149. Falcão: “Holiday Foi Muito”

O homem nasce sem maldade
Em parte nenhuma do corpo
“O homem é o lobo do homem”
Isso explica a veadagem congênita
E a baitolagem adquirida
Sendo assim,
Quem nunca queimou o anel quando menino
Queima-lo-á quando crescido
E isso explica novamente
A história da veadagem adquirida


“Holiday Foi Muito” é, provavelmente, o maior sucesso do cearense Falcão, lançada no álbum A besteira é a base da sabedoria (1995) e composta pelo próprio cantor e por Tarcisio Matos. De certa forma, o título do disco resume minhas intenções com este post.

Ainda era criança quando a canção começou a tocar nas FMs, e uma versão resumida de seu videoclipe foi exibida no programa dominical Fantástico. Isso já foi em 1996 e lembro de termos gravado o clipe numa fita VHS, que assisti à exaustão, me divertindo com as cenas que mesclavam Falcão cantando numa boate gay e ilustrações, por vezes literais, dos achados poéticos da letra. É certo que eu não entendia nada daquilo; mas a diversão era garantida, naqueles tempos em que sequer sonhávamos com algo minimamente parecido com o YouTube.


Não há muito o que falar sobre o arranjo, que explora clichês da música brega, e da harmonia, banal. O que conta mesmo, neste post, é a letra da canção.

De cara, Falcão entrega o tema do que será exposto, logo no primeiro verso: “O homem nasce sem maldade em parte nenhuma do corpo”. Então falaremos sobre o ser humano, sobre a maldade (no sentido de malícia, o oposto da ingenuidade e, por extensão, a propensão a sexualizar determinados conteúdos) e sobre as partes (genitais e adjacências) do corpo (veículo da expressão, do ser e do estar). E epigrafa Thomas Hobbes: “O homem é o lobo do homem”. Esses versos trazem, portanto, uma nota metodológica: o primeiro anuncia o objeto de investigação, já enumerando uma tese; o segundo traz uma primeira referência, que indica a necessidade de se buscar a resposta, para esse problema de pesquisa, no próprio homem. Tudo o que diz respeito à humanidade, inclusive seu comportamento enquanto corpo-no-mundo, ser situado e histórico, reside nas capacidades e limites do próprio gênero humano.

Estabelecidas essas premissas, Falcão arrisca: “Isso explica a veadagem congênita / E a baitolagem adquirida.” Então é disso que se trata: vamos falar sobre a homossexualidade. Novamente, de forma analítica e cuidadosa, a letra distingue entre duas expressões do mesmo fenômeno: a que procura suas causas “internas” (a genética, a hereditariedade) e a que situa suas origens no exterior (fruto do hábito, da educação – talvez, na visão do próprio cancionista, uma deseducação).

Prosseguindo com o raciocínio, temos algumas conclusões, talvez apressadas, talvez não: “Sendo assim / Quem nunca queimou o anel quando menino / Queima-lo-á quando crescido / E isso explica novamente / A história da veadagem adquirida”. Em meio às disposições internas e aos estímulos externos, sobra pouco espaço para se preservar a heterossexualidade intacta. Duas leituras decorrem desse silogismo: a primeira, conservadora, tomará os versos como um resumo das queixas sobre a tal “ditadura gay”, uma espécie de movimento que estaria buscando converter o maior número possível de pessoas ao comportamento homossexual (ou, de forma mais direta, “levar todo mundo pra irmandade!”, como diria o personagem Seu Peru, da Escolinha do Professor Raimundo); a segunda leitura é mais progressista e considerará que, diante do cenário exposto, a luta pela heterossexualidade pura é uma ilusão e o melhor a se fazer é vivenciar a sexualidade sem grilos, sem limites, sem fronteiras (ou seja, vamos nos jogar, vamos ser “do babado”, vamos lacrar… e o moralismo que se exploda, pois já estamos no século XXI).

Essa é a primeira parte da canção. Na segunda, o cantor prossegue na ontogênese, embora acene para a filogênese do gênero humano, ou melhor, sua sociogênese: “O indivíduo nasce, cresce / E adentra ao mundo social e político / Filosófico e artístico / Fica danado, letrado, inteligente e sabido”. Continua: “Conhece tudo, explica tudo / E discute com bastante elegância / Os rumos da catilogência / Fica suave, delicado e aberto / A novas experiências”. (O significado de catilogência ainda é objeto de debates; prossigamos sem enveredarmos nessa polêmica). A humanização é também um processo de refinamento, de superação do comportamento bruto. Se a violência é natural na pré-história da humanidade, com as noções de direito e Estado (ainda que elementares) o comportamento agressivo será reprimido e considerado passível de sanção. Abre-se a possibilidade de o semelhante (inclusive em termos de gênero), de objeto de repulsa e alvo da agressividade, se tornar objeto de fascínio e alvo da investida sexual e/ou afetiva. Nesse caso, a ontogênese recapitula a filogênese: assim como a humanidade refinou seus modos graças à internalização dos códigos da vida em sociedade, o indivíduo pode passar pelo mesmo processo, e a educação se inscreve como instrumento para a superação dos instintos violentos, silenciados em prol de um comportamento afetuoso, empático e (por que não?) erótico em relação aos outros membros da comunidade. Nessa sociedade, o relacionamento que não vise à constituição da família (ao menos em sua noção estereotipada) passa a ser uma possibilidade, afinal, o comportamento meramente instintivo já não é a regra, e admite-se o tipo de relacionamento que não implique o ato reprodutivo. Faltou dizer, no início deste parágrafo, que estamos falando de um cenário utópico, isto é, uma projeção a partir dos dados de que atualmente dispomos; considero, assim, que o gênero humano já acumulou condições materiais (inclusive jurídicas) para concretizar tal mundo, embora essa possibilidade ainda esteja negada no atual estado de desenvolvimento cultural da humanidade.

