175. Tião Carreiro e Carreirinho: “Coração Do Brasil”

Sao Paulo tem fama e todo mundo diz
Que é a maior potência do nosso país
O seu interior conhecer eu quis
Viagei em todo estado e fui muito feliz
Campinas , Barretos e Mogi das Cruz
Brotas e Atibaia , Santos e Queluz
Indústria paulista que tudo produz
É a estrela que brilha e o mundo seduz


Foi por volta de 2000 que meu amigo de ensino médio, Eduardo Maiello – um tipo interessantíssimo, pois era, à época, um cowboy comunista! Aliás, por onde anda? –, me apresentou duas canções da dupla Tião Carreiro e Carreirinho. Eu já ouvia Tião Carreiro e Pardinho, mas não sabia que o mestre de Montes Claros chegara a gravar com outro parceiro (que vinha, por sua vez, de outras duplas, e já falamos aqui de Zé Carreiro e Carreirinho tocando o clássico absoluto “Boi Soberano”).

As canções eram “A Viola E O Violeiro” e “Coração Do Brasil”, esta, tema de hoje. E fazia muito sentido que meu amigo materialista-dialético tivesse escolhido justamente essas: a primeira é um verdadeiro manifesto em que os violeiros assumem sua consciência de classe, o que é dito sem meias palavras (“Tem gente que não gosta da classe de violeiro / No braço desta viola defendo meus companheiro / Pra destruir nossa classe tem que me matar primeiro / Mesmo assim depois de morto ainda eu atrapaio / Morre um homem, fica a fama e minha fama dá trabalho”); e a segunda é uma ode ao estado de São Paulo, o que combina com o sentimento nacionalista de parte da esquerda.

Ainda, “Coração Do Brasil” foi composta totalmente por Adauto Ezequiel (ninguém menos que o próprio Carreirinho) e, no LP em que foi lançada (Meu carro é minha viola, 1962), é descrita como uma “moda campeira”. O ritmo me parece simplesmente uma estilização da guarânia paraguaia, com seus compassos ternários bem demarcados pela mão direita ao violão ou à viola.

A letra é uma típica “canção de lista”, em que são dispostos diversos nomes das cidades do interior de São Paulo. Dificílima de decorar! Ouço com alguma frequência, desde à época em que conheci a canção, e até hoje… nada.

E por que escuto tanto “Coração Do Brasil”? Porque seu passeio pelo interior me traz à memória muitas situações que vivi por essas cidades pequenas e simpáticas. Lembro também dos vários personagens que associo a cada nome ali listado: Campinas (Fedel, Nicéa, Edileuza, Latino, meus primos japoneses-do-lado-não-japonês-da-família e, mais recentemente, Nagao – um paulistano ali “injetado”), Barretos (onde meu amigo Maurício “Bob” administra um belo sítio de sua família, e onde já passamos alguns dias devorando deliciosos carneirinhos – perdoe-me, Deus, mas a carne dessas suas criaturas é deliciosa), Mogi Das Cruzes (Tatu), Brotas (Paulo Antonini), Atibaia (Julia e boa parte dos primos no lado da minha avó), Santos (Caiçara, Pietro Papa), Taubaté (Cazuza, Vanessa de Campos), Jaú (Léa, Deividi), Bauru (onde estuda a querida Aline, e onde vivem os amigos Alê Sassaki e Léo), Ribeirão Preto (Hirono), Pirassununga (onde fiz boas amizades entre 2005 e 2006, como Alice, Caíssa e Tânia), Jaboticabal (onde estudou Priscilla e para onde fui com meu pai muitas vezes), Sorocaba (Monise), Piraju (o próprio brother Piraju), Rio Preto (meu irmão Scooby, Enem, Samy e tô esquecendo muita gente), Marília (Melina), Araraquara (Kaneka, Luciana e muitos amigos que ali estudaram, como o Marcão e a Camila), Jundiaí (onde vivem tios e primos), Rio Claro (Brunão), Franca (Purê), Ourinhos (Silvia Helena), Bragança (Gildo), Botucatu (Sméagol e onde o desaparecido Luiz Mário fez Medicina), Limeira (Rafaela, Karen), Lins (Nho-Nho), Piracicaba (Koxonha), Bebedouro (Lívia), São José dos Campos (um pedaço bão da família, Iara, Mion, o Elvira). E me perdoem aqueles que esqueci, mas o peso da idade está chegando primeiro nas faculdades mentais, no meu caso.

Enfim, o “coração do Brasil” é também a terra onde bate meu próprio coração.

tiao-carreiro-e-carreirinho.jpg
Tião Carreiro e Carreirinho: cantando modas e pagodes para aquecer os corações do Brasil.

Me chama a atenção, na gravação de Tião Carreiro e Carreirinho, a forma como os cantores usam um caipira “perfeito”, isto é, com todas as marcas fonéticas típicas desse dialeto que cresci falando. Assim, não temos Jaboticabal e Pinhal, mas Jaboticabar e Pinhar, e “São José dos Campos e outras povoação”.

No entanto, há uma versão que, ainda que bonita e bem conduzida, não preserva totalmente essas marcas (a rotocização do L desaparece por completo), tocada por Carreiro e Carreirinho. Não consegui identificar o fonograma de origem, mas segue abaixo para ouvirmos:

4 comentários

  1. Eu também moro no interior de São Paulo.Aliás,Populina não é sobrenome,eu quis colocar o nome da minha cidade como distintivo no início e acabou aparecendo no meio.

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  2. “…Tudo depende da hora
    Água, gelo ou vapor
    Mas o sonho de mudar o mundo
    Às vezes muda o sonhador…”

    “…A higway to hell
    Faz a curva e vai pro céu
    Quando a resposta vem
    Do outro lado alguém
    Dizendo que está
    Tudo bem…”

    Ich bin hier, mein Freund! Alles wird gut!

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    1. Boa, Maiello! Que bom receber um sinal de vida.
      Depois você dá uma fuçada nos conteúdos (sugiro consultar a aba Sumário), pois talvez apareça alguma outra postagem com lembranças daquela época boa em que estudávamos juntos, corríamos no Campo do Rui, jogávamos truco com Pikachu, A. Lúcio, Lagosta, Bradock e outros… ê saudade!
      Muito boa a sua lembrança da canção que é, justamente, a mais caipira do H. Gessinger. Também escrevi bastante sobre ele aqui. Fico contente que essas canções continuem como uma ponte para caras como nós, cujos caminhos profissionais acabaram dificultando os encontros pra celebrar uma boa amizade.
      Grande abraço e grato por tudo.

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