174. Bifidus Ativus: “Diadema Nightmare”

Em Diadema um dia eu fui passear
Eu só queria uma noite de luar
E foi então que tudo aconteceu
Eles chegaram por trás
Havia então quem se fudeu
E com educação, me espancaram então
Todo meu sangue se espalhava pelo chão
Mas eu sobrevivi
Mas eu estou aqui
Mas, olha meu rapaz,
Pra Diadema eu não volto mais


Como contei aqui, meu primeiro show de rock contou com apresentações de três bandas. Uma delas era a Bifidus Ativus que, na falta de um rótulo melhor, chamávamos de “banda punk”. A banda punk de São Carlos, por sinal.

Confesso que, dos três shows a que assisti naquela noite, em meus recém-completados 14 anos, o da Bifidus foi o que menos me empolgou. Minha cultura musical era bem escassa àquele tempo (não que seja tremendamente maior hoje) e, dentre as diversas covers tocadas pelo conjunto, só me recordo de “Here Comes Your Man”, do The Pixies. E sei também que, entre uma homenagem e outra, apareceram diversas canções de autoria própria.

Foi em 2002 que fui me interessar mais pelo conjunto com nome de lactobacilo, quando adquiri uma cópia de seu disco de estreia, o já clássico Como era bom (2000). Como disse no começo do post, é difícil classificar a banda como meramente punk, já que nesse álbum emergem, em várias faixas, climas instrumentais psicodélicos e relativamente bem-elaborados, ao menos num contexto punk/hardcore. Por exemplo, ao final da politicamente incorretíssima “Ela Gosta De Apanhar”, a coda instrumental explora um belo arranjo de guitarras dedilhadas com compassos ternários – e não me lembro de ter ouvido nada parecido em qualquer disco dos Sex Pistols ou dos Ramones, que, aliás, são homenageados em “Ramones II” (a mais ramônica das faixas, obviamente).

A faixa de abertura de Como era bom, e tema de hoje, é “Diadema Nightmare”. A letra traz o relato ficcional de um sobrevivente do notório Caso Favela Naval, denunciado pela Rede Globo em 1997. Um cinegrafista amador flagrara, então, um grupo de policiais militares extorquindo, agredindo e até atirando em moradores da comunidade, numa “blitz” durante a madrugada. Na letra da canção, um narrador amedrontado relata o que viveu naquele cenário de inaceitável abuso de autoridade: “E com educação, me espancaram então / Todo meu sangue se espalhava pelo chão / Mas eu sobrevivi / Mas eu estou aqui / Mas, olha meu rapaz, / Pra Diadema eu não volto mais”. O tema reapareceria em outras duas canções do álbum: “Ultraviolência”, que sempre animava as plateias nos shows do Bifidus, apesar de também não ser um punk convencional (trazia diversos compassos interrompidos por silêncios e uma coda instrumental ao violão); e “Homem Morto”, um ska com refrão hardcore e, pra variar, inusitadas passagens instrumentais.

Instrumentalmente, “Diadema Nightmare” traz uma harmonia simples (apenas quatro acordes, quase todos do campo harmônico de Dó Maior), conduzida por duas guitarras, sendo uma delas a do vocalista Daniel Barbosa Palo, quem compôs a canção. Chamam a atenção os backing vocals sussurrados durante os versos, o refrão hardcore (que mescla dois climas) e a ponte instrumental que denuncia a precariedade da gravação. E, bem ao final, um piano martelado acompanha as vocalizações de Palo.

Como disse, não é fácil classificar o som da banda, que ainda mora no meu coração depois de tantos anos. Sim, tem rock no interior, por que não?

A ironia é que hoje moro pertinho de Diadema, coisa que nunca imaginei que aconteceria quando ouvi, pela primeira vez, a canção deste post.

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Bifidus Ativus, banda que já animou muitas noites punks – ou nem tanto – em São Carlos.

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