166. Erasmo Carlos: “Do Fundo Do Meu Coração”

Eu, cada vez que vi você chegar
Me fazer sorrir e me deixar
Decidido eu disse: “Nunca mais”
Mas, novamente, estúpido provei
Desse doce amargo, quando eu sei
Cada volta sua, o que me faz


A partir de agora, o blog entra em contagem regressiva: este é o primeiro dos 200 posts finais.

Brincadeira, não estamos em contagem regressiva coisa nenhuma. Será, na verdade, dificílimo concluir a tarefa de postar 365 canções em 2019. Estou decidido a manter a regularidade, mas tenho minhas dúvidas sobre como isso acontecerá daqui pra frente, dada minha situação na universidade, com muitas aulas (principalmente de setembro em diante). Isso sem contar que não cumpri o que me prometi para as férias: deixar engatilhados ao menos os posts dos meses de julho e agosto – mas tenho como desculpa o fato de ter ficado doente e, de certa forma, não ter me curado completamente até agora.

A maior dificuldade, penso, será trazer aqui outros 200 artistas de que não falei nos posts anteriores. Sobraram poucos nomes inéditos. Mas, pensando bem, ainda há muita gente boa e importante cujas canções não foram tematizadas. Além disso, em poucos dias completaremos a primeira metade da tarefa, e há a sensação de que a segunda metade passará rápido.

A conferir.


Quando passava as manhãs de 1996 escutando rádio com meu pai (ele trabalhando em casa na sua mesa de desenho, eu fazendo algum trabalho escolar), era frequente aparecerem (boas) canções que se destacavam na minha memória auditivo-afetiva. Canções-chiclete, com a melodia ressoando por dias, semanas, meses.

A que tematizo hoje ressou por anos, pra falar a verdade. Eu era moleque demais para entender tudo o que era cantado por aquelas duas vozes, mas a melodia soava inexplicável e particularmente impressionante.

Anos depois é que fui descobrir que, cantando com Erasmo Carlos (a quem eu já atribuía a devida importância), estava uma moça chamada Adriana Calcanhotto, e que a canção em questão já fora gravada anteriormente pelo rei Roberto Carlos, em seu álbum de 1986. Era “Do Fundo Do Meu Coração”:


Luiz Tatit, em O cancionista: composição de canções no Brasil (São Paulo: Edusp, 1995), ao abordar a “dicção” do rei Roberto, traz o exemplo de “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”. O pesquisador da USP argumenta que, pela forma como o registro vocal desce pela tessitura ao fim do refrão da canção, estamos diante de um dos momentos mais asseverativos da canção popular brasileira: “E que tudo mais… vá pro inferno!”

Pois bem. “Do Fundo Do Meu Coração”, parceria entre os eternos amigos Roberto e Erasmo, já trazia em sua versão original essa marca da dicção do rei. Basta escutar com atenção os versos “Acabe com essa droga de uma vez / Não volte nunca mais” e “Do fundo do meu coração / Não volte nunca mais pra mim”.

Em termos narrativos, temos o sujeito enunciador lutando para se impor sobre o fim da conjunção amorosa. Nos inícios das estrofes, recapitula-se a postura pretérita vacilante, em que outros términos da união eram cancelados com novos retornos provisórios, até a humilhação. A auto-admoestação é severa: o personagem chega a se considerar “estúpido” por ter assim agido.

No entanto, a retrospectiva dos erros passados gera um acúmulo de forças, manifestado na entoação dos versos “Acabe com essa droga de uma vez” e “Do fundo do meu coração” (e preste atenção aos acentos em “droga” e “fundo do“), forças que se dissipam de forma bastante asseverativa no imperativo “Não volte nunca mais (pra mim)”.

Nota-se que, assim como “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”, “Do Fundo Do Meu Coração” também traz um verdadeiro palavrão, quando pronunciado pela boca de Roberto Carlos: “droga”. Vejo, assim, a canção mais recente se insinuando como uma atualização da mais antiga, já fora do contexto da Jovem Guarda.

Quanto à gravação de Erasmo com Adriana, no álbum É preciso saber viver (1996), me parece que, espertamente, o Tremendão resolveu ocultar uma estrofe inteira – “Mais uma vez aqui / Olhando as cicatrizes desse amor / Eu vou ficar aqui / Sei que vou chorar a mesma dor / Agora eu tenho que saber / O que é viver sem você” – de forma a justamente fazer sobressair o caráter altivo da voz que canta.

