179. Ruy Faria: “Amigo É Pra Essas Coisas”

– Salve!
– Como é que vai?
– Amigo, há quanto tempo!
– Um ano ou mais…
– Posso sentar um pouco?
– Faça o favor
– A vida é um dilema
– Nem sempre vale a pena…
– Pô…


Estou há algumas semanas sem consumir álcool – e pelo menos há dois meses consumindo de forma moderadíssima. Confesso não estar sentindo tanta falta da bebida e, de certo modo, sou mesmo é grato pela obrigação em estar abstêmio.

O que me atinge, mesmo, é o fato de que, queiramos ou não, o álcool é um excelente aglutinador de gente. Não que seja o único recurso existente capaz de realizar isso, mas certamente é um dos intrumentos mais poderosos para catalizar uma boa amizade, ainda que passageira. Ao redor de um copo, sentados à mesa de um bar, temos diversas portas abertas bem diante de nós, histórias a escutar, risadas a gargalhar ou pitangas a chorar.

Pois a canção de hoje, “Amigo É Pra Essas Coisas”, nos conduz a esse universo que combina a boemia com o afeto – do qual ando, infelizmente, distante. Foi, na verdade, a primeira canção do MPB-4 pela qual me enamorei, por volta dos 12 anos. Composta pelo excelente Aldir Blanc em parceria com Sílvio Silva Júnior, foi registrada pela primeira vez no álbum Deixa estar (1970), do conjunto vocal niteroiense.

A canção é aberta com fraseados de cordas que, de cara, dão o tom dramático e melancólico para o que virá. O arranjo, primoroso, é assinado por Roberto Menescal e pelos dois maestros do MPB-4, Magro e Miltinho.

A letra, que traz um diálogo entre dois amigos sentados à mesa de um bar, é cantada por todas as quatro vozes do conjunto: além de Magro e Miltinho, Ruy e Aquiles. A conversa se desenvolve pela oposição entre o personagem que remói suas mágoas e o amigo que, em melhor situação, acolhe o companheiro. Acho particularmente comovente o seguinte momento (e as cores demarcam as falas de cada personagem): “– Adeus / – Toma mais um / – Já amolei bastante / – De jeito algum! / – Muito obrigado, amigo / – Não tem de quê / – Por você ter me ouvido / – Amigo é pra essas coisas“.

A versão original é definitiva e um clássico absoluto. O que poucos sabem é que Ruy, em carreira solo, regravou “Amigo É Pra Essas Coisas” com ninguém menos que Chico Buarque, num álbum justamente intitulado Amigo é pra essas coisas (1994). O arranjo, inexplicavelmente, traz timbres esquisitíssimos. De toda forma, escutar o diálogo clássico entre os dois amigos e, dessa vez, traçado entre Ruy e Chico, vale mais do que a pena. E o dueto também adquire um ar de realismo enorme, considerando que as trajetórias dos dois cantores remontam a 30 anos antes da gravação, que representou de fato um reencontro entre dois velhos amigos.

rui-faria-chico-buarque
Ruy Faria e Chico Buarque: celebrando juntos uma amizade de décadas.

Além do registro clássico e dessa versão com Chico, Ruy nos legou, antes de sua partida em 2018, uma ótima gravação, também em dueto, com o músico paulista Carlinhos Vergueiro. Ela está presente em Só pra chatear (2005), álbum de Carlinhos, e descamba direto para o samba – ao contrário da contida versão original:

Ruy também participou da gravação ao vivo do show Amigo é pra essas coisas (1989), um belo registro do MPB-4. Aqui também tem samba e o mais emocionante é a participação da plateia:

Existem outros registros do MPB-4, nas celebrações de 40 anos do conjunto: no álbum ao vivo de 2007 e no DVD com Toquinho, do ano seguinte. Ali, Ruy já foi substituído por Dalmo e, com todo respeito ao cantor, a canção já não parece a mesma.

Por fim, há o curioso registro de Emílio Santiago em dueto com João Nogueira, em O canto crescente de Emílio Santiago (1979). Belíssima versão:


Quase dez anos após o registro de “Amigo É Pra Essas Coisas”, o MPB-4 gravaria uma espécie de continuação do encontro dos amigos – dessa vez, um verdadeiro desencontro. Estou falando de “Amigo Da Onça”, presente no corajoso álbum Bons tempos, hein?! (1979), composição também de Aldir Blanc com Sílvio Silva Júnior. Aqui, o tom é mais leve, quase de galhofa, e os amigos se dão ao luxo de dispararem provocações mútuas, esquecidas as mágoas do encontro anterior:

6 comentários

  1. Verdade,a bebida de álcool serve para o congraçamento entre amigos,mas devo confessar,depois que vira vício (meu caso) é a pior tragédia que um ser humano pode passar aqui na terra.Parece que eu me libertei.

    Curtir

  2. Salve! Me lembrei de 2006 quando escutava essa música com um amigo querido. Ah juventude, por que correste de mim assim tão depressa?

    Curtir

    1. Ah, meu amigo, essa tal correu de mim também! Mas que alegria enorme tê-lo aqui conosco… E que bom que a canção desperta boas recordações em você também, lembrando dos bons camaradas de jornada que nos trazem tanto alento.

      Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s