163. Bezerra da Silva: “Bicho Feroz”

Você com revólver na mão é um bicho feroz
Sem ele, anda rebolando e até muda de voz
(Isso aqui, cá pra nós)
É que a rapazeada não sabe
Quando você entrou em cana
Lavava a roupa da malandragem
E dormia no canto da cama
Hoje está em liberdade
E anda trepado com marra de cão
Eu conheço seu passado na cadeia
Seu negócio é somente pagar sugestão


“Bicho Feroz” abre Malandro rife (1985), álbum do sambista pernambucano Bezerra da Silva. Mas reduzir Bezerra a sambista é quase um sacrilégio, já que o homem foi um tremendo músico, um multi-instrumentista: na percussão, tocou no disco de estreia de Zé Ramalho (Zé Ramalho, 1978 – e é ele quem conduz a versão originalíssima de “Bicho De Sete Cabeças”, parceria do cantor paraibano com Geraldo Azevedo); estudou violão clássico e, no universo do samba dos morros, era uma avis rara por saber ler pautas; e chegou a praticar também o trompete. Em resumo, poderia ser um homem-banda, se quisesse. Também não é exatamente apropriado o considerar apenas pernambucano, já que o cantor possuía uma enorme identificação com o Rio de Janeiro – embora nunca tivesse renegado suas raízes nordestinas, pelo contrário, procurou exaltá-las até o final de sua carreira.

A canção, escolhida como tema de hoje, é mais uma daquelas que não possui muitos segredos. Composta por Tonho Madrinho e Claudinho Inspiração – alguns dos muitos compositores, por vezes donos de nomes enigmáticos ou apenas “falsos”, a quem Bezerra decidiu apoiar gravando seus sambas –, a obra é um tiro certeiro na hipocrisia de uma sociedade que cultua as armas na cintura. Aliás, hipocrisia de uma sociedade ou de um tempo histórico? Pois já diz a velha máxima que, depois da pólvora, não existe mais homem.

Dá o que pensar. Eu, por exemplo, pratiquei karate por mais de 20 anos: primeiro, como esporte; depois, como instrumento de autodefesa (na esperança de nunca precisar utilizá-lo); e numa fase mais tardia, como uma espécie de “meditação em movimento”. A fase contemplativa, se posso nomeá-la assim, surgiu com a percepção de que nem como autodefesa uma arte tradicional japonesa tem serventia: diante de um ataque armado, melhor levar as mãos ao alto e pedir “por favor, seu moço, leva tudo, mas não me mata não”. Reagir é estupidez.

Nesse sentido, fico pensando com que intenções esses protótipos de machões se matriculam nas academias de jiu-jítsu, muay thai e todas as variantes de lutas dos MMAs da vida. Porque, se forem inteligentes, escolherão esportes mais eficientes para gastar suas calorias – já que, como autodefesa, apostar as fichas numa arte marcial é brincar perigosamente com a morte, num mundo cada vez mais armado até os dentes. E tais artes também não trazem de lambuja aqueles aspectos meditativos dos “do” japoneses (kendo, judo, karate-do, aikido, etc.) ou das formas do wu-shu chinês (que chamamos erroneamente de kung-fu).

Sob a pena de generalizar demais, diria que são sujeitos ou muito burros, ou mal intencionados: se como esporte ou defesa essas lutas pouco valem, só podem estar servindo à intenção de agredir gratuitamente o outro. (Novamente, generalizações são perigosas, pois acabo de lembrar de muita gente boa e pacífica que praticou ou pratica alguma dessas lutas nomeadas no início do parágrafo. Mas talvez sejam as exceções que confirmam a regra).

Muito bem, aprender uma luta para a autodefesa é ilusão vã; aprender para atacar outra pessoa, sinal de idiotia. Mas usar de uma arma de fogo, apenas para parecer mais ameaçador (como faz o “bicho feroz” cantado por Bezerra), isso sim é sinal de baixíssima estatura moral. Pois despido do instrumento de subjugação, resta menos que um homem.

E aí há outra reflexão proporcionada pela canção: qual o problema em ser “menos que um homem”? Nesse sentido, leituras mais politicamente corretas da composição irão denunciar que, apesar da precisão com que um indivíduo hipócrita é desmascarado em “Bicho Feroz”, também não faz sentido associar seu caráter torpe a uma suposta falta de masculinidade.

Politicamente correta ou incorreta, a canção, no fim das contas, nos faz pensar sobre isso: o que é ser homem? O que faz um homem? O que faz um homem ser homem, ou ser mais homem que outro homem? E, por fim, qual o sentido de se perguntar tudo isso num mundo em que não há apenas homens – mas mulheres e, no meio desse espectro entre o feminino e o masculino, gente tendendo mais pra cá do que pra lá, mais pra lá do que pra cá, ou simplesmente não tendendo a nenhum dos lados?

Em resumo, qual o sentido em querer ser mais homem, quando o que nosso tempo histórico necessita é que sejamos mais gente?

Não imagino o que Bezerra pensaria sobre tudo isso. Mas, inteligente como ele só – e não apenas malandro, palavra que o próprio Bezerra julgava mal utilizada e/ou compreendida; no discurso da classe dominante, o esperto branco/rico tem inteligência, enquanto esperto preto/pobre tem malandragem –, não duvido que seu pensamento tendesse para uma visão mais contemporânea, quiçá progressista.

De qualquer forma, caras autênticos como ele fazem muita falta nesse Brasil repleto de personas – além dos populares “malandros caixa-d’água”: aqueles que só entram pelo cano. (Nota do blogueiro: a piadinha é cortesia do meu pai).

bezerra-da-silva.jpg
Bezerra da Silva: porta-voz, mais do que da malandragem, da inteligência dos excluídos.

Desde seus tempos de Planet Hemp, Marcelo D2 jamais escondeu sua admiração pela figura de Bezerra. Por exemplo, “Futuro Do País”, samba-hardcore modal presente em Usuário (1995), é iniciada com um recado que emula os falas de Bezerra no início de seus sambas: “Aí, malandragem… tem que ficar ligado no futuro do país. A parada é o seguinte, certo?”. Já em Os cães ladram mas a caravana não pára (1997), a faixa “O Bicho Tá Pegando” aparece como uma versão extendida e hip-hop de “Malandragem Dá Um Tempo”, talvez o maior sucesso de Bezerra.

Essa aproximação do rapper com o sambista gerou o disco tributo Marcelo D2 canta: Bezerra da Silva (2010), com arranjos reverentes às versões originais e um intérprete, ao menos, bastante esforçado. “Bicho Feroz” ganhou uma releitura que não compromete, mas também não traz nada de novo à canção:

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