156. João Gilberto: “Sampa”

Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João
É que quando eu cheguei por aqui, eu nada entendi
Da dura poesia concreta de tuas esquinas
Da deselegância discreta de tuas meninas
Ainda não havia para mim Rita Lee
A tua mais completa tradução
Alguma coisa acontece no meu coração
Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João


“Sampa”, possivelmente, foi o primeiro samba que aprendi a tocar ao violão. O que significou uma verdadeira injeção de autoestima: apesar da tranquilidade associada ao campo harmônico de Dó Maior, e do confortável andamento vagaroso, a versão original de Caetano Veloso (lançada em Muito – dentro da estrela azulada, de 1978) traz uma série de acordes que, para uma pobre alma adolescente e roqueira, lançavam um desafio ao mesmo tempo motor e mnemônico.

Aos poucos, fui encontrando algumas soluções pessoais que facilitavam as digitações ao longo da performance – por exemplo, substituindo a posição do G#dim, tradicionalmente tocado na terceira e na quarta casas, por sua versão mais aguda (sexta e sétima casas), que envolve apenas as quatro primeiras cordas do violão. E assim domesticada a harmonia, integrei “Sampa” a meu repertório pessoal, a ser exibido nas rodinhas de violão.

Anos mais tarde, quando criei o Samba de 1ª (um entre muitos desse Brasil) com meu amigo Serjão Trajano, lá estava a composição de Caetano. O conjunto foi crescendo, perdeu o nome original – chegou a ser renomeado como Samba de Vinil, que também já nomeava pelo menos mais outro conjunto por aí –, ganhou integrantes, e “Sampa” permaneceu um hit, sempre um grande momento dos ensaios e apresentações. Já à época em que eu vinha me despedindo de São Carlos – e, portanto, deixaria de participar das rodas –, costumava dizer, a certa altura da batucada: “Então, pessoal… será que eu posso pedir uma música?”. E todos entendiam: era a senha para “Sampa”.

Bom, a versão de Caetano, esse lindo samba chorado que plageia homenageia “Ronda” de Paulo Vanzolini, todos conhecem, mas vamos escutá-la:


O capítulo “Sampa, uma parada”, de Romildo Sant’Anna, é um dos meus momentos favoritos da coletânea Poesia e música, organizada por Carlos Daglian e publicada pela Perspectiva em 1985, como o 195º volume da excelente série Debates. É aberto com o seguinte parágrafo:

Uma parada em São Paulo, na canção “Sampa” […], inscreve-se como um dos fragmentos de confissão autobiográfica de Caetano Veloso, concernente ao leitmotiv migratório: o artista viveu na capital paulista no final do decênio de 60, e esta contingência cronológica será evocada e posta em confronto dez anos após. Neste poema-canção se constrastam e se entrelaçam, subjetivamente, o “parecer” e o “ser” da cidade, que equivalem, retrospectivamente, a uma visão “direta”, intranscendente, metonímico-descritiva (1968) e prospectivamente a uma visão “sonhadora”, metafísica, metafórica de São Paulo (1978) (p. 77).

E após elencar indícios de um lirismo para além das implicações já antecipadas no título hipocorístico “Sampa” (a perspectiva intradiegética, o caráter emotivo da linguagem, a recordação e a estrutura poemática lírica), o autor desenvolverá seu ensaio em três seções.

Na primeira (Pequena Paráfrase), o universo narrativo da canção é deslindado, com atenção para as escolhas lexicais e sintáticas do cancionista, de forma a organizar o continum fórico da canção – se assim podemos nos referir ao objetivo desse momento do texto.

A segunda seção (Universo do Discurso) faz um levantamento, tão exaustivo quanto possível, de todas as referências evocadas pela letra, especialmente as artísticas/musicais: estão devidamente creditados os poetas concretos, o experimentalismo do Teatro Oficina, as duas grandes bandas-comunidades da canção brasileira da passagem dos 60 para os 70 (diretamente do solo paulistano, Os Mutantes e a musa Rita Lee; de passagem pela capital paulista, os Novos Baianos – e novos baianos como “o próprio Caetano, Gal Costa, Gilberto Gil, João Gilberto”, nas palavras de Sant’Anna à p. 91), “Ronda” de Vanzolini, os Demônios da Garoa (e, por extensão Adoniran Barbosa), Jorge Mautner, José Agrippino, entre outros.

