150. Adoniran Barbosa: “Iracema”

Iracema, eu nunca mais que te vi
Iracema meu grande amor foi embora
Chorei, eu chorei de dor porque
Iracema, meu grande amor foi você
Iracema, eu sempre dizia
Cuidado ao travessar essas ruas
Eu falava, mas você não me escutava não
Iracema, você travessou contra mão


Se São Paulo é mesmo o túmulo do samba, ainda há muito o que se discutir. A verdade é que todo paulista conhece, desde pequeno, ao menos um refrão do batuque de nossa terra: “Trem Das Onze”. Aliás, como filho único, sempre me identifiquei com os versos “Sou filho único / Tenho minha casa pra olhar” – embora nunca tivesse sido arrimo de família. Agora, morando no ABC e dando alguns passeios noturnos por São Paulo, sinto uma ressonância maior em “Se eu perder esse trem / Que sai agora às onze horas / Só amanhã de manhã”.

Essa é uma das chaves interpretativas para se examinar a obra de João Rubinato, o popular Adoniran Barbosa. Seus sambas estão indissoluvelmente ligados à própria história da urbanização da cidade de São Paulo (e, por extensão, das demais capitais e mesmo das cidades do interior), tratando do árduo processo de adaptação compulsória de seus habitantes aos ditames do concreto e da civilização (palavras tratadas como sinônimas pelos planejadores urbanos).

A canção de hoje, “Iracema”, composta em 1956, é um excelente exemplo. Na versão de Adoniran (já tendo sido gravada, anteriormente, pelos Demônios da Garoa), lançada no álbum Adoniran Barbosa (1974), trata-se de um samba com andamento moderado (82 bpm), em tom menor, cuja letra relata o atropelamento de Iracema – que morre por não ter olhado para o lado certo da via, a Avenida São João.

A relação entre as canções de Adoniran e a urbanização paulistana foi, inclusive, tema de tese de doutorado. Abaixo, segue um excerto do trabalho de Marcos Virgilio da Silva (Debaixo do “pogréssio”: urbanização, cultura e experiência popular em João Rubinato e outros sambistas paulistanos (1951-1969). 2011. 301 f. Tese (Doutorado em Arquitetura e Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011), dedicado à canção de hoje:

O samba se estrutura numa sequência que vai da evocação de Iracema, a narração do episódio dramático (posteriormente detalhado no trecho falado), e a reminiscência com a qual se conclui o relato. É nesta segunda parte que se encontra a relação conflituosa pedestre-automóvel que inspira o drama de Iracema: o alerta do narrador (“cuidado ao atravessar essas ruas”) é indicador da percepção de que já é notável alguma mudança no ambiente frequentado pelos personagens. Embora perceptível, essa mudança ainda não é totalmente incorporada, ao ponto de Iracema não apenas desconsiderar os alertas mas, possivelmente desapercebida, atravessar em local inadequado, causando seu próprio atropelamento.

Este drama é apenas acentuado pela constatação de que “o chofer não teve culpa”, mas, mesmo inocente, a imagem do chofer ilustra uma nova realidade urbana com a qual se deve aprender a lidar (“paciença”), sob pena de pôr a própria vida em risco. Essa nova realidade urbana é que impressiona o compositor, à medida que nela a vulnerabilidade das vidas individuais é reafirmada. Nisto seria possível observar um certo contraponto às teorias de modernização em voga na época em que Adoniran compôs o samba: o fenômeno da urbanização, especialmente quando associado a uma intensa migração rural como então ocorria, não é apenas uma passagem de um estágio evolutivo a outro, numa sequência progressiva. O samba se encarrega de lembrar que, na escala temporal de uma vida, essa passagem pode simplesmente não se realizar. O preço individual pago pelo “progresso” coletivo pode ser alto demais (p. 212-213).

Como ciclista convicto e experiente em atropelamentos (já sofri ao menos quatro, felizmente, apenas um mais grave), faço minhas as palavras do autor, que tão bem analisa essa canção – a qual, há mais de meio século, já denunciava os problemas acarretados pela organização do espaço urbano conforme a lógica do fluxo automobilístico.

Em meio ao apocalipse motorizado, Iracema, ainda hoje, pode ser eu ou você.

adoniran-barbosa.jpg
Adoniran Barbosa: São Paulo como túmulo do samba ou do “pogréssio”?

“Iracema” é daquelas canções gravadas e regravadas por muita gente. Nesses casos, vejamos apenas os destaques.

Impossível desconsiderar a versão original dos Demônios da Garoa, cujo arranjo é reproduzido até hoje nas apresentações ao vivo do conjunto mais longevo da história. O registro é de 1964, do LP Trem das 11:

Como na versão de Adoniran, o andamento é moderado, o que contribui para a diluição da passionalidade provocada pela tragédia com Iracema. O atropelamento fatal, assim, é enquadrado como mais um fato cotidiano, em meio à vida acelerada da paisagem urbana.

O mesmo não ocorre numa das versões mais conhecidas da canção, a que aparece em Guerreira (1978), o excelente álbum de Clara Nunes. O registro é passional até a medula. A mineira-guerreira apresenta, então, uma interpretação de tirar lágrimas dos olhos – com a comovente participação do próprio Adoniran, na parte falada:

Reeditando o dueto, Ney Matogrosso registrou em 2016 uma versão que segue na mesma linha da desaceleração disfórica e disjuntiva. Dessa vez, é o ex-titã Paulo Miklos quem recita o depoimento resignado de Adoniran. Fica mais como curiosidade, pois as versões definitivas são as que expus acima:

8 comentários

  1. Essa música dá um aperto, não entendo o sentimento do narrador. Ele parece apaixonado, diz que chorou de dor pela perda, que agora ela vive no céu. Mas ao mesmo tempo ele demonstra certa indiferença à pessoa amada – você não me escutava; você (que) atravessou (na) contramão; paciência, Iracema, o erro foi seu. Só ficou seus restos materiais – meia e sapato; perdi sua memória, seu retrato.
    Sei lá, não sei, sei lá, não sei não…
    Parabéns pelo projeto. Saudações.

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    1. Grande Krusty! É muito interessante essa postura dúbia do narrador. Ao mesmo tempo em que quer sentir o padecimento por conta da companheira, uma força maior parece se impor, exigindo a mencionada frieza. Seria essa força maior a própria opressão urbana, que tanto nos des-humaniza?
      Grato pelo comentário.

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  2. Adoro ”Iracema”,principalmente na voz de Clara – O eu lírico da canção se mostra bem realista,o que não tem remédio-remediado está.

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