180. Nenhum de Nós: “Eu Caminhava”

Eu caminhava
Minhas pernas se encontravam e se despediam
Vencendo cruzamentos, ganhando esquinas
Chegando a lugares que de longe
Eu enxergava


O Nenhum de Nós havia conseguido ultrapassar as barreiras culturais e estéticas que dificultavam que os estados mais ao norte conhecessem a canção popular gaúcha. Seu álbum de estreia, Nenhum de Nós (1987), emplacara o hit “Camila, Camila”, e a banda se via, em 1989, gravando seu segundo álbum, provisoriamente intitulado Não.

A ideia seria visitar mais climas folk, investindo nos violões e explorando harmonias maiores. Afinal, Nenhum de Nós pode, tranquilamente, ser enquadrado como um álbum dark: entre pulsos à New Order e vocais graves numa linha próxima do rock gótico inglês (com expoentes como Ian Curtis do Joy Division e Andrew Eldritch do Sisters of Mercy), as canções tratavam de temas pesados, trazendo ambiências lúgubres ou, por vezes, profundamente desesperadas (ouça, nesse sentido, a bela “Homens-Caixa”, que até pensei em abordar aqui no blog). O projeto de Não refletia a necessidade de ir além desse universo soturno.

No fim das contas, o álbum foi gravado de acordo com esse ideário, mas eis que um sucesso inesperado acabou por desviar a atenção do público de tais questões conceituais. Agora nomeado Cardume, o lançamento viu o estouro de uma canção que sequer deveria ter sido incluída, surgindo a partir de uma descompromissada jam num intervalo de gravações: “O Astronauta De Mármore”, versão em português para o clássico “Starman” de David Bowie.

Mas Cardume trazia um punhado de boas peças, que mereciam até maior destaque que a cover de Bowie. Duas delas expõem as marcas indeléveis do sucesso anterior com “Camila, Camila”.

“Fuga” era praticamente uma continuação da gravíssima situação de violência contra a mulher, narrada na canção de 1987, mostrando que a desesperada personagem Camila, afinal, precisou fugir para se refugiar das agressões do companheiro (“Nunca mais vai estar em casa / E nada será igual / Olhava as pessoas em volta / E ninguém podia ajudar / Tinha o fogo em suas mãos / E dentro de si o medo”). O arranjo trazia a gaita de Renato Borghetti e, ao finalzinho, o vocalista Thedy Correa sussurrava versos de “Camila, Camila”: “A lembrança do silêncio daquelas tardes / A vergonha do espelho naquelas marcas / Havia algo de insano naqueles olhos”.

Já “Eu Caminhava”, canção escolhida como tema de hoje, abria Cardume com uma levada idêntica àquela do hit de Nenhum de Nós. Estava ali a bateria à Stephen Morris, as guitarras luminosas intercalando acordes maiores e menores, além de uma passagem silenciosa. A própria banda confessou que “Eu Caminhava” servia para cumprir uma expectativa dos executivos da gravadora BMG, que ansiavam por uma nova “Camila, Camila” em Cardume.

A vantagem é que “Eu Caminhava”, para além de seu clima mais solar, trata também de uma situação mais universal: uma caminhada adolescente, em que o sujeito enunciador se depara com valores disfóricos (representados pelo “estranho encostado na parede”, um ex-presidiário) e com a necessidade de satisfazer os anseios alheios (“Eu caminhava / E fingia que conhecia as pessoas / E fingia que gostava de alguem / E fingia que o tempo passava”). Assim, a canção retrata uma interessante dialética entre a liberdade de caminhar e a negação dessa livre ocupação do território. O valor positivo da andança descompromissada é, continuamente, assombrado pela iminência do fim desse espaço-tempo sem amarras. Ora, todo jovem já se viu nessa situação.

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Nenhum de Nós: o (folk) rock do sul para cantar angústias (dos) jovens.

“Eu Caminhava” foi composta por Thedy e os companheiros Carlos Stein (guitarras) e Sady Homrich (bateria), o trio original do Nenhum de Nós. Em meados dos anos 1990, a banda já estava reforçada com as guitarras e violões de Veco Marques, mais os teclados e gaitas de João Vicenti, assumindo de vez sua verve folkeadora. A partir de então, a banda faria apresentações periódicas, no Theatro São Pedro, brindando o público porto-alegrense com sets inteiramente acústicos – e isso antes da moda dos Acústicos MTV.

Na discografia do Nenhum de Nós, alguns títulos ao vivo emanam diretamente desses espetáculos, sendo o primeiro o Acústico ao vivo (1994), que trouxe uma bela versão para “Eu Caminhava”:

Nos anos seguintes, “Eu Caminhava” chegou a ser preterida por outros sucessos, no repertório ao vivo da banda. Tanto que, no show a que assisti em São Carlos em 2008, nem esperei escutar essa que é uma das minhas canções favoritas dos gáuchos. Mas em 2013, num show em Araraquara, fui surpreendido com uma versão elétrica e animadíssima: foi quando percebi que a noite estava ganha.

Para minha sorte, a gravação do show As + pedidas (2017) trouxe exatamente essa releitura para conhecimento do público. Definitiva:

As curiosidades ficam por conta das diversas variações sobre a gravação original, liberadas mais tarde como bônus na versão digital de Cardume.

A primeira delas é o “Hard Mix”, que traz um pouco do clima elétrico e guitarreiro da versão que vi ao vivo:

Depois, temos o “Cathedral Mix”, que traz uma pesada camada de teclados no lugar das guitarras e violões:

Por fim, há o “Gardel Mix”, que é a versão em castelhano para a canção, com a participação (discreta) do argentino Fito Páez na voz e no piano:

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