De fato, a estrofe em questão representa mais um vacilo desse sujeito – mas bem sabemos que ele próprio rejeita essa posição saudosista e, pra ser bem franco, bastante piegas, justamente no momento melódico mais passional. Não, a força da canção está exatamente em sua superação desse /querer/ conjuntivo; o enunciador quer mesmo é recuperar a dignidade de seu /ser/, mediante a ordem para o /não fazer/ (“Não volte nunca mais”) dirigida à pessoa desamada.

Assim, o dueto com Adriana potencializa a mensagem que, curiosamente, a interpretação original não conseguira transmitir de forma perfeita. Mas ela já estava ali desde o princípio, exposta na poesia cortante das estrofes em que se canta o verso-título “Do fundo do meu coração”. Até porque, poeticamente, elas se bastam, sendo riquíssimas sob o ponto de vista composicional. Observe, por exemplo, como elas incorporam o recurso do encavalgamento (enjambement), que consiste em completar num verso seguinte o raciocínio do verso anterior – por exemplo, “Mas, novamente estúpido provei / Desse doce amargo, quando eu sei / Cada volta sua, o que me faz” (aqui, temos encavalgamento nos três versos).

Outro aspecto que chama a atenção, em “Do Fundo Do Meu Coração”, é a forma como a harmonia é modulada, subindo e descendo de tom. Mais um recurso que é mobilizado para aumentar pungência e a urgência da mensagem disparada pelo sujeito enunciador.

erasmo-carlos-adriana-calcanhotto.jpg
Erasmo e Adriana: unidos para tornar a mensagem de “Do Fundo Do Meu Coração” ainda mais cortante.

A canção foi gravada por muita gente, além de seus intérpretes originais.

Primeiramente, vou destacar uma versão de Adriana cantando “Do Fundo Do Meu Coração” sozinha ao violão. Sei que há um registro semelhante no projeto Elas cantam Roberto Carlos (2009), ao vivo. A performance abaixo parece ter sido gravada em estúdio, mas não descobri em que contexto isso ocorreu:

Penso que as três versões – a original de Roberto, a de Erasmo com Adriana e essa de Adriana solo – bastam. Mas são tantas as covers que, dentre elas, vale a pena falar de mais algumas.

Por exemplo, salta aos olhos a presença da canção no repertório de tantos artistas associados ao universo “sertanejo” – Leonardo, Daniel e Roberta Miranda, para citar alguns. Destas, a da cantora me agrada mais, embora todas apresentem arranjos que apenas fazem sobressair o tom inegavelmente brega da obra. Porém, é justamente a versão mais assumidamente cafona de todas, nesse universo sertanejo, a que mais me chamou a atenção. Trata-se da regravação da dupla Adalberto & Adriano, também conhecidos como Amanhecer & Alvorada, no álbum Caipira do sul (1989). Entre todos os arranjos, é o mais diferente e inventivo! Mas o que mais gostei foi dos vocais, muito bem harmonizados. Veja se concorda (e repare no verso “E mais uma vez falei que sim”):

Outra versão que supera a mesmice é a de Fafá de Belém, no álbum justamente intitulado Do fundo do meu coração (1993). A competência vocal da cantora faz toda a diferença e, com todo o respeito, dá uma verdadeira lição de interpretação aos sertanejos mencionados acima – pois emociona sem que soe over e, portanto, artificial:

A lista de artistas é interminável: “Do Fundo Do Meu Coração” esteve no repertório de gente tão diversificada quanto Joanna, Raça Negra e até Hebe Camargo! Uma versão que me surpreendeu (positivamente) foi a de Fábio Jr., no álbum Íntimo (2011). Achei o arranjo ousado e tão certeiro quanto possível, nos limites do universo romântico do cantor:

Por fim, como curiosidade, trago a versão da portuguesa Raquel Tavares, no disco-tributo Roberto Carlos por Raquel Tavares (2017). Novamente, temos um arranjo certeiro, inventivo e belo, além de uma intérprete que, sem se conter, mantém a sobriedade do registro. Seu belo timbre grave também colabora bastante. Confira:

2 comentários

  1. Ouvindo a versão (sentimental) de Roberto Carlos se vê porque ele conseguiu ser mais popular que seu parceiro Erasmo – E a versão-caipira ficou até bonitinha,quem diria!

    Curtir

    1. Eu fiquei apaixonado pela versão em duas vozes, muito bonita mesmo. E entre o Rei e o Tremendão, vou ficar com Erasmo, pois o registro com Adriana me leva para longe, muito longe…

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s