171. Angra: “Holy Land”

We were born in a Golden Age
Beyond the creed
Blown with the winds to meet
The ones who creep
And pray


O súbito desaparecimento de André Matos, há pouco mais de uma semana, foi uma notícia que recebi com estupefação e tristeza. Um dos maiores nomes do metal mundial, André era um exemplo de trabalhador incansável e dedicado, talvez um dos mais eruditos em seu ofício.

Tive já minha fase metaleira e confesso que, na produção brasileira, gostava mais do Sepultura. Cheguei a me interessar por bandas estrangeiras que tinham uma proposta mais sinfônica (como o Stratovarius), o que era uma das características marcante das composições do maestro André, mas pouco me deixei seduzir pelo Angra.

Gostava muito de uma versão acústica, que circulava na net em inícios dos anos 2000, para a canção “Make Believe”, uma bela balada do álbum Holy land (1996). Lembro também que em 2006 a querida Viviana Prado (então, caloura dos meus calouros no curso de Química, hoje docente em nossa alma mater) me emprestou o primeiro disco (Ritual, 2002) da nova banda de André Matos, o Shaman. Não me convenceu: achei o som muito cheio, over, barroco. Conhecia também alguns riffs clássicos do grande guitarrista Kiko Loureiro – mas já numa época em que a guitarra elétrica me empolgava muito menos que o violão com cordas de nylon. E, em 2013, lembro do sempre amigo Fábio Hirono me mostrando sons de Holy land, chamando a atenção para a brasilidade que os contaminava. Alguns dias depois, recebi de Hirono uma cópia do álbum, mais um CD com toda a discografia do Radiohead em MP3.

O parágrafo acima meio que resume minha relação com o Angra. Mas tive que relatá-lo para contar outro fato. Nos últimos dias, empenhei-me em gravar cópias digitais, para uso pessoal, de toda a minha CDteca. Alguns arquivos em MP3 acabaram se juntando ao novo acervo eletrônico, entre eles, os discos do Radiohead. Que estavam junto do Holy land, encontrado num lugar meio escondido, e depois deixado (jogado) na mesa de meu escritório, aguardando minha boa vontade em escondê-lo novamente. Como este blog adora coincidências, eis que o álbum do Angra, que eu não escutava há tempos,  e que jazia soterrado sob uma pilha de outros sons, estava surpreendentemente à mostra quando da morte de André.

Pensei, então, se valeria a pena tematizar alguma canção da banda paulistana aqui. A regra é clara: neste humilde blog, todas as canções devem ser brasileiras. Mas o estatuto do 365 Canções Brasileiras nada afirma sobre a língua em que devam ser entoadas. Assim, considerando que os casos omissos são resolvidos pela Diretoria Geral – devendo ser aceitos por aclamação dos visitantes! –, eis que decidi que “Holy Land”, a canção, merecia figurar aqui.

Outro fator que me levou a considerar “Holy Land” para o blog foi a fala de Kiko Loureiro, em um recente vídeo que o guitarrista divulgou a respeito de seu afastamento de André Matos, e do fato de que os músicos não se falaram por duas décadas. Transcrevo o trecho em questão:

[…] eu fiz essa entrevista pra França, e aí [veio a pergunta] “Qual era a música que representaria o André?”, alguma coisa assim, né? E muita gente fala da “Carry On”, né, porque a “Carry On” é uma música do André e foi uma das músicas que o Angra tem que tocar, sempre tem que tocar, é a abertura do show e tal, muito marcante…

Mas eu não acredito que fosse a música que o André teria orgulho de apresentar. A música que ele teria orgulho de apresentar – que eu acho a melhor música que o André escreveu, pelo menos das que eu conheço bem, pelo menos das da carreira do Angra – é a música “Holy Land”.

E essa música, ela nasceu porque, um dia, no quartinho que ele tinha no apartamento do vô dele, a gente moleque lá, ele tinha um piano, tinha um estudiozinho lá e tal… é… eu falei: “Poxa, por que a gente não faz uma música tipo afoxé, pegando o lance do berimbau?” E aí ele ficou com isso na cabeça e eu… eu só… eu dei essa ideia assim, e aí, […] sei lá quando depois, ele veio com a música inteira! Tipo, com todas as partes arranjadas, com a guitarra feita no teclado […], tipo a música maravilhosa, linda, completa, com a voz cantando, com todos aqueles arranjos, aquelas coisas todas assim…

E eu tenho certeza que, muito mais do que o André cantor… o André mais do que querer ser reconhecido como grande cantor (o que era óbvio, né, isso), ele queria ser reconhecido como compositor. E esse compositor de mente muito aberta, porque ele era muito fã de Peter Gabriel, de world music, e tudo mais.

Então, assim, a “Holy Land” é uma música que vai representar o André, tipo, no seu máximo, completo, como cantor (porque é fantástica a performance dele na música, no álbum Holy Land, a música “Holy Land” – tanto que a música virou o título do [álbum]); conceitualmente a letra; a voz dele; e, obviamente, toda a composição em si da melodia, da estrutura da música, a genialidade das partes, como elas se encaminham ao longo da música, que o André era muito bom, muito bom mesmo, e a gente sempre… Eu aprendi, eu e o Rafael [Bittencourt, guitarrista], a gente sempre elogiou o André, principalmente por essa habilidade de estruturar uma música e tudo mais. […].

Então a “Holy Land” fica minha sugestão pra você ouvir e entender a capacidade toda do André, como músico, como cantor, como compositor, […] como letrista e como um conceito geral da música que gerou […] o álbum Holy Land, que foi um álbum muito marcante pra carreira do Angra.

De fato, “Holy Land” traz um inusitado cruzamento entre o folclore nordestino, o rock progressivo e o peso metaleiro, não sendo exagero considerá-la como um legítimo exemplar da world music, como Kiko sugere no depoimento acima.

A canção é fundada em pequenas frases ao piano que emulam o Toque de Angola no berimbau, instrumento que aparece já nos primeiros compassos. Ouvem-se, ainda na introdução, instrumentos percussivos e flautas que soam como pífanos nordestinos. Outras passagens instrumentais trazem células rítmicas que aludem ao baião, embora toda a letra, cantada no inglês perfeito de André, transmita a mensagem do colonizador ao aportar na “holy land”, o chão brasileiro. O “descobrimento” da Ilha de Vera Cruz, por sinal, é o conceito que alinha boa parte das canções de Holy land.

Coincidentemente, o disco foi lançado no mesmo ano que outro álbum do metal brasileiro com forte inspiração na brasilidade: Roots, do Sepultura. Mas se o disco dos mineiros bebeu nas fontes indígenas (como denuncia a própria capa do álbum) e trouxe um som pesado e berrado como de costume, Holy land preferiu referenciar elementos mais relacionados ao universo afro, sem abrir mão do lirismo e da excelência técnica.

Como diz Kiko Loureiro, “Holy Land” é a obra mais representativa do que André Matos produziu em sua curta jornada, já sendo um clássico inquestionável da arte musical brasileira que, sem abrir mão da cultura local, buscou ares mais universais.

angra.jpg
Angra: incorporando brasilidades ao experimentalismo sinfônico do metal nacional para exportação.

3 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s