182. Ratos de Porão: “Beber Até Morrer”

Porque será que o homem quando foge de si mesmo
Se afoga na bebida e se droga sem parar?
Será que a vida imposta é perder um vale tudo?
Viver sempre chapado é melhor do que lutar?


Na virada para os anos 2000, vivi uma rotina da qual tenho saudade. Após as aulas na parte da manhã, retornava à escola para algum treino (sempre fui da equipe do tênis-de-mesa… e nunca ganhei nada, nem uma única medalhinha) ou atividade extracurricular, que normalmente durava até umas 16h30. Quando era dia de aula de karate, que começava às 18h, ia a pé da escola até o centro da cidade, onde ficava o dojo. Até que o treinamento começasse, eu passava o tempo numa loja de CDs que ficava perto da academia. Já não lembro nem o nome da loja, nem o nome do garoto (será Lucas?) com quem conversava todas aquelas tardes. Ele, que trabalhava lá, discutia o rock n’ roll comigo e me deixava escutar os CDs que podiam ser alugados. Veja só, que loucura!

Pude passar, assim, um bom tempo escutando sons a que não tinha acesso em casa. E, com o tempo, passei a frequentar essa loja mais para escolher títulos para alugar do que para bater papo. (Além disso, eles tinham um catálogo variadíssimo de obras, que bastava encomendar, e que chegavam a precinhos camaradas dentro de dez dias. Muitas das raridades de minha discoteca foram adquiridas dessa forma).

Foi assim, ouvindo CDs descompromissadamente, que aconteceu de me interessar pelos Ratos de Porão, banda que estava representada por alguns títulos na loja. À época, conhecia a figura de João Gordo apenas pelas reportagens da revista Showbizz (enquanto alguns amigos playboys já tinham TV a cabo em casa, e podiam conferir seu programa na MTV). Acabei escolhendo para ouvir o álbum Brasil (1989). Gostei tanto que aluguei para ouvir um pouco mais.

De cara, a faixa que mais gostei foi “Beber Até Morrer”. O que é pra lá de irônico já que, àquela época, não passava pela minha cabeça vir a consumir álcool algum dia. Mentia para mim mesmo que nunca havia bebido nada (sim, já tinha experimentado vinho, cerveja e algumas batidas de frutas) e pensava que conseguiria cumprir essa encarnação sem virar (mais) copos. Tolinho.

“Beber Até Morrer” é um som relativamente “pop”, entre as canções tocadas pelos Ratos. Composta por João Gordo e demais membros da banda (o guitarrista Jão e o então baixista Jabá), traz uma harmonia baseada em poucos acordes, pulso acelerado, pero no mucho, e vocais até compreensíveis.

E qual o gênero da canção? Punk? Heavy? Bom, João Gordo e companhia sempre conseguiram agradar às duas vertentes opostas do som pesado e, embora tenham começado como punks da periferia interessados num hardcore aceleradão, aos poucos foram se apropriando de alguns clichês do metal. Penso que “Beber Até Morrer” pode ser enquadrada como um legítimo thrash metal brazuca. Os timbres me lembram muito o som do primeiro álbum do Metallica, Kill’ em all (1983), que deve ser o único título absoluta e verdadeiramente thrash da banda estadunidense (pense que, já em seu segundo disco de estúdio, Ride the lightning, havia um conjunto de faixas mais lentas, como a clássica “For Whom The Bell Tolls”, a instrumental “The Call Of Ktulu” e a balada “Fade To Black”, que devem ter feito muito headbanger torcer o nariz e trocar o Metallica por sons menos “farofados”).

A letra de “Beber Até Morrer” está resumida no título da canção. João Gordo descreve de forma simples e direta a rotina de quem enche a cara como forma de escapismo; veja o refrão: “Beber até morrer, essa é a solução / O tédio lhe domina, a vida não dá tesão / Mas outro porre desse você nunca vai esquecer / Que o fígado é só seu e de mais ninguém”. Sim, as rimas são pobres, bem pobres. Mas quem está ligando?

E o mais surpreendente é que, para além da ironia do texto (e não é preciso ser muito esperto para sacar que “Beber Até Morrer” não faz uma apologia ao abuso do álcool), há uma mensagem positiva na última estrofe: “Sua noite terminou de cara numa privada / Os problemas voltarão junto com uma puta ressaca / Por que você não bebe apenas pra se divertir? / Lute com a cara limpa, você não vai desistir”.

Ratos de Porão e autoajuda: quem diria? (E por que não?)

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João Gordo e os Ratos de Porão: pauladas punk para nenhum metaleiro botar defeito.

Em RDP ao vivo (1992), os Ratos apresentam uma versão fidelíssima para “Beber Até Morrer”:

Uma versão mais tosca e pesada aparece no Ao vivo no CBGB (2003), gravado na lendária casa que revelou os Ramones em Nova Iorque. Avance o vídeo abaixo até o instante 39’47”:

E, entre diversas bandas de som pesado que gravaram “Beber Até Morrer”, destaco a versão mais inventiva de todas, gravada pelo Gangrena Gasosa (que já apareceu no blog, conforme você confere aqui). Trata-se de uma adaptação que a banda fez, alterando a letra, e transformando o clássico dos Ratos em “Benzer Até Morrer”! Presente em Smells like a tenda spírita (1999), segundo álbum do Gangrena, a faixa foi apresentada primeiramente no tributo Traidô – 20 bandas tocando Ratos de Porão (1998). A nova letra é simplesmente inacreditável: “Riscados na parede, galinhas pretas pelo chão / Bodes na sua cama e sapos no porão / Mais um problema besta e promete a São Cosme e Damião / Que vai dar doce até a morte pra agradecer a solução”. E viva o saravá-metal! Confira:

4 comentários

  1. A música sertaneja faz mais apologia ao álcool que o rock-pesado – Sim,aquela turma que apoiaram o nosso(?) presidente.

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