Por fim, a terceira seção (Estrato Fônico) faz uma análise fonossemântica dos versos cantados, processo que conduz a achados que confirmam a perfeição do edifício lírico construído em “Sampa”. Por exemplo, na sequência de versos “Do povo oprimido nas filas, nas vilas, favelas / Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobre apagando as estrelas”, Sant’Anna identifica uma aliteração onomatopéica em “feia fumaça”, que fortalece a imagem da poluição paulistana. Já a análise das rimas polares nos mesmos versos (favelas/belas/estrelas) sugere que

a alteração do timbre aberto de “favelas” e “belas”, fechando-se em “estrelas”, sugere a sensação de sufocamento, de empalidecer das estrelas no céu paulistano. No céu poluído de São Paulo, as “estrelas” são fechadas, não brilham (p. 95).

Geniais: o analista e, claro, o cancionista.


E o que João Gilberto tem a ver com tudo isso?

O cantor baiano gravou “Sampa” no disco João (1991). Marco Antonio Barbosa, na Revista Bula, fez o ranking de “todas as 119 músicas de João Gilberto, da pior à melhor”, classificando a releitura da canção de Caetano no 48º lugar, com os dizeres:

O repertório do disco João é todo composto de músicas pré-bossa nova, à exceção deste sucesso de Caetano Veloso. Todo o esforço que Caê empregou para encaixar a complexa letra na melodia é ignorado por João, que sai rasgando a métrica original (chega praticamente a recitar a letra em algumas passagens). Dá certo.

E por que “dá certo”? É Luiz Tatit, em Semiótica da canção: melodia e letra (3. ed. São Paulo: Escuta, 2007), quem explica a reescrita que o criador da bossa-nova opera não apenas no clássico de Caetano, mas em demais obras que interpreta:

[…] João Gilberto aproxima a sonoridade imprecisa da linguagem oral de toda a extensão da obra musical. Restabelece as medidas musicais em função do projeto entoativo e coloquial subjacente a cada composição. Sua interpretação visa nada menos que uma execução exclusiva – assim como um trecho de fala irrepetível – e, ao mesmo tempo, a perpetuação deste instante de singularidade por um processo incessante de transformação de rupturas em continuidades (p. 269).

Nas páginas seguintes, Tatit explica o caso específico de “Sampa” (e ocultarei as notas de rodapé e as nomeações dos exemplos, que seguem a numeração iniciada páginas atrás – Exemplo 81, 82, etc.):

[…] João Gilberto aceita o desafio de dominar, com sua concepção musical muito peculiar, a celeridade das entonações subjacentes à melodia de “Sampa”, começando por neutralizar as marcas decontínuas presentes na inflexão de Caetano. Com a eliminação dessas referências de estabilidade, a emissão das frases tornam-se [sic] muito mais velozes sem qualquer outra alteração do andamento geral da música. Isso pode ser facilmente verificado na comparação das duas versões do mesmo trecho:

Eu vejo surgir teus poetas de tempos e espaços / Tuas oficinas de florestas, teus deuses da chuva…

Outro sinal de assimilação do fluxo entoativo da fala é a redução das pausas entre os versos e mesmo entre as estrofes. O canto de João Gilberto aproxima significativamente alguns segmentos melódicos que, na versão de Caetano, estão bem espaçados:

Da força da grana que ergue e destrói coisas belas / Da feia fumaça que sobre apagando as estrelas

Que só quando cruza a Ipiranga e a Avenida São João / Quando te encarei frente a frente não vi o meu rosto

Além disso, trocando as regras musicais de distribuição dos acentos por um outro tipo de acomodação que observa os lugares tônicos das palavras e das frases na linguagem cotidiana, João Gilberto ainda propõe:

a. a duplicação da palavra “alguma”, onde a primeira serve para valorizar o lugar tônico de acento da segunda e, também, desencadear o processo de descendência gradativa que se completa com a tônica de “acontece” e de “coração”. Em Caetano, só aparecem essas duas últimas.

b. o deslocamento e redução dos lugares tônicos das frases eliminando os pontos de descontinuidade que refreiam a interpretação de Caetano. Podemos verificar a neutralização dos acentos em: “Nada do que não era antes…” e sua substituição por inflexão ligada, apenas levemente acentuada em: “Nada do que não era antes…”

c. a acomodação do acento de “Panamérica…” – que, em Caetano, incide sobre a primeira sílaba – em seu lugar de uso na língua natural.

d. a introdução de síncopes silábicas, transformando duas unidades em apenas uma (cf. “…de/tu/a/s es/qui/nas” ou “…de/tu/as/me/ni/nas” de Caetano e “…de/sua/s es/qui/nas” ou “…de/suas/me/ni/nas” de João) (p. 270-272).

