152. Barão Vermelho: “Declare Guerra”

Vivendo em tempo fechado
Correndo atrás de abrigo
Exposto a tanto ataque, você tá perdido
Nem parece o mesmo, tá ficando pirado
Onde você encosta dá curto
Você passa, o mundo desaba
E pra te danar, nada mais dá certo
E pra piorar, os falsos amigos chegam
E pra te arrasar, quem te governa não presta


Era 1986 e o Barão Vermelho do ano anterior quase ruíra com a saída do frontman Cazuza. O cantor, ainda por cima, levou consigo algumas das letras que ajudariam a compor o repertório do novo álbum da banda.

Posso imaginar como ficaram Frejat, Guto Goffi, Dé Palmeira e Maurício Barros: sem chão. Havia a exigência contratual de se produzir mais um disco, mas sem as letras de Cazuza, como isso seria possível, em pouco tempo?

A solução foi inaugurar novas parcerias e recorrer aos amigos. Renato Russo cedeu um blues acústico antigo, composto em Brasília quando ainda não havia a Legião Urbana, “Bumerangue Blues”. Frejat ainda conseguiu letras de um mutirão composto por Arnaldo Antunes (“Eu Tô Feliz”), Antonio Cicero (o irmão de Marina Lima, com o poema “Bagatelas”), o picasso-falso Humberto Effe (“Desabrigado”) e os irmãos Denise e Julio Barroso (ela, em “Maioridade”; eles, em “Não Quero Seu Perdão”).

O resultado, Declare guerra, chega a surpreender. Certamente não é o melhor álbum do Barão sob a liderança de Frejat, mas serviu como demonstração de que havia esperança para um futuro de sucesso, longe da figura e da influência de Cazuza (que, afinal, está representado no álbum com duas composições, a própria “Maioridade” e “Que Deus Venha”). As canções são pesadas, trazendo os tradicionais sons stonianos que marcaram a trajetória da banda, com passagens hard rock aqui e ali, além dos usuais acenos ao blues e até ao rockabilly.

A faixa-título (composta por Frejat e Guto com a colaboração do produtor Ezequiel Neves), nesse sentido, pode soar como um verdadeiro grito de independência em relação ao poeta autor de “Exagerado”: “Declare guerra a quem finge te amar, declare guerra / A vida anda ruim na aldeia / Chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia”.

De fato, a palavra “guerra” consta também em outra faixa do álbum, “Torre De Babel”, que é justamente a mais passível de ser interpretada como uma pedrada no cantor dissidente – preste atenção à letra: “Se eu chego, você tá saindo / A gente ama odiando / Mas não me deixe sozinho / Me dá pão com veneno, jurando fidelidade / Mas sua verdade não me engana / […] O mundo tá acabando, não vai sobrar quase nada / A nossa hora tá chegando / E ainda fazem piada / Apertando o cerco / Você se desespera / Não há remédio, você tá na guerra / Que piração / Eu tô na terra ou no céu? / Ninguém se entende / Nessa Torre de Babel”.

Por outro lado, numa outra leitura, “Declare Guerra” serve como uma espécie de canção de auto-ajuda, que exorta o ouvinte a se levantar, a demonstrar uma postura aguerrida e altiva em meio ao cenário de desolação traçado nos versos iniciais. Uma espécie de hino ao amor-próprio.

Uma terceira interpretação lança a canção no contexto político da época, em que a esperança Tancredo, no plano federal, repentinamente se desmanchou e cedeu espaço a um legítimo representante da política dita tradicional, José Sarney (para sempre associado à Aliança Renovadora Nacional, Arena, partido de sustentação da ditadura civil-militar, que dividia espaço com o Movimento Democrático Nacional, o MDB, uma oposição consentida). Assim, o poderoso refrão surge como convite a uma ação política mais consistente e menos comprometida com os líderes do passado. Chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia!

Essa última leitura é autorizada por um dos versos que antecedem o refrão: “E pra te arrasar, quem te governa não presta”.

Verso que volta e meia adquire relevância e atualidade.

barao-vermelho.jpg
O Barão em sua formação clássica pós-85: sobrevivendo sem Cazuza.

Quando ouvi “Declare Guerra” pela primeira vez, pensei que os vocais eram ainda de Cazuza. À época, Frejat tinha um timbre que, em certas passagens, realmente lembrava o antigo vocalista – e os próprios contornos melódicos daquelas composições, em grande parte, eram criações do guitarrista. Com o tempo, o novo vocalista foi assumindo um estilo próprio, ressaltando os graves, como se observa na versão ao vivo da canção, presente no MTV ao vivo (2005):

3 comentários

  1. No documentário ” Barão Vermelho – Porque a gente é assim?(2017)”, Frejat e Guto contam que a inspiração de “Declare Guerra” foram as pessoas que viraram as costas para a banda, após a saída do Cazuza.( empresários, radialistas e jornalistas) E que não tinha nada haver com o Cajú. Inclusive, no próximo disco do barão “Rock’n Geral(1987)”, a musica “Amor De Irmão” falava da amizade entre eles, como resposta a “Declare Guerra”:
    “Está chegando/ Um novo tempo de paz/Junto com a chuva/ Indo embora pro mar/ E num improviso da jazz/ Nossas manias se encontram”

    Foram 2 discos bem ruins, e o Barão, sem Cazuz,a só foi se redimir no disco “Carnaval (1998)”.

    Em tempo: Desculpe por Lotear os comentários de seu blog, rsss

    Curtir

    1. Não precisa pedir desculpas! É um prazer ler e responder comentários. Talvez você tenha reparado na presença do Ademar, que era uma espécie de “comentarista oficial” do blog… bom, com o fim de 2019, pensei que raramente receberia comentários novamente, e está sendo muito legal receber suas contribuições.
      Por exemplo, eu nada sabia sobre tudo o que você disse, acima, sobre “Declare Guerra”. Faz todo sentido!
      Enfim, grato pela contribuição, e continue comentando.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s