183. Tetê Espíndola: “Cunhataiporã”

Onde você quer ir meu bem
Diga logo pra eu ir também
Você quer pegar aquele trem
É naquele trem que eu vou também


A delícia de ser universitário pode ser descoberta na análise etimológica do próprio termo “universidade”: lá está a raiz latina universitas, trazendo a ideia de universalidade, totalidade, corpo, comunidade, associação.

Pois foi em minha época de universitário em que pude perceber, nitidamente, meus horizontes culturais se alargando, se universalizando. Eu, que havia saído do estado de São Paulo uma única vez (e bem pequenino), tive a oportunidade de conhecer outros estados e regiões tão logo ingressei na pós-graduação. Aliás, por conta de minha participação no movimento estudantil, já havia pisado na região Centro-Oeste, mais precisamente em Brasília, ainda durante a graduação. Com a pós, retornei àquela região no início do doutorado, novamente em Brasília, e um ano depois de obter o título, no Mato Grosso do Sul – estado que passaria a visitar com certa frequência.

A bem da verdade, quando estive em Dourados pela primeira vez, cidade onde foi morar Cristiane, não senti qualquer tipo de choque cultural. Achei as paisagens e os sotaques relativamente parecidos com os do interior de São Paulo, onde fui criado. E os hábitos típicos dos sul-mato-grossenses, como sentar-se em grupos nas calçadas, em fins de tarde, para apreciar um bom tereré, já não me eram estranhos.

Isso porque a dinâmica social da vida universitária presenteou minha turma com diversos amigos daquele estado, por volta de 2008. Stênio, Fabinho e Dionísio, entre outros, se tornaram nossos colegas de pós-graduação deixando suas terras natais, momentânea e corajosamente, para suarem a camisa conosco.

Stênio, o popular Tung (os químicos adoram um trocadilho), foi rapidamente incorporado às rodinhas de violão dos incontáveis churrascos que fizemos naqueles anos, prática frequente até 2012 mais ou menos. Com ele, construí uma amizade musical muito proveitosa para meu conhecimento de canção popular. E foi num encontro musical em 2009 (ou talvez 2010) que nosso amigo – com seus traços indígenas e temperamento sereno – me ensinou a tocar a canção de hoje, “Cunhataiporã” (às vezes escrita como “Cunhataí Porã”).

A obra ficou relativamente famosa na voz de Tetê Espíndola e foi composta por seu irmão Geraldo. Naturais de Campo Grande, os irmãos deram vida a uma canção sublime, apesar de simples. A harmonia, em tom menor, impõe uma enorme gravidade à enunciação do sujeito, que se convida para uma jornada pelas paisagens à beira do Rio Paraguai, junto da cunhataiporã (“índia adolescente bonita”).

tete-espindola
Tetê Espíndola: um timbre único para cantar as belezas sul-mato-grossenses.

O Cultura Caipira nos acrescenta duas informações. A primeira é um relato do próprio Geraldo Espíndola sobre a criação da canção:

Cunhataiporã é uma canção composta em 1976, fiz ela para minha esposa viajando de trem de Corumbá para Ponta Porã, uma viajem que sempre fazíamos. Essa música é um relicário que a gente ama e preserva, além de tudo fala da terra a que pertenço. Eu amo a minha terra, por isso faço este tipo de canção.

A segunda é relativa ao verso “Cunhataiporã chero rai ro“, que pode assustar os mais distraídos. Afinal, o que significa essa expressão? Ao que parece, Geraldo está fazendo uma declaração de amor à cunhataiporã, pois che rohayhu significa, em tupinambá e em guarani, algo como “te amo” ou “te quero”.

E fico pensando, aqui, se a cunhataiporã da canção não é a própria terra do Mato Grosso do Sul. O tom solene com que Tetê canta os versos do irmão nos autoriza a interpretar dessa forma esse belo-poema canção, que tomamos como tema de hoje.


Existem boas versões alternativas para a canção. A que abre o post veio do álbum Piraretã (1980), mas Tetê a regravou logo em seguida, em Pássaros na garganta (1982). Se na primeira versão tínhamos o irmão Sérgio Espíndola tocando violão, no registro seguinte as cordas ficam com a própria Tetê (craviola) e com um então jovem músico de Campo Grande, Almir Sáter (na viola). A propósito, já falamos de Almir aqui (e hei de assistir a mais um show dele em breve!). Ouça:

O próprio autor, Geraldo Espíndola, também cantou “Cunhataiporã”. Ouça a versão do álbum 30 anos nesse mato (2004): 

Geraldo também participa da gravação da banda Dagata e os Aluízios, presente no álbum propriamente intitulado Tereréfonia (2014):

Uma versão muito bonita é a da banda Vaticano 69, também de terras sul-mato-grossenses, presente no álbum De prima (acredito que gravado em 2003). Aqui também, a canção é trazida para um universo mais roqueiro – e penso que foi essa a versão que meu amigo Stênio me ensinou:

Existe também o registro de Gilberto Correia, em Do amor e da liberdade (2015). O arranjo é fortamente baseado em instrumentos acústicos, a não ser na introdução e no final da faixa, em que uma ousada guitarra tece fraseados estranhos às demais gravações: 

E, por fim, nada como a versão de Zeca Baleiro, a mais inventiva de todas, abraçando climas que ficam no meio do caminho entre o sombrio e o psicodélico. A belíssima gravação aparece em Trilhas (2017), e mostra que a canção popular não conhece fronteiras: “Cunhataiporã”, clássico da divisa com o Paraguai, aparece incorporada organicamente ao repertório de um maranhense. Aprecie:

5 comentários

    1. Você se daria bem com essa turma mencionada no post. Pena que, quando nos conhecemos, esses encontros musicais já não aconteciam… o últmo foi no comecinho de 2013.
      Grato pela visita, Julieta!

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