162. Milton Nascimento: “Ponta De Areia”

Ponta de areia, ponto final 
Da Bahia a Minas, estrada natural 
Que ligava Minas ao porto, ao mar 
Caminho do ferro, mandaram arrancar 
Velho maquinista com seu boné 
Lembra o povo alegre que vinha cortejar 
Maria Fumaça, não canta mais 
Para moças, flores, janelas e quintais 
Na praça vazia, um grito, um ai 
Casas esquecidas, viúvas nos portais


O autor do vídeo postado acima acertou em cheio, ao bolar a arte estática projetada durante o áudio. Nela, temos Milton Nascimento flagrado na famosa Passeata dos Cem Mil – e vale a pena reproduzir um pequeno fragmento de Os sonhos não envelhecem (8ª edição, São Paulo: Geração Editorial, 2013), em que Márcio Borges narra seus anos de amizade com Bituca:

Na Passeata dos Cem Mil, Bituca saiu de braços dados com nomes famosos da música, Chico Buarque etc. Sua foto apareceu em vários jornais, mas seu nome não foi citado em nenhum. Talvez ainda não conhecessem direito sua cara… (p. 180).

A arte, em vez de focar nos “nomes famosos” com quem o cantor estaria de braços dados, apenas insere sua face num círculo vermelho, formando uma bandeira do Japão com o tom predominantemente alvo do restante da bela imagem. E digo que o autor da imagem acertou em cheio porque a canção que se ouve é “Ponta De Areia”.

Lembro que, aos 10 anos, meu pai voltara de quase três anos de trabalho incansável no Japão. Seus tempos de dekassegui fizeram com que ele, nas horas vagas, constituísse uma respeitável discoteca de CDs (objeto que, para mim, ainda era novidade), mantendo o hábito de colecioná-los quando retornou ao Brasil. Um de seus amigos, o Celinho, abriu uma loja de discos no Centro de São Carlos, e estive lá muitas vezes acompanhando as compras de meu velho (que, então, tinha exatamente minha idade, ou seja, era bem jovem! – baixou o escritor engraçadinho aqui).

Uma dessas compras foi um curiosíssimo álbum intitulado Samba do extremo oriente, de uma banda japonesa chamada The Boom. Nele, o que se ouvia era um conjunto bacana de canções com vocação radiofônica, muito bem elaboradas instrumentalmente. Chamava a atenção a presença de ao menos um verdadeiro samba, cantado em português com um sotaque carregadíssimo: “Tokyo Tower”. Diga a verdade, você nunca imaginou um samba com esse título, não é mesmo? A batucada, por outro lado, era até que boa e suingada, e parecia de fato um bom samba brasileiro quando uma vocalista tupiniquim entoava o refrão: “Ah ah… como suportar / Se quando te vejo, vejo outro em meu lugar? / Ah ah… haja coração / Pra te ver aos beijos tal e qual nossa paixão!”.

O disco era todo bom e, mais tarde, acabei me interessando por outras canções. O vocalista, Kazufumi Miyazawa, de fato era um admirador da cultura brasileira e, sobretudo, de nossa tradição ao violão. Depois, soube que estabeleceria parcerias com o percussionista Marcos Suzano, vindo frequentemente ao nosso país. Na verdade, Miyazawa e o The Boom são até que relativamente conhecidos no Brasil, mais pelo público nipo-descendente: sua belíssima canção “Shima Uta” é muito tocada em festas japonesas (matsuri) e karaoquês da vida (eu mesmo já cometi o erro de cantá-la muito bêbado na Liberdade, mas faz parte).

O que chamava a atenção, nesse Samba do extremo oriente, era a faixa de encerramento, que tinha uma melodia muito bonita e, aos meus jovens ouvidos, japonesa até a medula. Custei a acreditar que aquilo era, na verdade, uma versão em japonês para uma conhecidíssima canção de Milton Nascimento: a própria “Ponta De Areia”, agora vertida para “砂の岬” (sunano misaki, literalmente, “ponta de areia”). Ao final da versão, inclusive, aparece um falsete bastante familiar aos fãs de Bituca, com Miyazawa cantando em português (novamente, com sotaque e tudo). Os puristas que me perdoem, mas acho essa versão lindíssima, espantosa, sensacional – e veja se não estou certo:

Quem diria que a letra saudosista de Fernando Brant, sobre a música de Bituca, iria florescer 20 anos depois (Samba do extremo oriente é de 1994, e “Ponta De Areia” foi lançada por Elis Regina no LP Elis, de 1974) do outro lado do mundo!