Nada é por acaso: João sabe o que faz – e a ciência o comprova.

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João Gilberto: um inventor e pesquisador revolucionário na canção popular brasileira.

No mesmo ano em que João Gilberto releu “Sampa”, os Engenheiros do Hawaii, ainda desfrutando do mega-sucesso do álbum O papa é pop (1990), lançavam Várias variáveis. A obra dava continuidade à viagem progressiva iniciada no lançamento anterior, aprofundando-a num disco ainda mais conceitual, autorreferente e pesado.

Ali há muitas canções que dialogam não apenas entre si, mas com outras canções anteriores da banda gaúcha, destacando-se o par “Quartos De Hotel” (que fecha o lado-A) e “Sampa No Walkman” (que, após a vinheta “Várias Variáveis” – apenas uma colagem de sons emulando o dial de um rádio –, abre o lado-B).

Esta última faixa se presta a uma homenagem tanto a “Sampa” como à própria São Paulo, traduzindo (e atualizando) o estranhamento de Caetano, em 1968, na experiência de um porto-alegrense que passeia pela capital paulista enquanto ouve a canção num walkman.

Em Contrapontos: uma biografia de Augusto Licks (de Fabricio Mazocco e Silvia Remaso, lançado neste 2019 pela editora Belas Letras, de Caxias do Sul), a gravação de “Sampa No Walkman” é detalhada, com atenção para as soluções por Licks para registrar suas guitarras:

Em “Sampa No Walkman” Augusto fez algo que nunca havia feito. O cross-tapping foi uma técnica que criou para atender a uma necessidade prática e simples no início do solo desta música, cujas primeiras notas eram uma citação da canção russa “Katyusha”. A nota “pedal” (que se repete a cada nota melódica) não funcionava em nenhuma das cordas soltas. Se colocasse capo-traste daria problema ao tocar ao vivo, teria que remover no meio da música. O que então poderia ser colocado momentaneamente e tirado sem dificuldade? A resposta veio com um dedo da outra mão, a direita! Isso livraria a esquerda para martelar indicador e médio. E mais: se a mão direita podia funcionar como uma espécie de pestana móvel, então poderia correr para outras casas produzindo diferentes notas “pedais”. Em 2009, a coluna “Baú do Roque” do jornal Zero Hora elaborou sua lista dos 11 melhores solos de guitarra do rock, pela ordem: “Stairway To Heaven”, “Tears Of The Dragon”, “Time”, “Hallowed Be Thy Name”, “The Temple Of The King”, “Sweet Child O’Mine”, “Sultans Of Swing” (ao vivo), “Lonely Is The World”, “That Smell”, “It’s A Hard Life”, e… “Sampa No Walkman”! Na justificativa, a ZH escreveu: “Não é muito comum, mas como não concordar que Augusto Licks, talvez o melhor guitarrista nascido no Brasil, matou a pau nesta música? Flertar com a música clássica não é exclusividade de Blackmore, ora bolas” (p. 234).

Assim, os Engenheiros do Hawaii, que haviam começado Longe demais das capitais (título de seu primeiro álbum, lançado em 1986), conquistavam o Brasil e se viam cantados/cantando em São Paulo. Para além do som quase barroco das excelentes guitarras de Augusto Licks, a esperta letra de Humberto Gessinger rende um tributo que exacerba as características pós-modernas já contempladas no poema-canção de Caetano: “Este sou eu / Parado na esquina / A mesma cidade em outra canção / (O barulho termina, começa a canção) / É a verdade / A-ver-a-cidade / Alguma coisa acontece no meu coração / Estas são elas / Tuas meninas / (Nordestinas, Erundinas) / Tua mais completa contradição / Esta São Paulo / São tantas cidades / Nunca tantas quantas gostaria de ser”.

Enfim, colocar lado a lado “Sampa” e “Sampa No Walkman” é um projeto que ainda quero realizar academicamente… aceito colaboradores!

Enquanto isso não se concretiza, ouça a sonzeira dos Engenheiros:

7 comentários

  1. Não conhecia a Sampa dos Engenheiros.Quanto a citação-homenagem de Caetano à ”Ronda”,Paulo Vanzolini disse que foi plágio mesmo e não homenagem,rs.

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