148. Toquinho: “À Sombra De Um Jatobá”

Raios de sol na varanda
Verde cobrindo o jardim
Poder sentir a vida espreguiçar
Com o cheiro da madrugada
Dama-da-noite, jasmim
Olhar no céu estrelas pra contar


A canção que nomeia o álbum À sombra de um jatobá (1989), de Toquinho, me parece bastante representativa do que se tornou o cancionista a partir de suas parcerias com Vinícius de Moraes. Isso, em termos composicionais, ignorando-se o carregado arranjo, oitentista até a medula e, portanto, bastante brega. Por sinal, esse mal acomete boa parte das canções do álbum, com pesadas camadas de teclados, timbres de guitarra que hoje soam risíveis, aquela bateria cheia de reverbs e outros (d)efeitos e coros femininos, muitos coros femininos.

De cara, a obra já entrega a ideia do repouso na paisagem bucólica, momento em que o homem persegue a conjunção com valores intensos, enquanto se distancia da extensividade cotidiana. A harmonia, nesse sentido, atravessa dissonâncias que relembram a precariedade da paz almejada na parada “à sombra de um jatobá”: por exemplo, no percurso da tônica à dominante (ou seja, do Sol Maior ao Ré Maior), uma ascensão cromática atravessa ao menos uma nota (o Ré Sustenido do acorde de Gadd5) que causa estranheza, desnaturalizando, assim, a busca pelo natural.

Toquinho, portanto, se vale de um recurso que aparece em algumas de suas parcerias com Vinícius, notadamente aquelas que, como “À Sombra De Um Jatobá”, também realizam uma apologia da merecida pausa no ambiente imaculado, que pode ser uma praia baiana, como em “Tarde Em Itapuã”, ou um espaço rural sob um céu azulado, no rancho “As Cores De Abril”. Também nessas canções, aparecem notas desestabilizadoras da paz pretendida ou apreciada, trazendo quintas aumentadas ou saturações de trítonos com os acordes diminutos.

toquinho
Toquinho: em À sombra de um jatobá, se virando sem a presença física de Vinícius de Moraes, mas ostentando a influência do poetinha.

Além desses resultados temáticos e harmônicos que ecoam as primeiras composições do violonista paulista com o poetinha, “À Sombra De Um Jatobá” traz outras reminiscências dessa que foi uma das mais frutíferas parcerias da canção popular brasileira. A letra, ao mencionar que “Poucas coisas valem a pena / O importante é ter prazer”, lembrando que “Hoje estamos nós em cena e não há tempo a perder / Pois tudo acaba mesmo sempre em despedida” (hoje estamos nós, amanhã podemos não estar!), soa como uma versão um pouco mais madura da “Aquarela” – que nem é uma canção assim tão infantil quanto sua melodia e seu uso comercial deram a entender, pois fala da irreversível passagem do tempo e de todas as sufocantes incertezas sobre o futuro, perante a única certeza absoluta: o fim da vida (“que descolorirá”). Muitas canções de Vinícius, mais antigas, já se referiam a essa preocupação com a efemeridade da vida – exemplos claríssimos são “Testamento”, do primeiro álbum da dupla, e o próprio “Samba Da Bênção”, com outro parceiro do poeta-e-diplomata-na-linha-direta-de-Xangô-saravá!, Baden Powell.

Pessoalmente, “À Sombra De Um Jatobá” me leva para 2010, quando comecei a frequentar a casa de yoga de minha professora Luciana “Lila” Leuzzi, na região rural de São Carlos (e, portanto, pertinho de minha casa). O espaço era o Jatobá Terra Prana Yoga e a imagem abaixo, de sua área frontal, explica o porquê dessa menção à planta do gênero Hymenaea:

Jatoba.jpg
Cantinho bom para pacificar os pensamentos, como ensina a imagem do Senhor Buda. Já pratiquei muito yoga aí… à sombra de um jatobá.

Quando a Biscoito Fino lançou os dois volumes de Seu violão e suas canções (2010), Toquinho não desperdiçou a oportunidade de registrar uma versão singela e, portanto, muito mais adequada, para “À Sombra De Um Jatobá”. Agora sim! É o mestre sozinho com seu violão, e não é preciso mais nada:

2 comentários

  1. Linda canção,pensando bem Vinícius de Moraes foi ficando cada vez mais popular,sua fase mais radiofônica foi com o Toquinho.

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    1. E até que Toquinho caminhou bem sem a presença do Vinícius. Poderia ter retornado à carreira de músico erudito, mas permaneceu atuante relevante para a canção popular.

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