181. Marisa Gata Mansa: “Viagem”

Oh, tristeza, me desculpe
Estou de malas prontas
Hoje a poesia
Veio ao meu encontro
Já raiou o dia
Vamos viajar


Paulo César Pinheiro já apareceu muitas vezes aqui no blog. Acredito que, até o fim do projeto, ainda trarei muitas outras obras suas, afinal, o compositor carioca é autor de incontáveis peças, dispersas pelo repertório de uma miríade de artistas.

Mas tudo começou com “Viagem”, sua primeira canção. Numa entrevista-show ao lado da cantora Fabiana Cozza, Paulinho detalha o nascimento da obra inaugural de seu extenso cancioneiro:

Eu tinha 13 anos de idade e começou a me dar uma agonia, numa determinada noite. Eu não sabia o que que era aquilo, o que que tava acontecendo. E, não sei porque, intuitivamente, corri prum papel e um lápis, e comecei a rabiscar um verso, já cantando uma melodia nele. E quando eu terminei aquilo, sosseguei. Sosseguei e fui dormir. […] E a partir dali, eu comecei a escrever desesperadamente, todos os dias. Foi só um tempo de exercício, prática… adquiri disciplina, concentração, nesse tempo. Passei um tempo, mais ou menos, enchendo cadernos. Tudo bobagem! […]

No ano seguinte, eu compus uma canção, que foi a chave de abertura pra todo o resto. Nessa canção, eu me defini e ela definiu a minha vida. Porque, nos primeiros dela, já dizia: “Oh, tristeza, me desculpe / Estou de malas prontas / Hoje a poesia veio ao meu encontro / Já raiou o dia, vamos viajar”.  Nessa viagem, eu tô até hoje. […]

A poesia me tomou, completamente, a música também, a partir daquele momento, e eu pude dizer pra mim mesmo: eu sou um compositor. Foi com essa música, de parceria com João de Aquino, que foi meu primeiro parceiro. Morávamos juntos, éramos vizinhos, então a música era uma coisa recorrente na nossa vida naquele instante. Eu, muito criança, 14 anos, e ele já com 19. E essa música abriu meus caminhos e é hoje uma das músicas mais conhecidas e gravadas, tanto no Brasil, quanto no exterior. […]

Ela nasceu como uma valsa já.

Mesmo sabendo que as palavras são vãs depois de tão belo depoimento, arrisco-me a alguns comentários sobre “Viagem”. Como Paulinho disse, a canção foi bastante gravada, e vou tomar como modelo a versão de Marisa Gata Mansa, talvez seu registro mais famoso.

Ali, um arpejo no piano elétrico dá o tom etéreo sobre o qual Marisa cantará os versos declamados pelo compositor: “Oh, tristeza, me desculpe”. O vocativo evidencia que o sujeito enunciador tem como interlocutora, inicialmente, a tristeza, educada e pacientemente deixada a par de nova situação: uma viagem. Mas trata-se de uma jornada em termos metafóricos, quer dizer, sem movimento. E quem o convida a viajar é a poesia que, a partir de então, toma o lugar da tristeza: tanto que “minha poesia” passa a ser o novo vocativo nos versos que se seguirão.

E, da poesia, erige-se a matéria-prima para a música: “Senta nessa nuvem clara, / Minha poesia, / Anda, se prepara / Traz uma cantiga / Vamos espalhando / Música no ar”. Na viagem sob as células rítmicas da valsa – por si só, um ritmo celebrativo –, o enunciador se depara com outras paisagens, sinalizando uma nova atitude diante do mundo, agora observado a partir de uma ética lírica, em conjunção irreversível com os valores positivos implicados no ofício de poeta-cancionista.

Paulo César Pinheiro é um cantor de dotes limitados. Por sorte, a também carioca Marisa Gata Mansa conseguiu eternizar uma interpretação não menos que perfeita para essa bela valsa, no LP intitulado também Viagem (1973). O arranjo, que traz um violão conduzindo o pulso dos compassos ternários, dosa na medida certa os teclados, com os timbres de um órgão e do mencionado piano elétrico – criando uma atmosfera sublime e levemente psicodélica, ideal para o tema da viagem. Mérito do maestro Lindolfo Gaya.

Sem se dar conta, Marisa deixou registrada uma versão digna para a monumentalidade da obra de Paulinho, que cresceria exponencialmente (e penso que não apenas em termos quantitativos) dos anos 1970 para cá.

marisa-gata-mansa.jpg
Marisa Gata Mansa: dignidade à altura para a composição inaugural de Paulo César Pinheiro.

Das incontáveis gravações de “Viagem”, me enamorei pela versão de Soraya Ravenle, lançada no álbum Arco do tempo (2011), dedicado às composições de Paulo César Pinheiro. A ausência dos teclados, marcantes na gravação de Marisa Gata Mansa, é compensada por uma profusão de violões. E o timbre de Soraya é simplesmente perfeito… confira:

2 comentários

  1. Um dos melhores textos – Me lembro de ter a letra dessa música num livro didático da 6ª série.

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    1. Que incrível! Os livros didáticos realmente são boas ferramentas para popularizar poemas-canções. Um clássico absoluto dos manuais escolares é “Planeta Água”. Todo livro de ciências traz a letra do Guilherme Arantes. Num show dele em São Carlos, ele apontou para uma menininha na plateia, antes de tocar essa canção, e disse: “Essa próxima eu acho que você conhece da escola!”

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