157. Carlinhos Brown: “Argila”

Vinha rindo e circulando
Sobre tudo o cobertor
Do teu olhar varreu meus zolhos
E do teu olho joio
Uma gota de orvalho
Que era vidro se quedou
Vivendo um despedace
E o coração coador
Sorriu
Vexado de amargor e se pintou
Com a lama da lagoa pra à toa correr


O álbum de estreia de Carlinhos Brown, Alfagamabetizado (1996), é uma viagem que, desde que escutei inteiro pela primeira vez, por volta de 2011, custo a assimilar. Ao que parece, a obra é assim tão complexa por dar vazão a um conjunto amplo de ideias que, até então, o músico baiano mantinha represadas.

Sim, é o disco do hit “A Namorada” (com o refrão “A namorada… tem namorada!”, que àquela época até poderia soar escandaloso, mas a canção nunca foi levada muito a sério – e vejo que isso se deve à acertada escolha por um arranjo pop-rock descompromissado), que pode até parecer deslocado em meio às outras 15 faixas.

Acontece que todas as faixas soam deslocadas umas em relação às outras – e essa fragmentação, paradoxalmente, é o que mais colabora para o caráter conceitual do álbum. E tem muita coisa boa ali no meio.

Um exemplo é a canção de hoje, “Argila”, de difícil enquadramento em algum gênero. Tem um quê de bossa, com um sabor levemente tropicalista, uma placidez praiana… e certa africanidade, calcada não no pulso percussivo (bastante contido), mas na ambiência melancólica.

Em sua tese, Lacerda (O cacique do candeal: estudo da trajetória artística de Carlinhos Brown e de suas relações com o mercado da música. 2010. 368 f. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2010) expõe a concepção e o processo de gravação do álbum, reproduzindo um pequeno depoimento sobre a origem de Alfagamabetizado e da própria “Argila”:

Brown definiu o disco como “uma leitura musical do Brasil contemporâneo num trabalho ritmado, e não apenas percussivo, que foge do padrão chapado da MTV”, e explicou que o nome está relacionado à velocidade com que as informações se processam na contemporaneidade. Mas a canção “Argila” é um lamento por Ruanda e as turbulências por que passava na época: “eu sofria muito com o que estava acontecendo em Ruanda, porque tudo de África comove o afro-descendente, e aquela coisa do diamante, da riqueza… e fiz Alfagamabetizado e fiz Argila” (p. 220).

Provavelmente, Brown se refere ao genocídio que matou quase 1 milhão de pessoas em 1994, ocorrido no país africano que, então, vivia uma guerra civil. E Ruanda é uma das palavras que Brown enumera antes de cantar os versos propriamente ditos: “uganda, cubana, ipanamana, baiana, luanda, nada ruanda, kinshaze, manga, banana”. Essa disposição de elementos assonantes e aliterantes, à beira da exaustão, certifica o ouvinte de que o universo da canção é mesmo o coração da África. O próprio instrumental confirma essa impressão, trazendo um xequerê e um sutilíssimo berimbau, ambos tocados por Brown. A propósito, falando em ficha técnica, o encarte de Alfagamabetizado é um espetáculo caótico à parte, e talvez espelhe a vertiginosa sucessão de conteúdos no privilegiado cérebro do compositor baiano:

argila

A letra traz algumas das idiossincrasias de Carlinhos Brown, como as onomatopeias entoadas, em primeiro lugar, pelo mero prazer musical de fazê-las ressoar, servindo apenas secundariamente como apoio sígnico; e as brincadeiras linguísticas como a da primeira estrofe, que traz uma série de aliterações envolvendo variações de uma mesma palavra, olhar/”zolhos”/olho, que desembocam no “orvalho” (cuja proximidade fonética se faz acompanhar de um acercamento semântico pela mediação da lágrima).

Gosto de pensar que a argila do título se refere à lama primordial que tantas culturas elegem, arquetipicamente, como origem do homem, em suas narrativas mitológicas. Temos, assim, um salto metonímico que associa esse barro fertilíssimo à própria África (sítio de origem de nossa espécie, o Homo sapiens), cuja população de tez escura é figurativizada também no mesmo elemento, tingindo a pele do sujeito descrito na letra: “Vexado de amargor e se pintou / Com a lama da lagoa pra à toa correr”.

O tom menor da harmonia, mais o andamento célere (mas não acelerado), contribuem para a sensação de melancolia naturalizada, porque existente (e resistente) desde os primórdios. “Argila” é um lamento e, como tal, exala sofrimento: o drama de um continente que nos originou, mas cujas contribuições para além disso (como se não fosse pouco!) são preteridas em favor dos ideais éticos, estéticos, políticos e epistemológicos desenvolvidos nas nações europeias. Mas, como disse, é uma dor naturalizada, o que não quer dizer que esteja esquecida – tanto que, volta e meia, explode em eventos como o massacre de Ruanda, e ressurge, por exemplo, nas atuais questões migratórias.

A lágrima da primeira estrofe dá o tom para o aparecimento de outros valores disfóricos ao longo das demais estrofes: o riso envergonhado que escapa à censura de um “coração coador” (que pode ser ouvido como “coração com a dor”), a culpa pelo roubo de uma única flor e a solidão irremediável dos versos finais.

Enfim, “Argila” é uma belíssima canção, que demonstra o enorme potencial de Carlinhos Brown como compositor, músico e cantor, para além de suas competentes e famosas batucadas.

carlinhos-brown.jpg
Carlinhos Brown: um músico e compositor completo que fez de “Argila” um belo lamento sobre a África e seus filhos pelo mundo.

A cantora mineira Jussara Silveira, mais o violonista baiano Luiz Brasil, no álbum Nobreza (1996), registraram uma versão belíssima para “Argila”. A composição de Brown ressurge, ali, num arranjo minimalista que valoriza os dedilhados da versão original, sem descurar da beleza proporcionada pelo dueto de vozes de Jussara e Luiz:

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