151. Planet Hemp: “Mantenha O Respeito”

Preste atenção
Portas se abrem e aumentam o poder da visão
Isso é o meu compromisso
E se eu fumo, ninguém tem nada com isso 
Não preciso da sua postura
A minha segurança eu faço na cintura
Um hipócrita vai, e os valores não caem
É tanto preconceito que eu não aguento mais
Se você tem amor pelo que tem no peito…
Mas mantenha respeito


O jornalista Luís Nassif, comentando mais um massacre recente ocorrido dentro do sistema prisional (dessa vez, em Manaus, com a morte de 55 pessoas), explicou o funcionamento de uma verdadeira indústria do encarceiramento – que envolve desde os responsáveis pelas políticas de segurança até os agentes da lei, sendo ditada por um setor empresarial que comanda os diversos presídios com gestão terceirizada: 

O raciocínio de Nassif demonstra por A + B que mais presos significam mais verbas para essas empresas que, mais do que prestadoras de serviços, são verdadeiras parcerias do sistema de administração penitenciária. Isso porque financiam campanhas eleitorais, o que resulta na capacidade de influenciar decisões políticas a seu favor.

Ao mesmo tempo, o clamor pelo aprisionamento dos corpos atende ao apetite voraz das massas, que enxerga nas penitenciárias a melhor alternativa para a problemática envolvendo a segurança pública. Não percebem, as turbas enlouquecidas, que a pretensa solução torna o problema pior: o encarceiramento, nas condições subumanas dos presídios brasileiros, apenas cria uma massa de indivíduos mais revoltados, mais violentos e mais identificados com a cultura do crime – e cooptados pelas poderosas organizações criminosas. É preciso lembrar que, mais cedo ou mais tarde, esses homens e mulheres retornarão à vida em sociedade, mais preparados e dispostos (por não terem nada a perder e, agora, nem sua dignidade, já devidamente destruída dentro da carceiragem) a permanecer no mundo das ilegalidades e da violência contra os demais cidadãos.

O grande álbum do Planet Hemp, Usuário (1995), é um disco conceitual que, ainda hoje, soa atual, por colocar o dedo numa das feridas que sustentam o ciclo vicioso acima. Ao longo de 17 faixas, Marcelo D2, BNegão e companhia destilam uma crítica mordaz e indignada à hipocrisia de uma sociedade que cultua o consumo do álcool (droga legalizada que ceifa milhares de vidas todos os anos) mas considera a maconha a culpada pela criminalidade, apoiando medidas de repressão e aprisionamento do usuário das substâncias presentes nas plantas do gênero Cannabis.

Sim, a maconha está em praticamente todas as canções do inusitado caldeirão sonoro de Usuário (sabiamente intitulado de raprockandrollpsicodeliahardcoreragga), mas o disco não se resume a uma irresponsável propaganda a favor do vício e da corrupção da juventude – como, aliás, o senso comum tende a considerar o trabalho da banda carioca, que ganhou notoriedade maior justamente ao ter seus integrantes presos pela suposta apologia às drogas. Entre uma pedrada sonora e outra, o Planet Hemp acerta em cheio os temas da violência policial, do racismo e do poder político, todos sustentáculos das iniciativas que, até hoje, promovem um verdadeiro extermínio dos pobres, pretos e favelados, com um expediente que iguala o simples usuário de substâncias psicotrópicas (que pode ser eu ou você – e lembremos que a maioria da população consome drogas legalizadas como o álcool ou a cafeína) ao pior representante do crime organizado.

É preciso um negacionismo da realidade em níveis patológicos para se ignorar que os agentes da segurança pública (na verdade, os elos mais frágeis de uma cadeia que se inicia com os poderosos de verdade, dentetores dos recursos políticos e econômicos) são verdadeiros instrumentos de uma política que atualiza o higienismo de dois séculos atrás e o requinta com doses de fanatismo religioso, anticientificismo e um deslumbramento colonialista (“nada presta nesse país pobre e miserável, queria mesmo é ir pra Miami”). Sim, é isso o que querem todos aqueles sujeitos denunciados em Usuário: enquanto conservam seus privilégios econômicos, promovem um extermínio da população mais vulnerável, acuada entre o poder público e os grandes traficantes. A legalização, ao menos da maconha, seria um passo decisivo para a reversão dessa política que flerta perigosamente com a eugenia – se é que já não a incorpora como finalidade, ainda que subrepticiamente.


“Mantenha O Respeito”, composição de Marcelo D2 e Rafael Crespo, num encaixe perfeito entre as vozes do próprio D2 e do rapper Gustavo Black Alien, é o maior sucesso de Usuário e se tornou um hino pela legalização do consumo da erva.

Clássico absoluto, ainda ressoa forte na juventude (no show do CPM 22 a que assisti há algumas semanas, comentado aqui, Badauí e companhia chegaram a puxar – ops – o comecinho da canção, para delírio da massa presente, mas só pra atiçar mesmo, sem irem até o final). Baseado (ops, de novo) num andamento moderado, o pulso se sustenta com apenas quatro bicordes na guitarra. As únicas extravagâncias do arranjo são os scratches antes do enfumaçado solo de teclados (trocado por um solo de guitarra nas apresentações ao vivo).

Mas o Usuário é todo bom, com exceção de algumas escorregadas aqui e ali – o argumento de que “uma erva natural não pode te prejudicar”, em “Legalize Já!”, ignora que nem tudo o que a natureza cria é útil ou bom ao homem, e “P… Disfarçada” envergonha um D2 hoje cinquentão e pai de uma filha feminista. As referências nacionais também são de altíssimo nível (incluindo Bezerra da Silva e Jorge Ben) e contribuem para a diversificação sonora do álbum, que foi considerado um dos 20 melhores discos nacionais dos anos 1990, pela revista Showbizz.

Ouça sem preconceito e até a última pon… digo, faixa.

planet-hemp.jpg
Planet Hemp: mantendo aceso o debate sobre a legalização.

No lendário EP jocosamente intitulado Hemp new year (1996), de distribuição limitada, “Mantenha O Respeito” aparece numa boa e fidelíssima versão ao vivo:

Já no álbum MTV ao vivo (2001), ela é a faixa de encerramento, com muito punch, mas sem as viradas de bateria no refrão (pois já não temos Bacalhau na bateria, substituído por Pedrinho Garcia):

Em seu Acústico MTV (2004), Marcelo D2 apresentou uma versão ainda mais cadenciada para a canção, agora considerada uma “Mantenha O Respeito II”. Participa, ao piano, ninguém menos que João Donato:

Em Nada pode me parar ao vivo (2016), essa versão reaparece e, a certa altura, incorpora a original do Planet Hemp:

4 comentários

  1. Eu tenho uma colega que se estrepou-inteira com marijuana,mas é uma droga como outra qualquer,o vício em tarja-preta ou cerveja já levou muita gente pra cadeia e/ou cemitério,e no entanto o consumo de álcool é incentivado o tempo todo,é só ouvir qualquer artista sertanejo.

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  2. Conheço muito bem o nome do grupo e as polêmicas,mas não me lembro de já ter ouvido a música que pede pra manter o respeito,rs.

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