheiro, ótimo”, foi super gente-fina… e eles estavam brigados nessa época. Eles tinham brigado, não estavam se falando e o Renato foi super gente-fina, falou “Não me importo, pode dar a música, você vai ganhar dinheiro, vai ser ótimo pra você”. Gente-finíssima da parte dele.
R – Mas a melodia não tem nada a ver?
A – Não, é outra melodia (risos). A letra é a mesma, mas a melodia…
B – Agora, cá entre nós: qual que é a melhor? (risos)
A – Cara, a essa altura do campeonato eu não me lembro mais como era…
B – Whatever.
A – Ficou aquela, a versão do Capital é a versão que eu me lembro.

Assim, “Belos E Malditos” entrou para o repertório de Todos os lados como um intimista e belo momento acústico, talvez o primeiro do Capital – que investiria pesadamente nos violões em seu álbum seguinte, Eletricidade (1991), o último antes do recesso da banda, com as saídas do vocalista Dinho e do tecladista Bozzo Barretti – respectivamente, provisória (até 1998) e definitiva. A propósito, a versão gravada é creditada, além de a Alvin e a Renato, a Dinho, a Bozzo e ao guitarrista Loro Jones.

A letra da canção (apresentada em alguns shows, por Dinho, como “uma música sobre rock n’ roll”) fala sobre os tais belos e malditos, ídolos jovens imersos em contradições: “Os últimos a sair  / Os primeiros a morrer”, “Eles ou ninguém”, “De carne quase sempre / São anjos para alguém”, “Drama e carnaval”, “O lado escuro do paraíso  / O bem que vem do mal”.

Para mim, soa mesmo como um relato autobiográfico: Renato, a essa altura já içado a ídolo da juventude, rejeitava o papel de líder messiânico. Afinal, era um sujeito imperfeito e sabia muito bem disso: tabagista, recusou-se a participar do festival Holywood Rock com a Legião Urbana, para não se envolver com uma marca de cigarros, dizendo que “Para isso, já existe o Capital Inicial” – e isso, no auge da richa comentada por Alvin na transcrição acima. Em outro episódio, comentou que não desejaria ver “Faroeste Caboclo” se tornar um filme, por temer que o mesmo se convertesse, involuntariamente, numa apologia às drogas – embora ele mesmo quase tivesse enveredado no vício em heroína. Era, assim, um indivíduo consciente dos perigos de se confundir a persona pública com a privada.

Infelizmente, a indústria cultural pouco se importa com essa ética, preferindo explorar a imagem desses ícones até seu previsível perecimento: “Belos e malditos / Culpados por viver / Num mundo feito de tédio / Cego para o poder / […] Eles brincam com fogo / E sabem queimar”.

Num repertório repleto de canções dos tempos em que tocava no conjunto Aborto Elétrico com a cozinha do Capital (os irmãos Fê e Flávio Lemos), “Belos E Malditos” acabou sendo a última letra “inédita” (considerando as lançadas nos discos da Legião Urbana) de Renato gravada pelo Capital Inicial.

capital-inicial
O Capital Inicial, nos anos 1980: buscando retomar o caminho do sucesso com Todos os lados.

Com a saída de Dinho, o santista Murilo Lima foi convidado para assumir os vocais do Capital. Chegou a gravar dois álbuns pesados e surpreendentemente bons, Rua 47 (1995) e Ao vivo (1996). Neste último, aparece uma emocionante versão de “Belos E Malditos”, que perde o clima acústico a certa altura e cita a bela “40” do U2 (que encerra o álbum War da banda irlandesa, de 1983):

O retorno de Dinho foi celebrado com um lançamento excelente, Atrás dos olhos (1998). Sucesso de vendas e de crítica, o álbum foi bem tocado nas rádios (fizeram sucesso a punk “1999”, o rock “O Mundo” e a balada “Eu Vou Estar”) e esse inesperado renascimento da banda foi catapultado com a gravação de um Acústico MTV em 2000. O repertório do show, gravado no Teatro Mars em março daquele ano, trazia 17 canções, sendo 14 aproveitadas para o CD/DVD lançado pela MTV. Ficaram de fora “Kamikaze”, “1999” e a própria “Belos E Malditos”. Em 2002, a coletânea Uma nova história divulgou as versões acústicas das duas últimas canções (e os fãs continuam se perguntando o que houve com “Kamikaze”!), e você pode conferir “Belos E Malditos” abaixo: 

Uma estorinha: nessa época, o Capital fez dois shows em São Carlos, em 2000 e 2001, ambos pertinho de casa (respectivamente, no lendário Torto Bar – que tinha esse nome por ficar atrás da Faculdade de Direito – e na Usina de Eventos). Os dois, a que assisti junto de meu pai, foram muito bons. No de 2000, já no bis, queria porque queria que fosse tocada a versão acústica de “Belos E Malditos”. Nada. Como consolação, uma versão incrível, executada por toda a banda, de “Rolam As Pedras” do Kiko Zambianchi – que então excursionava com o Capital.

Já o show de 2001 (por alguma razão, lembro da data, 20 de setembro) não foi totalmente acústico: Loro Jones empunhou uma Telecaster, embora tenha se comportado e mantido os timbres quase sem distorção.

Foi o melhor show que presenciara até então: mais de duas horas de som e, ainda por cima, “Belos E Malditos” no bis! Nos anos seguintes, o Capital renovou o repertório e o público, já não valendo mais a pena frequentar suas apresentações na espera por canções antigas ou lados-B (o que vim a comprovar na prática, indo a meu último show da banda em 2003).

Em 2016, o conjunto lançou seu segundo álbum desplugado, Acústico NYC, que tem o mérito de não repetir nenhuma canção do registro da MTV – exceto “Belos E Malditos” que, afinal, apareceu no CD e no DVD. A versão tem a participação de Seu Jorge que, no making of do projeto, conta que seu irmão, falecido, era fã da banda, tendo lhe apresentado suas canções mais antigas. O arranjo ficou bonito, ganhando novamente baixo e bateria. Um atrativo extra fica por conta de outra citação incidental, “Walk On The Wild Side”, de Lou Reed – como ocorria nas apresentações do Capital logo após o retorno de Dinho:

Como curiosidade, segue o remix oficial da canção, lançado em Remixes (1998):

3 comentários

  1. Belos e Malditos me remete à frase que diz”os bons morrem jovens”,que parece ser uma música do Renato Russo também.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s