173. Art Popular: “Temporal”

Faz tempo que a gente não é
Aquele mesmo par
Faz tempo que o tempo não passa
É só você estar aqui
Até parece que adormeceu
O que era noite já amanheceu
Cadê aquele nosso amor
Naquela noite de verão
Agora a chuva é temporal
E todo céu vai desabar


Da onda do “pagode dos 90”, e entre os conjuntos de maior sucesso, foi o Art Popular aquele que mais ousou. É verdade que o tempo mostrou que a insistência do Raça Negra a sempre o mesmo estilo era mesmo coerência musical; que Alexandre Pires se mostraria um intérprete e músico capaz de voar (e sobreviver) para muito além do Só Pra Contrariar; e que o Molejo e o Katinguelê, afinal, se tornariam quase cult. Mas a trajetória do Art Popular já trazia boa parte disso tudo (proposta musical diversificada, mas coesa, experimentalismo destemido e preocupação com a banalização excessiva de suas canções) em pleno auge de seu sucesso.

Portanto, nada melhor que celebrarmos o conjunto paulistano tratando de uma de suas canções emblemáticas (ainda antes da inesperada – e bem-vinda – virada black), “Temporal”, lançada no álbum de mesmo nome em 1996.

Como em boa parte do repertório do samba romântico dos anos 1990, a canção é passional até a medula, ressaltando o estado disjuntivo. Ou melhor, a iminência da disjunção, tratada como um evento dramático da maior magnitude: “Agora a chuva é temporal / E todo céu vai desabar”. Aliás, já na abertura da obra, quando Leandro Lehart canta apenas sobre um fundo de cordas, está posta a gravidade do que será narrado a seguir.

A inevitável separação é um temporal, não se fazendo menções à possível bonança que se seguirá: o que importa é carpir a dor de um amor que, outrora frutífero e solar (“Cadê aquele nosso amor / Naquela noite de verão”), caminha para um fim literalmente tempestuoso.

Há características da construção poética que são interessantes, fazendo o Art Popular se destacar em meio ao romantismo de massas de seus contemporâneos. Primeiro é a elipse no trecho “Até parece que o amor não deu / Até parece que não soube amar”, gerando uma sugestiva ambiguidade: quem não soube amar? Eu não soube amar? Ou você não soube amar? Teria sido um ato falho do narrador? E o outro elemento de interesse é a presença, em destaque, da palavra “apogeu” – que, aliás, é coerentemente pronunciada num momento de elevação do registro vocal na tessitura.

Penso, sobre isso, duas coisas: será “Temporal” é uma canção autobiográfica, em que Leandro narra o fim de um romance justamente em decorrência de sua fama como artista, diante da qual a amada se queixa (“Você reclama do meu apogeu”)? E penso também que, no contexto do samba, a palavra apogeu me remete a outras canções – coincidentemente, todas de “Paulos”: “Passado De Glória”, de Paulinho da Viola (“A Mangueira de Cartola, velhos tempos do apogeu / O Estácio de Ismael, dizendo que o samba era seu”); “Falta De Mim”, de Paulo Vanzolini (“Vendo-te assim / Com os puros sinais da falta de mim / Em pleno apogeu / Morrendo de tédio e o remédio sou eu”); e “Maior É Deus”, de Paulo César Pinheiro (“Quem quiser me escutar, escutou / Não quero glória, fama ou apogeu”).

Canção muito bonita e ainda lembrada em muita roda de bom samba. Ouça sem preconceito.

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O Art Popular nos anos 1990: samba romântico diferenciado e com boas pitadas de saudável experimentalismo, sem perder o apelo radiofônico.

Existe uma versão bonita e bem acabada para “Temporal”, no Acústico MTV (2000) do Art Popular:

E entre muitas outras regravações, destaco a mais inusitada: Leandro Lehart, em Sambadelik II (2016), apresenta um registro que começa a capella, e depois ganha um sabor black emuldurado por batidas eletrônicas. Saem o violão e pandeiro, e sobram guitarras e teclados. Vale pela ousadia:

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