177. Seu Jorge: “Carolina”

Carolina é uma menina bem difícil de esquecer
Andar bonito e um brilho no olhar
Tem um jeito adolescente que me faz enlouquecer
E um molejo que eu não vou te enganar
Maravilha feminina, meu docinho de pavê
Inteligente, ela é muito sensual
Te confesso que estou apaixonado por você
Ô Carolina isso é muito natural


Em 2017, um artigo publicado no Journal of Personality and Social Psychology (“We look like our names: the manifestation of name stereotypes in facial appearance”) relatou um experimento interessantíssimo. Voluntários tiveram que associar um dado nome, dentre alguns que eram listados, a fotos de rostos de estranhos. Ao acaso, as respostas certas, nesse tipo de experimento, ocorreriam na faixa entre 20 e 25%. De forma impressionante, os acertos variaram entre 25 e 40%. Quando eram apresentadas fotos de pessoas e nomes de outras culturas, os acertos retornavam aos patamares esperados, aleatórios.

As conclusões parecem indicar que nossa expressão facial reflete nosso nome; quer dizer, se me chamo Paulo, tenderei a ajustar minha aparência para o que se entende, culturamente, como um “Paulo padrão”. E isso não é tão difícil de entender. Pense nas situações em que você foi apresentada ou apresentado a alguém e, ao descobrir o nome da pessoa, imediatamente disse (ou pensou): “Nossa, você tem cara mesmo de Amanda!” Ou “você tem muita cara de Márcia”. (Já aconteceu comigo, mas o mais comum mesmo é errarem – ou arredondarem? – meu nome como Daniel, ou até Danilo, embora já tenham me chamado de Bruno, Sérgio e Mário. Tudo a ver).

Pois penso nesse curioso experimento científico toda vez que escuto “Carolina”, canção que abre o primeiro disco solo de Seu Jorge, Samba esporte fino (2001). A obra não tem muitos segredos, sendo um samba-rock espertíssimo que exalta a figura da personagem-título. Do lado do narrador, temos o império do /querer/, pois há um desejo imenso de conjunção amorosa, que talvez não se realize por conta da idealização da pessoa amada – cuja descrição, modalizada pelo /ser/, é uma lista de predicados que tornam nossa Carol uma espécie de ser sobre-humano.

Seria interessante investigar o quanto a Carolina de Seu Jorge (ao que se sabe, uma ex-namorada sua, na vida real) se parece com outras personagens de mesmo nome, cantadas por outros artistas. Além, é claro, da clássica “Carolina” de Chico Buarque – lembrada como uma das “Meninas Do Brasil” por Moraes Moreira -, não podemos nos esquecer da “Carolina, Carol Bela” de Toquinho e Jorge Ben Jor (este, por sinal, uma das grandes influências do som de Samba esporte fino, que traz sua composição “Em Nagoya Eu Vi Eriko”). Tem também a “Caroline” do Raça Negra, que não deixa de ser Carol. Na canção popular estrangeira, temos “Caroline No” dos Beach Boys e, no primeiro álbum dos Rolling Stones, minha faixa favorita: “Carol”.

Sim, se Carolina, em sua raiz germânica, significa “mulher do povo”, então ela teria que estar em todo lugar!

Eu mesmo tive meus encontros (e desencontros) com as Carolinas. De fato, estudei apenas com uma, na 6ª e na 7ª série, uma garota muitíssimo bacana (por onde anda?). Mas já nos tempos da universidade, teve Carolina na época do mestrado, na época do doutorado, em várias turmas para as quais lecionei no ensino médio e, agora, no magistério superior, sempre pinta alguma Carol. Se a pesquisa sobre o estereótipo dos nomes estiver certa, podemos elencar alguns traços comuns: pessoas muito persistentes, criativas e focadas; ótimas alunas, daquelas que preferem se sentar mais proximamente ao quadro negro, para escutar melhor as falas do professor; sempre carregam uma meiguice ou doçura no olhar (e “mulher doce” é também uma das possíveis traduções para Carolina, e até Seu Jorge parece saber: “Maravilha feminina, meu docinho de pavê”); e sim, sempre bonitas (mas tendo a pensar que bonitos, todos somos).

Mulheres admiráveis, em resumo. Como a “Carolina” cantada pelo Seu Jorge.

seu-jorge.jpg
Seu Jorge: balanço ideal para se mexer com os passos do samba-rock.

“Carolina” tem várias versões oficiais ao vivo na discografia de Seu Jorge.

A primeira delas está no DVD MTV apresenta Seu Jorge (2004), que é praticamente idêntica à original. No América Brasil ao vivo (2009), a canção se estende por quase 10 minutos, pois sua execução é aproveitada para a apresentação da banda de apoio e para um discurso cheio de positividade, por parte do cantor. Fique com o registro (e as belas cenas do DVD) de Músicas para churrasco ao vivo (2012), talvez a definitiva:

Não poderíamos deixar de trazer a versão gravada em Ana & Jorge (2005), que traz Seu Jorge inicialmente sozinho ao violão, com a entrada triunfal de Ana Carolina conduzindo o samba-rock ao pandeiro:

4 comentários

  1. Eu sempre gostei de músicas com nome de gente,principalmente quando enumera o nome de várias pessoas.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s