153. Luiz Tatit: “A Companheira”

Eu ia saindo, ela estava ali
No portão da frente
Ia até o bar, ela quis ir junto
“Tudo bem”, eu disse
Ela ficou super contente
Falava bastante,
O que não faltava era assunto
Sempre ao meu lado,
Não se afastava um segundo
Uma companheira que ia a fundo
Onde eu ia, ela ia
Onde olhava, ela estava
Quando eu ria, ela ria
Não falhava


Não é fácil explicar quem é Luiz Tatit. Ou melhor, é fácil demais e, por isso, difícil.

Em primeiro lugar, Tatit é mais um exemplar de cancionista-acadêmico, somando-se a outros paulistas como Paulo Vanzolini e, de sua própria geração, José Miguel Wisnik.

Em segundo lugar, é preciso ressaltar que Tatit não é qualquer cientista. É simplesmente o maior estudioso do assunto deste blog, a canção popular. É criação sua o modelo da semiótica da canção, que busca explicar esse fenômeno fantástico que é a produção cancional.

Um leigo poderia sugerir que isso não é grande coisa. Afinal, a canção não é uma espécie de poesia cantada, ou seja, se inscreve como produção literária e, portanto, já dispõe de áreas específicas para estudá-la, como a poética? A resposta é um sonoro (sacou o trocadilho?) não. Pois se a canção fosse poesia cantada, já não seria simplesmente poesia (justamente por ser cantada). E quem disse que o texto de uma canção deva ser, necessariamente, poético? A canção pode surgir da prosa, como ben nos mostra Jorge (desculpe, estou engraçadinho hoje).

Não, até há pouco, a canção não dispunha de uma disciplina específica para estudá-la. Já tentaram enquadrá-la na crítica e na história da arte, na poética e na linguística: não foi suficiente. Faltavam construtos teóricos capazes de abarcar as especificidades desse tipo de criação artística. Por exemplo, o que faz com que uma canção de Vinícius de Moraes e Tom Jobim (pense em “Se Todos Fossem Iguais A Você”) nos soe arrebatadora e única, enquanto que um sertanejo “universitário” genérico no máximo nos convoque a dançar (quando não a mudar de estação)?

E é curioso citar o exemplo de Vinícius e Tom porque, de certa forma, trata-se de acadêmicos também, mas cuja produção erudita não se sobrepõe às suas obras populares. O Vinícius poeta-e-diplomata-na-linha-direta-de-Xangô-saravá! não é o mesmo Vinícius poetinha. Pois a poesia feita para ser cantada tem um algo a mais… mas o quê? (É claro que há interseções: “Soneto De Separação” está aí para nos desafiar). O mesmo se passa com Tom: a figura do maestro Antônio Carlos Jobim não coincide completamente com a do Tom que canta “Águas De Março” com Elis. Sim, o saber popular e o erudito se comunicam e se fertilizam mutuamente, ainda mais na figura de um único indivíduo, mas não são redutíveis a uma mesma substância. E o que cria essa diferenciação, decantada no conceito de canção popular?

A semiótica da canção, inspirando-se na produção teórica de diversas escolas, que conflui em conceitos elaborados na França pelos semioticistas Algirdas Julien Greimas e Claude Zylberberg, procura trazer respostas a essas perguntas. Não vou conseguir resumir a produção de Tatit em poucas linhas, mas podemos tentar elencar alguns princípios desse modelo:

  • Toda palavra cantada foi um dia uma palavra falada, quer dizer, os componentes melódicos da canção colhem da fala cotidiana seus constituintes, estilizando-a;
  • A melodia pode se organizar em padrões; melodias que martelam esses padrões repetidas vezes (pense nos versos de “Canto De Ossanha” ou de “Berimbau”) constituem momentos temáticos; melodias que evitam tais padrões e procuram explorar todas as regiões da tessitura geram momentos passionais (pense nos refrães das mesmas canções);
  • A tematização ressalta os estados permanentes, de conjunção e imobilidade; a passionalização se associa à disjunção, às emoções fortes, ao movimento;
  • A canção é uma forma de narrativa. De forma mais ou menos explícita, participam dela um ou mais personagens, que perseguem um ou mais objetos (que podem ser personagens também). Existem movimentos de aproximação e afastamento desses participantes: quando um personagem está próximo de alcançar o objeto de desejo, uma interrupção no continum fórico pode promover um súbito distanciamento entre os dois (isso é mais fácil de explicar utilizando-se como exemplos canções que contam estorinhas; assim, veja que “Domingo No Parque” de Gil é conduzida a partir de uma dança que envolve três personagens, José, João e Juliana, que se encontram e desencontram).
  • Esses movimentos são auxiliados pelos recursos mobilizados na composição da obra, sejam eles harmônicos (acordes alterados, dissonâncias, trítonos), instrumentais (timbres, instrumentos, arranjo) ou formais (andamento, fórmula de compasso, transposição).

