169. Tavinho Moura e Fernando Brant: “Vevecos, Panelas E Canelas”

Eu não tenho compromisso, eu sou biscateiro
Que leva a vida como um rio desce para o mar
Fluindo naturalmente como deve ser
Não tenho hora de partir, nem hora de chegar
Hoje tô de bem com a vida, tô no meu caminho
Respiro com mais energia o ar do meu país
Eu invento coisas e não paro de sonhar
Sonhar já é alguma coisa mais que não sonhar


Escutei “Vevecos, Panelas E Canelas”, pela primeira vez, numa coletânea de sucessos de Beto Guedes. A canção, que tem um aspecto solar e um andamento mais ligeiro que a maior parte das composições gravadas pelo músico mineiro de Montes Claros, é marcada por uma fórmula de compasso simples (4/4) e pelo título enigmático.

Na verdade, os Vevecos, Panelas e Canelas não passam de amigos dos compositores, a dupla que sempre acertou em cheio, Milton Nascimento e o saudoso Fernando Brant. O Museu da Pessoa traz, inclusive, uma foto com os homenageados:

vevecos-panelas-canelas
Da esquerda para a direita, Fernando Brant, Chico “Canelas”, Tavinho das “Panelas”, Álvaro “Veveco” e Milton Nascimento.

É Tavinho Bretas, o das “Panelas”, quem conta um pouco da origem da canção (especialmente de seu primeiro verso, “Eu não tenho compromisso, eu sou biscateiro”), também no Museu da Pessoa:

O Fernando resolveu homenagear um grande amigo dele, que é o Veveco, Álvaro Hardy, e o Milton fez uma melodia e ele resolveu fazer uma letra baseando-se nas pessoas que eram meio multimídia. O Veveco sempre gostou de várias coisas de cultura além da arquitetura. A história começou com o biscateiro e pelo fato de eu também ser curioso em várias áreas, tanto em design com em música […]. Virou Tavinho das Panelas pelo seguinte: às vezes eu ligava para a casa do Fernando Brant quando o Milton vinha visitá-lo aqui em Belo Horizonte, o pessoal no telefone me perguntava: “Quem quer falar com ele?”, eu falava: “É o Tavinho”, e diziam: “O Moura ou o das panelas?”, porque eu trabalhei com pedra-sabão durante muitos anos e uma das minhas marcas era dar de presente para os amigos panelas de pedra-sabão. O Fernando foi agraciado com algumas dessas panelas, então ficou Tavinho das Panelas. E a música “Veveco, Panelas e Canelas” foi mais ou menos uma homenagem em cima de três amigos. O Canela é o Chico Canelas, que mora em Três Pontas e que nunca está presente. Agora, infelizmente, o Veveco, que foi o principal homenageado nessa história, Deus resolveu convidá-lo para fazer uma obra arquitetônica lá no céu, então ele não está mais presente também [Veveco faleceu em 2005].

A obra, de forma geral, se inscreve como uma das canções-manifesto do Clube da Esquina, como as próprias “Clube Da Esquina” e “Clube Da Esquina 2”. Assim, a letra é cantada como uma alegre melodia, expondo uma carta de intenções muito afins ao universo ético e temático dos mineiros que orbitavam a figura dos irmãos Lô e Márcio Borges, além, é claro, de Bituca. O narrador se mostra comprometido com a leveza do viver – e do sonhar.

O refrão, sem ser ufanista, traz um sujeito enunciador feliz por ter nascido onde nasceu, exortando, sutilmente, seus semelhantes a sentirem o mesmo orgulho despudorado: “Para quem não me conhece eu sou brasileiro / Um povo que ainda guarda a marca interior / Para quem não me conhece, eu sou assim mesmo / De um povo que ainda olha com pudor / Que ainda vive com pudor”.

Na última estrofe, um dos tantos momentos metalinguísticos das canções que trazem o dedo de Bituca e de seus letristas favoritos, entre eles Brant: “Queria fazer agora uma canção alegre / Brincando com palavras simples, boas de cantar / Luz de vela, rio, peixe, homem, pedra, mar / Sol, lua, vento, fogo, filho, pai e mãe, mulher”. Um ouvinte atento irá reconhecer tantas dessas palavras nas canções gravadas pelos mineiros: a luz de vela remete a “Sentinela”, letra de Fernando Brant (“Morte vela sentinela sou / Do corpo desse meu irmão que já se vai”); rio está em “Rio Doce” (de Ronaldo Bastos), mas também, junto com o peixe, em “Canoa, Canoa”, de Brant com Nelson Angelo; homem, pedra e mar aparecem juntos em “Saídas E Bandeiras nº 2” (“O que era pedra vira homem / E um homem é mais solido que a maré”); sol, lua, vento e fogo (estes dois últimos, como “vento solar”) são elementos de “Um Girassol Da Cor De Seu Cabelo”, de Lô e Márcio; o pai e o filho estão na “Pai Grande” de Milton; e a mãe/mulher no remete à instrumental “Lilia”, também de Bituca, em homenagem a sua mãe.

Apesar de gostar muito do arranjo original de “Vevecos, Panelas E Canelas”, conforme gravado em Contos de lua vaga (1981) de Beto, me apaixonei pela versão simples presente em Conspiração dos poetas (1997), único álbum gravado por Tavinho Moura em dupla com Fernando Brant.

Para ouvir e sonhar.

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Fernando Brant e Tavinho Moura: construindo sonhos, coletivamente, no Clube da Esquina.

Ouça a versão original de Beto:

Beto regravou a canção em seu DVD Outros clássicos, de 2010. O arranjo permanece o mesmo, embora a voz do cantor esteja quase desaparecendo de tão pequena. Atenção à homenagem instrumental incidental a “O Que Foi Feito Devera”/”O Que Foi Feito De Vera” (parceria de Márcio Borges, Fernando Brant e Bituca):

Por fim, há a boa versão da mineira Vanessa Falabella, em Outras esquinas (álbum de 2014 que homenageia as canções do Clube), trazendo “Vevecos, Panelas E Canelas” para uma atmosfera mais jazzy:

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