165. Nelson Sargento: “Agoniza Mas Não Morre”

Samba,
Agoniza mas não morre
Alguém sempre te socorre
Antes do suspiro derradeiro
Samba
Negro, forte, destemido
Foi duramente perseguido
Na esquina, no botequim, no terreiro
Samba
Inocente, pé-no-chão
A fidalguia do salão
Te abraçou, te envolveu
Mudaram toda a sua estrutura
Te impuseram outra cultura
E você não percebeu


“Agoniza Mas Não Morre” é um dos clássicos de Nelson Sargento, carioca que é um verdadeiro patrimônio da cultura mundial. Na linha de outros cancionistas negros cuja militância pela difusão e valorização da cultura afrobrasileira se expressou em outras artes (como Nei Lopes e Martinho da Vila), Nelson é também artista plástico, ator e escritor.

A canção de hoje consta no álbum Sonho de um sambista (1979), entre outros petardos melodiosos e saudosistas, como todo samba deve ser. Ou não? A própria “Agoniza Mas Não Morre” cuida de caracterizar o gênero como um sobrevivente a diversas formas de enquadramento, da domesticação pela elite à perseguição policial.

A melodia, que parte de uma evocação comum a muitas canções – “Saaaaaamba…” –, inicia com uma caracterização histórica que, em degraus ascendentes na tessitura, alcança seu ponto de maior tensão quando lembra que “A fidalguia do salão / Te abraçou, te envolveu”. Como se tivesse virado as costas ao povo – que, afinal, lutou por sua sobrevivência –, o samba é acusado de ter se deixado seduzir pela cultura burguesa. O lamento, da história passa à política, e então à estética: “Mudaram toda a sua estrutura / Te impuseram outra cultura / E você não percebeu”. O último verso, cantado com uma melodia que retorna à região mais baixa do registro vocal, adquire assombrosa gravidade asseverativa.

Para a surpresa do ouvinte, o que parecia um canto de exaltação, quando da primeira vez em que a palavra “samba” é cantada, se revela como um verdadeiro puxão de orelha dirigido, quem diria, ao próprio samba. Eis o lamento na verdadeira acepção da palavra.

Nelson Faria, no canal Um Café lá em Casa, trouxe em 2016 um já nonagenário Nelson Sargento para cantar “Agoniza Mas Não Morre”, numa especialíssima versão voz-e-violão, seguida da explicação da origem dos versos da canção:

Eu era sambista boêmio e, claro, tomava minhas cachacinhas e chegava em casa tarde – graças a Deus! E, numa dessas chegadas, a minha mulher… a minha ex-mulher […], quando cheguei em casa, com o pé torto [imita um bêbado], ela disse assim:

– Você não vai perguntar se eu tô melhor?

– [inaudível] Mas você tá doente? Cê tá doente?

Ela deu aquela… de mulher largada…:

– Desgraçado! Você não saiu daqui e me deixou passando mal?

E acontece que o apelido dela é Vivinha. Eu simplesmente disse:

– Vivinha, você agoniza mas não morre! Seu Nelson sempre te socorre antes do suspiro derradeiro!

– Desgraçado! E ainda faz samba! – ela falou a palavra mágica!

[…] E aproveitei que na época falava-se naquela perseguição do samba e coisa tal… “samba agoniza mas não morre”, porque tinha uma invasão, a primeira invasão de música estrangeira, foi chamada “iê-iê-iê”. E isso levou a juventude pra caminho aí… pra… e começou então… uma derrotada [do samba]…

Você pode conferir o registro dos “Nelsons” aqui:

Por fim, destaco dois músicos que participam da gravação original de “Agoniza Mas Não Morre”: Luciana Rabello no cavaquinho e ninguém menos que Mussum no ritmo.

nelson-sargento.jpg
Nelson Sargento: autoridade moral para a (auto)crítica do samba.

“Agoniza Mas Não Morre” foi bastante regravada. Vou destacar apenas duas versões.

Em Meu coração é um pandeiro (2000), Cauby Peixoto apresenta um luxuosíssimo registro da canção, em dueto com o próprio Nelson Sargento. De fato, “Agoniza Mas Não Morre” parece ter sido criada para ser cantada por uma grande voz, com todo o direito à empostação:

Na direção oposta, a cavaquinista Veronica Nunes, um dos talentos emergentes do Rio de Janeiro, apresenta uma versão que fica no meio termo entre a sofisticação jazzística e o som raiz de terreiro. Surpreendente! Ouça a faixa, presente em Pra fugir da saudade (2014):

2 comentários

  1. Nelson Sargento,um compositor de primeira,e um cantor (não no sentido clássico) também de primeira.

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