Enfim, a semiótica da canção é elaboradíssima em termos teóricos e os leigos precisariam ler repetidas vezes o livro Semiótica da canção: melodia e letra (Escuta, 1994) para entender um pouquinho dela. (Eu, por exemplo, estudo a obra de Tatit de 2012 e temo ter explicado tudo errado nos tópicos acima, por isso, não escreverei a ele divulgando o post, como costumo fazer quando aparece o nome de algum acadêmico aqui.)

Como disse acima, os cancionistas fazem canções sem nada saber sobre a semiótica da canção. Tatit, em suas entrevistas, costuma usar uma analogia: a maioria dos brasileiros se comunica em português, sem necessariamente conhecer a gramática da língua portuguesa. Quer dizer, conhecer a gramática, em termos de se apropriar conscientemente dela, não é um requisito para se comunicar em alguma língua. As crianças, logo que aprendem a falar, detém algum conhecimento gramático, isso é fato, mas não se trata de uma conquista consciente ou sistematizada.

Ora, com os cancionistas é da mesma forma. E li num dos livros de Tatit, escrito em colaboração com Ivã Lopes (Elos de melodia e letra: análise semiótica de seis canções. Cotia: Ateliê Editorial, 2008), uma frase que nunca mais esqueci, a respeito disso: “Quando os artistas já fazem semiótica, cabe aos semioticistas apenas explicitá-la” (p. 97). Genial.

luiz-tatit
Luiz Tatit: um acadêmico na/da canção popular brasileira.

A tensão essencial: estudos selecionados sobre tradição e mudança científica (Tradução de Marcelo Amaral Penna-Forte. São Paulo: Unesp, 2011), coletânea de estudos de Thomas Kuhn, traz um interessante capítulo sobre as relações entre ciência e arte. Nele, são apontadas semelhanças e diferenças entre os dois ofícios. Por exemplo, ambos possuem trajetórias históricas marcadas por rupturas (na ciência, novos paradigmas insurgem-se contra os antigos, por exemplo, a física quântica e a relatividade contra a mecânica newtoniana; na arte, escolas se sucedem, quase sempre negando as antecessoras imediatas). No entanto, o ensino de ciências tende a dissimular as chamadas revoluções científicas, dando a entender, aos alunos, que a ciência se constrói como uma parede, sempre com a adição de novos tijolos, que se encaixam perfeitamente entre as lacunas deixadas pelos anteriores. Já o ensino de arte busca justamente evidenciar tais descontinuidades, de forma que o aprendiz compreenda o que distingue, por exemplo, o modernismo do romantismo.

Uma diferença marcante entre a ciência e a arte se refere ao papel do crítico ou analista. Em ciência, a produção de um cientista sempre será avaliada (e avalizada, quando for o caso) por outros cientistas, que lerão seus papers e o aprovarão (ou não), autorizando-o como nova contribuição científica. Ou seja, na ciência, os papéis de produtor e de crítico coincidem: todo bom cientista produz ciência e avalia a de seus pares. Já na arte, tais funções são dissociadas: quase sempre, o crítico não é um artista profissional (diz o dito popular que, no máximo, é um artista frustrado!). Não é um produtor em sua área de atuação, é um avaliador profissional. Não há a coincidência entre as funções, como no caso da ciência.

Luiz Tatit é uma honrosa exceção: produtor/avaliador em ciência e avaliador/produtor em arte! Em sua carreira, ao mesmo tempo em que foi elaborando a semiótica da canção, Tatit também se especializou na composição e na execução de diversas obras. O célebre grupo Rumo, de que já falamos aqui, funcionou como uma espécie de laboratório para os dois fazeres do músico paulistano: o artístico e o científico. Afinal, uma das marcas das canções do conjunto é justamente valorizar o aspecto “falado” das melodias, exacerbando uma das características ressaltadas pela semiótica da canção.

Com o fim (provisório) do Rumo nos anos 1990, Tatit permaneceu compondo e gravando em carreira solo, lançando seu primeiro álbum, Felicidade, em 1997. Lá, consta a canção de hoje, “A Companheira”.

Poderíamos continuar o post falando sobre ela. Minha sugestão, no entanto, é: releia o que escrevi sobre a semiótica da canção e veja como tais características estão plenamente abarcadas nessa canção aparentemente singela.


No DVD Amigo é casa (2008), parceria de Simone com Zélia Duncan, coube à cantora brasiliense defender “A Companheira”, num arranjo reverente à versão original de Tatit, mas com alguns acréscimos instrumentais que tornaram essa performance a definitiva. Se possível, assista ao vídeo (em vez de apenas ouvi-lo), pois a atuação teatralizada de Zélia chama a atenção, justamente, para as entoações e inflexões vocálicas que caracterizam a produção da canção:

2 comentários

  1. Um dos melhores textos,muito bom.Eu sempre achei que o papel do intelectual é teorizar a arte do artista,que quase sempre é movido mais pela intuição e emoção que embasamento teórico.

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