147. Raça Negra: “É Tarde Demais”

Olha só você
Depois de me perder
Veja só você
Que pena
Você não quis me ouvir
Você não quis saber
Desfez do meu amor
Que pena, que pena
Hoje é você quem está sofrendo, amor
Hoje sou eu quem não te quer
O meu coração já tem um novo amor
Você pode fazer o que quiser


Não havia como ficar imune: andando por qualquer lugar, sempre havia alguém escutando rádio naquele volume impositivo, e quase sempre estava tocando o que hoje chamamos de “pagode dos anos 90”. Ao menos é essa a lembrança musical mais forte que tenho dos anos de 1994 e 1995. A prova de que realmente era assim é que, sem nunca ter comprado nenhum disco daquela legião de conjuntos que invadiam as paradas das FMs, sei de cor diversos de seus hits.

Não sei dizer qual era meu conjunto preferido, se é que tive algum. Mas guardo boas recordações do repertório dos paulistas do Raça Negra. O vocalista Luiz Carlos era carismático e as canções pareciam exalar um romantismo muito puro, quase ingênuo, sem soar forçado ou afetado – bem diferente, por exemplo, das canções do Só Pra Contrariar de Alexandre Pires, que nunca me convenceram muito.

Mesmo assim, estava na dúvida se deveria pautar o Raça Negra aqui no blog. É certo que “Cheia De Manias” é um dos momentos mais divertidos de minha “hit parade anos 1990″, mas não achei que haveria algo a ser dito sobre um dos maiores sucessos do conjunto, e abortei a ideia de tematizá-la.

Há quase dois meses, a escuta de “É Tarde Demais” num bom pagode domingueiro – e observando que o público, de todas as idades, cantava junto a canção – me fez cogitar trazê-la aqui, mas novamente abandonei a ideia. Também pensei não ter nada a acrescentar sobre a faixa escrita pelo próprio Luiz Carlos e por Elias Muniz, e lançada no sexto álbum do conjunto, intitulado apenas Raça Negra (1995).

Ontem, porém, voltava de uma rápida passagem por São Paulo, com itinerário reprogramado durante o caminho de metrô, ao perceber que me dirigia exatamente para o meio daquelas manifestações com cartazes pedindo o fechamento do STF e do Congresso Nacional, a volta dos anos de chumbo e a manutenção do cortes orçamentários sobre a educação (Jesus, que hospício se tornou este país!). Quando cheguei a Santo André, saindo da Estação Utinga da CPTM, ouvi o som do Raça Negra sendo tocado num dos inúmeros bares que ladeiam os trilhos de trem. Não consegui identificar a canção que tocava, mas notei que uma moça que descera do meu vagão – ao contrário de TODOS os camisas-amarelas que observei no transporte público, negra – começou a cantarolar, acompanhando o som das caixas de som. Por algum motivo, achei a cena bonita, comovente e significativa. Mas mal tive tempo de processar o que se passava, quando a faixa mudou, justamente para “É Tarde Demais”. Novamente, a moça permaneceu cantando, me juntei a ela na cantoria discreta e percebi que o mesmo ato contaminara outros transeuntes.

raça negra.jpg
Luiz Carlos à frente do Raça Negra, nos anos 1990: samba romântico que, da euforia à fossa, deu voz aos sentimentos de muita gente.

Como disse, tudo isso me pareceu muito significativo (ou, como diria o sábio narrador Cléber Machado, “Eu não sei o que isso significa… mas pode ser qualquer coisa!”). Quer dizer, ouvir Raça Negra embalando a caminhada de pessoas (em sua maioria) negras, numa região carente, e após observar vários manifestantes com suas indefectíveis camisetas da CBF (todos brancos, quase nenhum jovem) pode representar de tudo: o fato de a população mais pobre estar à margem do projeto econômico ultraliberal do atual governo, se é que podemos falar em “projeto”; a resistência do samba, ainda que em sua vertente melosa e adocicada (pra não dizer domesticada), como expressão das massas periféricas; a perenidade de uma canção ou de um conjunto que, não obstante sua ausência nas discussões acadêmicas, permanece na boca do povo há décadas; ou a expressão mais cotidiana do poder da canção popular, no contínuo entre o mero adorno de uma tarde de domingo, até a completa identificação com a biografia dos ouvintes.

Aliás, quanto a esse último aspecto, foi interessante realizar uma imersão etnográfica nos comentários à cançao no YouTube, donde extraí os que considerei mais representativos:

comentarios-raca-negra.jpg

Os dois primeiros me fizeram rir, e dão uma boa mostra do poder de difusão das canções do Raça Negra, além de sua onipresença em toda e qualquer boa celebração (quase sempre, etílica). O último é um resumo bem-humorado do que faz, afinal, a voz que canta “É Tarde Demais”: expõe, sem cerimônias, o sujeito do desamor, atira tudo na cara e, cinicamente, lamenta a impossibilidade de uma nova conjunção amorosa, empregando os nada asseverativos versos “Que pena / Que pena, amor” (ah, a melodia nunca mente!). Já os dois comentários intermediários mostram como as letras do conjunto são de fácil identificação. Até porque, como conta Luiz Carlos no programa Ensaio, a canção é baseada numa estória verídica:

Ela casa com um cara. O cara é estéril: ele não pode ter filhos. O sonho dela é ter filhos, então ela fica oito anos casada sem ter os filhos, e depois [da separação] ela quer voltar. Ela ama aquele cara, mas ela precisava sair porque ela queria ter filhos.

Pois é, o Raça Negra canta o Brasil. E não me parece ser o mesmo Brasil que foi às ruas ontem.


Notória por ter sido executada 600 vezes num único dia, valendo-lhe o registro no Guiness book, “É Tarde Demais” foi gravada e regravada oficialmente incontáveis vezes.

Vou compartilhar apenas o registro do DVD Gigantes do samba (2016), que uniu Luiz Carlos e Alexandre Pires no mesmo palco, interpretando seus clássicos. Além de ter um balanço gostoso, acho bacana a plateia cantando junto (como tem que ser e, aliás, como sempre acontece em qualquer execução ao vivo da canção):

Entre as covers, destaco apenas o que os cariocas da Harmada fizeram com a canção, no tributo indie (!) ao Raça Negra, Jeito felindie (2012). Prefiro a original, mas fica ao menos como curiosidade:

2 comentários

  1. Na minha cidade o Raça Negra fez muito sucesso,em todo lugar tinha alguém ouvindo o conjunto (!?),e o sucesso permanece.Quanto à manifestação de domingo… Não passarão.

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