Luiz Henrique Garcia, no Massa Crítica, explica a magia de “Ponta De Areia”, considerando a relação do poema de Brant com os aspectos melódico-harmônicos da composição. A citação é longa, mas vale a pena ser lida com atenção:

A despeito de ser um compositor que costuma navegar as águas mais profundas e tortuosas das páginas da música popular, Milton Nascimento tem um canal fino de acesso ao mais infantil das cirandas de roda, capaz de desenhar as melodias mais singelas em acordes perfeitos, sob as quais ocorrem as mais heterodoxas passagens rítmicas sem que se aperceba delas, tal a integridade da frase melódica e da forma. Em certas ocasiões, a simplicidade formal é incrível, como nesta pérola, que consiste na simples reexposição de uma frase “a” e uma variação dela, “a´”. […]

Claro que esse aspecto hai-cai da melodia é dirimido pela longa introdução de sua gravação primeira, no disco Minas, com as sinuosidades do sax de Nivaldo Ornellas e a felliniana ambientação musical e percussiva que segue, interrompidas pelo canto idílico de crianças no jardim de infância, em Fá Maior; desse jardim somos catapultados de súbito uma quarta acima, em Si Bemol, tom que vai predominar daí até quase o fim, com o surreal falsete miltoniano em suas pontas mais agudas. Um coro sacro sustenta a primeira estrofe que enuncia o último ponto da estrada de ferro que ligava Minas à Bahia; a estrada de ferro, antes índice máximo da tecnologia mundial dos transportes, curiosamente aparece como elemento da natureza, da paisagem já tomada, e agora despido de sua força-vital; “mandaram arrancar”. Em torno da estrada de ferro todo um cenário se constitui e se desvanece, e vai se perdendo numa nostalgia que se verifica, também, em “Saudade dos Aviões da Panair”, também letra de Fernando Brant. Os meios de transporte “ultrapassados”, como o bonde, o trem, e os antigos aviões, são tomados como eixo lírico de toda uma visão de mundo que tem no Brasil – e no interior do país – seu centro geográfico. A passagem do tempo impele um trabalho contínuo de destruição e ressignificação do que antes era progresso e hoje é nostalgia; mas esse tempo histórico não é tido como natural, e o sub-texto da canção é uma condenação velada ao desenvolvimentismo do Brasil Grande, com suas Transamazônicas e o sucateamento das ferrovias, ao mesmo tempo que a Feira Moderna da televisão nacional anunciava o encurtamento das distâncias, enquanto outras só se alargavam.

Notável, voltando aos aspectos estritamente musicais, é o solo desenvolto e de arribação de Nivaldo Ornellas, assim como a articulação entre bateria, Paulo Braga, baixo elétrico, Novelli, e piano elétrico, Wagner Tiso, para a levada pop de uma música tão idiossincrática em sua métrica: um compasso de 4/4 é seguido de um de 5/4, em ambas as frases da melodia; porém a acentuação sugere outras possibilidades de divisão de compassos, como um compasso de 4/4, um de ¾ e um de 2/4 . E é incrível como as platéias mais leigas nunca se confundem com isso, como a reafirmar a naturalidade da divisão melódica. Cantigas de roda com esse tipo de característica não ocorrem a qualquer compositor.

Regravada uma infinidade de vezes, trata-se de uma das mais consagradas loas da dupla Nascimento e Brant, e é natural que a grandeza da música se justifique por sua simplicidade misteriosa e reveladora.

Nada mais a acrescentar!

milton-nascimento-2
Milton Nascimento: emoção no cantar que chega até o outro lado do mundo.

Como a citação acima afirmou, “Ponta De Areia” foi gravada e regravada por muita gente, por isso, destacarei apenas a conhecida versão de Elis Regina, sempre ela (e juro que escutei um shamisen em certa altura da ponte instrumental):

E como homenagem ao meu amigo Fábio Hirono (que também passou seus apuros na Terra do Sol Nascente), trago como curiosidade a bela versão da não menos bela contrabaixista e cantora estadunidense Espenza Spalding. Presente no álbum Esperanza (2008), a versão – que Hirono me apresentou – assusta pela interpretação arrojada e pelo português quase perfeito com que os versos são cantados:

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