158. Gangrena Gasosa: “Centro Do Pica-Pau Amarelo”

Na caverna da Cuca
Se trabalha pro mal
Uma porta para o inferno
No Sitio do Pica-Pau
Mãe Cuca é feiticeira
Um demônio encarnado
Esse lagarto é a danação
Pior do que eu, o Diabo
Olha a maldição
Do Rompe Mato e Curupira
O mal tá entranhado
Nesse inferno caipira


À época do lanamento de Tecnicolor (2000), álbum dos Mutantes que ficou engavetado por 30 anos, a revista Showbizz conseguiu editar uma entrevista com os membros da formação clássica da banda paulista. Digo “editar” porque, diante do distanciamento entre Rita Lee e os irmãos Arnaldo e Sérgio Dias Baptista, não foi possível reunir a cantora e os músicos – sendo interessante observar, na transcrição dos “diálogos”, a presença simultânea de convergências e versões diferentes para os mesmos fatos.

Importa ressaltar que, naquele volume da revista, uma das páginas da matéria argumentava pelo caráter pioneiro da banda, ressaltando como os Mutantes anteciparam todas as grandes tendências que então emergiam no rock brasileiro.

Uma delas estava representada pela canção “Saravá”, presente no clássico Jardim elétrico (2001). Segundo a Showbizz, ali estava a origem de uma das novidades mais empolgantes – e inusitadas – do rock nacional de então: o saravá-metal da banda carioca Gangrena Gasosa.

À mesma época, li num outro volume da revista que o Gangrena lançava o álbum Smells like a tenda spírita (2000). Frequentador de uma casa kardecista, rolei de rir com o criativo título do álbum e de algumas faixas, como “Surf Iemanjá” e, principalmente, “Centro Do Pica-Pau Amarelo” – tema de hoje, composto pela banda e com letra do antigo baterista Magrão. De fato, a brincadeira do título fazia lembrar dos centros de umbanda que existem (resistem?) nas cidades grandes e pequenas: ali mesmo, perto de casa, estava o Centro Caboclo Folha Verde.

Na inesperada – mas se formos pensar bem, óbvia – síntese promovida pelo grupo, entre os tambores e temas umbandistas e o peso do hardcore e do heavy metal, “Centro Do Pica-Pau Amarelo” direciona sua iconoclastia para alguns dos personagens mais simpáticos do imaginário ficcional brasileiro, criados por Monteiro Lobato na década de 1920 e perpetuados em diversas adaptações televisivas, destacando-se a clássica da Rede Globo entre 1977 e 1986, reprisada na Rede Cultura a partir de 1995 (o que foi motivo de festejos por parte de minha mãe, que poderia proporcionar ao filho o conhecimento daquelas estórias… – ou será por que ela mesma poderia assistir àquilo tudo de novo?).

A canção faz algo análogo ao que fizeram os Garotos Podres em “Batman”, do álbum Pior que antes (1988). Numa (relativamente mal-sucedida) tentativa punk de recriar um rockabilly, Mao e companhia narravam um cenário ainda mais decadente e degradado que o das estórias originais de Gothan City, em que Robin “virou Bat-Travesti / Porque cansou da luta / E a “vagabunda Batgirl / Virou Bat-Prostituta”.

Mas o que o Gangrena criou doía muito mais – e portanto, tinha um efeito cômico ainda mais certeiro – por trabalhar (ops) com personagens do Sítio do pica-pau amarelo tão bem conhecidos de todos nós, e parte da memória afetiva de muita gente. Em “Centro Do Pica-Pau Amarelo”, ali estavam as criaturas de Lobato em meio aos rituais pesadíssimos da chamada magia negra: “Anastácia é poderosa nos trabalhos de umbanda / E nas macumbas mais sinistras é vovó Benta quem manda”. Sim, incomoda no início… mas não é engraçado?

O pior de tudo é admitir que essa recontextualização é uma escolha plenamente justificada: afinal, o universo do Sítio tem lá sua magia, e a inserção de seres e tradições do nosso folclore, dinamizando as estórias, evoca o Brasil dos festejos e ritos populares – diretamente relacionado com o ethos da espiritualidade afro-brasileira. Afinal, quem é o Saci-Pererê, tão frequentador das estórias de Lobato, senão Aroni, um pretinho perneta que adora um cachimbo, vivendo na companhia da(o) orixá Ossaim?

Depois de Smells like a tenda espírita, o Gangrena passou por diversas formações – e confusões. No entanto, o disco de 2000 permanece como um clássico que, se não precisa ser levado tão a sério (e nem se propõe a, com seus curtos 26 minutos), ao menos mostrou que o bate-cabeça poderia se abrasileirar, como diriam Gil e os Mutantes, numa boa bat-macumba.

gangrena-gasosa.jpg
Gangrena Gasosa: trajes evocando (e invocando!) malandros e pombas-giras, despachos atirados do palco e muito bate-tambor num inusitado espetáculo de saravá-metal.

3 comentários

  1. Não sabia da existência de um saravá-metal – Quanto ao kardecismo,é o melhor caminho para entender os mistérios da vida,no meu modesto entendimento.

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    1. O kardecismo foi muito presente em minha vida, hoje um pouco menos. Mas, como você deve ter notado em vários posts, a incorporação mediúnica me fascina bastante.

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