160. Boca Livre: “Toada (Na Direção Do Dia)”

Vem, morena, ouvir comigo essa cantiga
Sair por essa vida aventureira
Tanta toada eu trago na viola
Pra ver você mais feliz
Escuta o trem de ferro alegre a cantar
Na reta da chegada pra descansar
No coração sereno da toada, bem querer


Não acompanho a situação da infância brasileira, no que tange à forma como são disponibilizados, a esses espíritos recém-encarnados, os aparatos culturais. O que uma criança escuta, como ela se informa, quais nomes – ou timbres de vozes – se associam com o termo “cultura”, em suas caixolinhas?

A verdade é que, de certa forma, sei a resposta. Imagino que, por meio do telefone celular, precoce e irresponsavelmente entregue às suas mãos desde os 4 ou 5 anos, o menino ou a menina do século XXI tenha o mundo todo a seu alcance. Que perigo!

Por essa portinha luminosa deve entrar de tudo – e talvez, por isso, decidi não ter filhos, pois morro de pavor de ter que enfrentar as situações relacionadas a isso (seja tendo que explicar, ao filho ou à filha, que ele ou ela não receberá um celular das mais mãos do papai, já que ele mesmo nunca teve um aparelhinho desses; ou seja entregando os pontos e, afinal, comprando um smartphone para a criança, sem ter a mínima ideia de como acompanhar o uso que ela fará da maquininha misteriosa).

Pois, quando fui criança, havia filtros por todo o lado, e hora/lugar para começar a lidar com as produções culturais.

No lar e na rua aprendíamos as cantigas e brincadeiras mais tradicionais, enriquecendo esse repertório na escolinha e, depois, na escola de verdade (no antigo primário). Na que frequentei, apesar dos poucos espaços para brincar, havia também uma boa biblioteca, que garantiu meus empréstimos iniciais, e onde escutei falar, pela primeira vez, sobre títulos clássicos como Dom Quixote de La Mancha.

Minha mãe também cuidou de, com muito sacrifício, garantir a entrada de enciclopédias e obras de divulgação científica lá em casa (especialmente os fascículos semanais da coleção Dinossauros, que guardo com carinho até hoje, junto com os quatro volumes da Enciclopédia do estudante). A prima Marilza, por sua vez, vira-e-mexe trazia diretamente de São José dos Santos alguns dos livros didáticos de ciências que ela já não mais usaria em suas aulas. Na casa da minha vó, inexplicavelmente, havia também um atlas de anatomia humana, sobre qual eu passei muitas horas debruçado, tendo aprendido o nome da maior parte dos órgãos internos, de alguns ossos e de todos os dentes (o que surpreende todos os dentistas com quem me consulto: o problema nunca está “nesse dente aqui”, mas no “incisivo lateral inferior esquerdo”).

O rádio estava sempre ligado, durante as manhãs, na casa dos meus avós, principalmente após a aposentadoria do meu avô e, lá em casa, enquanto minha mãe fazia a faxina, também rolava um som da Jovem Pan, numa época em que as FMs tocavam de tudo.


Brincadeiras, cantigas tradicionais, curiosidades científicas e canção popular contemporânea: isso tudo, que estava disperso pelo dia-a-dia de qualquer criança de minha cidade (mesmo as mais pobres), de repente se concentrava num programa televisivo que não durava mais que meia-hora, todo santo dia. Era o Rá-tim-bum da TV Cultura, que animou fins de tarde de muita criança nascida nos anos 1980.

Imagine uma atração que juntava gente como Ná Ozzetti e Wandi Doratiotto (dois dos mais assíduos frequentadores da Lira Paulistana, respectivamente, com o Rumo e o Premeditando o Breque), Edu Lobo (compositor de quase todas as canções da trilha sonora) e até Caetano Veloso, e inseria todas essas referências em meio a uma divertida colagem de quadros diversos, que unia de forma orgânica e natural a informação com o entretenimento… Descrevendo assim, parece algo irreal nos dias atuais.

Pois foi com o Rá-tim-bum que vim a conhecer um dos conjuntos mais importantes da tradição vocal brasileira, o Boca Livre. As vozes do grupo podiam ser ouvidas no tema de abertura do programa e, além disso, seus prólogos e encerramentos (mostrando, metalinguisticamente, uma família típica brasileira se preparando para assistir à atração na TV, ou se despedindo dela) tinham como fundo a canção “A Família”, também de Edu Lobo e cantada por Zé Renato, presente na maioria das formações do Boca.

Nosso tema de hoje, “Toada (Na Direção Do Dia)”, é provavelmente a canção mais famosa do conjunto. Apresentada no primeiro álbum do grupo, Boca livre (1979), a obra é uma versão estilizada das toadas rurais desse Brasil, com um melodia belíssima e marcante. Sem se restringir aos uníssonos, esse contorno melódico é caracterizado pela recorrência de passagens em que as vozes se elevam até o pontos mais altos da tessitura, apenas para, depois desses passeios, retornar às regiões mais confortáveis a partir de percursos suaves, descendo “em escadinha” – ou como diz a letra, “na reta da chegada, pra descansar”.

A letra, falando nela, é marcada pelos valores positivos. As tensões dramáticas ficaram num passado e, se existiram, foi para mostrar como o presente é tão mais luminoso. Ou seja, a poesia cantada reflete perfeitamente a proposta melódica da canção composta por Zé Renato, Claudio Nucci e Juca Filho – que sacrifica o conforto das notas mais graves só para retornar a elas de forma descansada, asseverando a conquista da paz e dos estados de conjunção. Essa característica aparece condensada nos versos “Tanta saudade eu já senti, morena / Mas foi coisa tão bonita / Da vida, nunca vou me arrepender”. Valeu a pena esperar, sentir dor, carpir a ausência – o que ficou é o aprendizado e a delícia de viver o agora, com a sensação de dever cumprido.

Faz bem ouvir, de vez em quando, uma canção aquietante assim!

boca-livre.jpg
Boca Livre: quarteto que mantém viva (e em altíssimo nível) a tradição dos conjuntos vocais brasileiros.

No ao vivo Boca Livre em concerto (1989), “Toada (Na Direção Do Dia)” aparece numa linda versão, com timbres instrumentais mais bonitos (e discerníveis) que na versão original:

Uma versão belíssima é a que aparece no álbum conjunto Boca Livre e 14 Bis (2000) – talvez, seu registro definitivo e, certamente, o mais emocionante. Ao contrário das outras versões, apoiadas nas cordas dedilhadas, aqui temos o predomínio dos teclados:

Por fim, há a versão presente no álbum solo de Claudio Nucci, Casa da lua cheia, também de 2000. Aqui, a abordagem é deslocada para o universo do violão clássico. Prefiro o clima rural das demais gravações, mas o novo arranjo não deixa de ser lindo:

5 comentários

    1. Oba, encontrei mais um pra se juntar ao Movimento dos Sem Celular! Também nunca tive, o que já deu muita briga em casa e com os amigos.
      Grato pelo comentário e pelo elogio.

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  1. Uma das mais belas melodias de toda a música popular brasileira. Os elementos sertanejos da letra e do arranjo a deixam ainda mais especial.

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