161. Zé Keti: “Opinião”

Podem me prender
Podem me bater
Podem, até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não


“Opinião” é um dos sambas mais famosos de Zé Keti e, como tantos de sua lavra, faz uma apologia da vida no morro. Isso, numa leitura mais superficial, que toma o narrador da canção como um morador diante de uma desapropriação: “Daqui do morro / Eu não saio, não”.

Numa leitura nem tão superficial, e contextualizando o samba no momento histórico em que foi difundido – participando do espetáculo de mesmo nome, de autoria de Augusto Boal, uma espécie de show-engajado que entrelaçava canções e textos politizados -, “Opinião” parece dar voz a um militante que, preso pelo regime, se recusa a delatar seus companheiros. “Podem me prender / Podem me bater / Podem, até deixar-me sem comer / Que eu não mudo de opinião”, diz a voz da canção, antes de falar que não abandona o morro. Nesse caso, teríamos que admitir a favela como participante de uma metonímia, representando os excluídos em geral.

Essa leitura só é desautorizada pelo fato de que Opinião entrou em cartaz em 1964, ano em que o regime militar acabava de ascender, ainda não sendo reconhecido pela truculência pós-AI-5 (1968 em diante).

ze-keti.jpg
Zé Keti: a voz do morro é ele mesmo, sim senhor.

De qualquer forma, “Opinião” carrega, além de uma posição política explicitamente comprometida com o povo mais oprimido, o peso de ter participado de um evento importantíssimo na história da canção popular brasileira: a revelação do talento de Maria Bethânia.

Isso porque Nara Leão, a cantora “oficial” do Opinião, após conhecer os dotes vocais e dramáticos da cantora nascida em Santo Amaro da Purificação, não teve dúvidas de que era ela quem deveria susbtituí-la, quando precisou abandonar a peça/show.

A propósito, a versão de Nara, que obre o álbum Opinião de Nara (1964), é um clássico absoluto e encerra o post de hoje (que é curto e não faz jus ao talento dos envolvidos com a canção tematizada, mas tento compensar numa próxima oportunidade):

5 comentários

  1. A música virou um hino de protesto,mas parece que não era intenção do autor,a obra de arte tem dessas coisas.

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