Tudo parece simples até aqui. As explicações satisfazem e são racionais, lógicas, fundamentadas. Mas então vem a terceira parte da canção e todas as certezas caem por terra: a ciência mostra seus limites. Constata o cantor, com seus trocadilhos: “Nada de novo no front, descombalizado, leso / A saída é a retaguarda / E isso explica a evolução / Da perobagem adquirida”. O videoclipe não mente: após falar em evolução, temos a exibição da clássica figura com a marcha do progresso, do primata corcunda e quase quadrúpede, passando pelo Homo sapiens… e chegando ao homem travestido e seu paroxismo, a drag queen. Enveadar é evoluir. Mas por quê? Como disse, a ciência é limitada e não traz respostas para todas as questões. Um empreendimento investigativo quase sempre fracassa em elucidar perguntas de pesquisa formuladas em seu início, se contentando em descobrir verdades (provisórias e refutáveis, ainda assim, verdades, em relação ao cenário prévio de ignorância) sobre outras questões que surgem no caminho. Assim, o sujeito da canção joga a toalha: “Fica difícil um estudo / Uma tese, uma análise / À luz da ciência / O homem inteligente dá / Ou dá porque é inteligente?”. A dúvida, que representa o beco sem saída com que viemos a nos deparar, é legítima – que a homossexualidade é um comportamento facilitado pelas atuais condições de existência, isso não há dúvidas; trata-se de saber, agora, se tal comportamento:

  • É uma conquista histórica da humanização (residindo, portanto, no aspecto sociogenético do gênero humano), ou seja, uma vez humanizado (inteligente), a abertura (opa!) ao comportamento homossexual se torna um instrumento (entre outros) para a construção da individualidade, a exemplo da linguagem. Aqui, estamos no âmbito das inerências: o homem inteligente dá, o homem inteligente se comunica, o homem inteligente imagina, luta, voa, se emociona, constrói, etc.
  • É uma implicação do raciocínio, uma vez aplicado à análise das situações existenciais particulares de cada ser humano (residindo, assim, no aspecto ontogenético) – pois o domínio de instrumentos intelectuais, como a matemática, possibilita raciocinar, por exemplo, que o comportamento homoafetivo duplica as possibilidades de conjunção sexual, de felicidade matrimonial, etc. O homem dá porque é inteligente!

Entremeadas a tantas idas e vindas do pensamento, Falcão traz apenas certezas que não extrapolam o domínio da identidade lógica, impossibilitando qualquer avanço para além das tautologias: “Porque homem é homem / Menino é menino / Macaco é macaco / E veado é veado / Homem é homem / Menino é menino / Politico é politico / E baitola é baitola”. Aqui, é como se o sujeito desistisse de encadear raciocínios e cedesse à tentação de reproduzir a sabedoria dos antigos, o senso comum – que é profundamente antidialético e, portanto, reacionário.

Ora, por que um homem não pode ser, também, um menino? (Pense no “Guerreiro Menino” de Gonzaguinha, em “Bola De Meia, Bola De Gude”, do 14 Bis, ou no Rei Roberto Carlos cantando “Lady Laura”). E porque um menino não pode ser, desde já, um homem (coisa que o personagem que canta “Marvin”, dos Titãs, foi obrigado a se tornar, por conta da morte do pai, o mesmo acontecendo com o garoto de “Espelho”, cantada autobiograficamente por João Nogueira)? O homem, privado das condições mínimas de subsistência, não é também um indivíduo desumanizado, um macaco? (Aqui, lembro das denúncias e reivindicações do rap dos Racionais, conjunto que, já no nome que adota, faz referência ao momento em que Tim Maia também falava da necessidade de se superar o atual estágio materialista e animalesco da sociedade, em direção à verdadeira humanidade… se bem que inspirando-se em preceitos de origem duvidosíssima, como vimos aqui). Da mesma forma, o veado pode ser mesmo muito homem… ou um político! (Penso em Jean Wyllys). E ainda, o menino pode ser político, e como: vejam-se as recentes manifestações contra os cortes (eufemisticamente chamados de “contingenciamentos”) no orçamento educacional, encabeçadas pela juventude, milhões de meninos e meninas do Brasil todo, mostrando que o posicionamento político é algo que se pratica desde cedo (e do qual é impossível escapar).


Finalizado este post cheio de reflexões sobre a história da humanidade, a sociologia da (homo)sexualidade, a epistemologia, a política… como queríamos demonstrar, a besteira pode sim ser a base da sabedoria.

falcao.jpg
Falcão: brega com muito intelecto, falando sobre o mundo social e político, filosófico e artístico.

2 comentários

  1. Nunca tinha prestado atenção nessa letra (a não ser no refrão),traz algumas reflexões interessantes em tom de blague,e coincidentemente estou lendo Thomas Hobbes. – Falcão,o filósofo do sertão.

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