159. 365: “Anos 70”

Nos anos 70, no solo brasileiro
O Governo enganava o povo com palavras vazias
Palavras vazias
Dizia maravilhas, prometia alegrias
E o povo enganado a tudo assitia
“Brasil! Brasil!
Ame ou deixe-o”


O 365, cujas composições orbitam o talento poético do vocalista Carlos Finho (e em menor grau, a habilidade do guitarrista Ari Baltazar), é uma das bandas associadas ao estilo que se convencionou chamar de rock de combate. O gênero, nomeado em referência ao clássico álbum do The Clash (Combat rock, 1982), pode ser definido como um meio-termo entre o legítimo “punk 77” – sobressaindo-se a influência da banda liderada por Joe Strummer – e a vertente mais sisuda, gélida e (na falta de uma palavra melhor) gótica do pós-punk. As canções são marcadas por letras politizadas e pela sofisticação melódica, acompanhada de elaborados arranjos de guitarra (privilegiando-se o contraponto entre timbres limpos e distorcidos), o baixo igualmente participante dos contornos melódicos e ritmos marciais na bateria. Definição, em poucas linhas, do próprio som do 365 – e, pensando bem, da Plebe Rude, não por acaso, a banda de Brasília mais associada ao The Clash e ao rock de combate.

As temáticas (e títulos) das canções também colaboram para essa designação do gênero. Por exemplo, o primeiro álbum dos 365 (intitulado apenas 365 e lançado em 1987) trazia faixas como “Fúria” (iniciada por uma caixa que emula um tarol de batalha), “Canção Para Marchar”, uma releitura da canção portuguesa “Grândola, Vila Morena” (senha da Revolução dos Cravos, mais tarde convertida em seu hino extra-oficial) e o hit “São Paulo” – que, caso se referisse ao estado (e não à cidade), também poderia ser um hino, dessa vez, das tropas da Revolução Constitucionalista de 1932.

O segundo álbum do conjunto formado em Guarulhos, Cenas de um novo país (1989), mantinha a banda nos trilhos do lançamento anterior, ao mesmo tempo em que trazia uma produção mais sofisticada (trazendo ousadias como os metais na faixa de abertura, “Cegos Movimentos”, e no reggae “Peter”, homenagem a Peter Tosh, assassinado em 1987). Algumas canções eram realmente fortes e colaboravam para consolidar a banda definitivamente no tal rock de combate, como a punk “Só Armas Não Fazem A Revolução” e a deprimida “Berço Esplêndido”. E por falar em depressão, o 365 arriscava até uma canção de (des)amor, “Não Diga Adeus” – que, surpreendentemente, não chega a destoar do restante do disco, em que impera o tom político.

Dessas canções, escolhi “Anos 70” (de Ari Baltazar e Cobra) como tema de hoje. Trazendo algumas das marcas estilísticas da banda – como os dedilhados que revezam acordes maiores e menores de um campo harmônico maior –, a obra é iniciada com um tom saudosista e disfórico. O narrador passa a lembrar de fatos de sua infância, vivida nos anos 1970. Nada alheio ao que se passava ao seu redor, o então garoto repara que as notícias oficiais apresentavam, então, um país em franco crescimento, enquanto parte da percepção pública desmentia as “palavras vazias” do governo ditatorial civil-militar.

Em meio à antítese do ufanismo com a miséria insistente (e crescente), o slogan “Brasil, ame-o ou deixe-o” é transformado no refrão de “Anos 70”. E a beleza da canção reside justamente nessa aparente contradição: bradado a plenos pulmões, é ressignificado, perdendo suas marcas entoativas de propaganda governamental e convertendo-se, afinal, numa declaração de amor ao país – que, no ano de lançamento de Cenas de um novo país, finalmente sediaria novas eleições presidenciais, enchendo o povo de esperança e de um espírito civico que, infelizmente, seriam frustrados com o fracasso retumbante do governo Collor.

Sem soarem datadas – seja falando dos anos 1970, seja por representar os anseios e contradições do Brasil pré-anos 1990 –, as canções do 365 nos certificam de que a banda merecia ter se sobressaído, em relação a outras do BRock que lograram maior sucesso radiofônico. Mesmo assim, o 365 permanece como um riquíssimo manancial de poesias punks e urbanas – sendo ainda a trilha sonora ideal para acompanhar 365 dias de luta e sobrevivência numa metrópole como São Paulo.

365.jpg
365: punks (sub)urbanos fazendo canções para marchar.

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