172. Ângela Maria: “Gente Humilde”

Tem certos dias em que eu penso em minha gente
E sinto assim todo o meu peito se apertar
Porque parece que acontece de repente
Feito um desejo de eu viver sem me notar
Igual a como quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem, vindo de trem de algum lugar
E aí me dá como uma inveja dessa gente
Que vai em frente sem nem ter com quem contar


Não foi menos que comovente assistir a Ângela Maria, em algum programa da TV aberta por volta de 2013, interpretar “Gente Humilde”, já sem o alcance vocálico da época em que registrou a canção pela primeira vez, 1970 (no LP Ângela Maria de todos os temas). Homenageada em vida naquela ocasião (que não consigo me recordar exatamente qual era), a cantora fluminense foi, indubitavelmente, uma das maiores vozes que já cantou o/pelo Brasil – se não tiver sido a maior.

No entanto, a história de “Gente Humilde” remonta a décadas antes da gravação de Ângela. Aqui, vou me basear nos eventos narrados no sítio Acervo Digital do Violão Brasileiro. A cronologia é a seguinte:

Por volta de 1945. O violonista paulista Aníbal Augusto Sardinha, o popular Garoto, compôs uma peça chamada “Gente Humilde”, então uma moda instrumental ao violão. O tema foi pensado para compor uma suíte com outras duas peças, “Meditação” e “Vivo Sonhando”, e foi inspirado pelas caminhadas de Garoto pelos subúrbios cariocas.

1951. Moacir Portes, que integrou o conjunto vocal Os Uyrapurus, se interessa por “Gente Humilde” e, conversando com Garoto, sugere que se coloque letra sobre a melodia. No fim das contas, o próprio Moacir se encarregou de providenciar um poema para constituir a canção, sem nunca revelar quem o escreveu. Essa versão original nunca foi gravada, tendo sido apresentada ao público uma única vez.

1961-1962. Baden Powell passa para Vinícius de Moraes a melodia de “Gente Humilde”, conforme seu próprio entendimento do que era o tema instrumental de Garoto.

1969. Vinícius visita Chico Buarque, então exilado em Roma. O Poetinha foi conhecer sua afilhada – Silvia, filha de Chico e Marieta Severo que acabara de nascer – e acabou convidando o artista paulista para compor uma letra para o tema de Garoto. A bem da verdade, Vinícius já estava com o poema praticamente pronto, restando a Chico apenas incluir o verso “Pela varanda, flores tristes e baldias, como a alegria que não tem onde encostar”.

Ainda 1969. É lançada a primeira gravação de “Gente Humilde”, registrada como parceria póstuma de Chico e Vinícius com Garoto. A canção consta na trilha sonora da novela global Véu de noiva, e o registro traz a voz da cantora Márcia sobre o violão de Baden Powell:

1970. Aparecem as gravações clássicas de Ângela Maria e do próprio Chico Buarque (Chico Buarque de Hollanda nº 4). Ouça a versão do Chico:

1980. Geraldo Ribeiro grava a versão original instrumental de Garoto, em Garoto por Geraldo Ribeiro. Ouça e tente identificar as diferenças entre essa melodia e a gravada com letra:

Anos 1980 e 1990. Aparecem outros registros instrumentais, trazendo gente como Raphael Rabello, Radamés Gnatalli e Paulo Bellinati. Ouça a versão deste último, que traz belos improvisos:

Com tal riqueza harmônica e melódica – e, como vimos, histórica! -, “Gente Humilde” é certamente um dos clássicos do cancioneiro nacional, de forma que todos os seus registros são no mínimo excelentes. No entanto, em termos de performance vocal, ninguém conseguiu, até hoje, superar a versão de Ângela Maria.

Sapoti, quanta falta!

angela-maria
Ângela Maria: cantora dos rádios que trouxe alegria e emoção para muita gente humilde Brasil afora.

Entre diversos outros registros, vou destacar apenas dois.

O primeiro é o dueto de Ângela Maria com Chico Buarque, em Amigos (1996). Repare na modulação harmônica quando entra o vocal de Chico. Apesar de ser uma solução meramente técnica, para disfarçar a discrepância entre as extensões vocais dos intérpretes, o resultado ficou bonito e singelo:

E o segundo destaque é a versão cantada por Renato Russo, com o acompanhamento ao violão de Hélio Delmiro, lançada originalmente no Songbook Vinícius de Moraes (1993) e, mais tarde, no álbum póstumo de Renato Presente (2003):

3 comentários

  1. Todo mundo gravou,de roqueiro à sertanejo (tem uma versão de Chitãozinho & Xororó) – E Angela Maria,a intérprete-definitiva de ”Gente Humilde”,dizia que queria ser lembrada com essa música.

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