184. Jackson do Pandeiro: “Um A Um”

Esse jogo não é um a um
(Se o meu time perder tem zum-zum-zum)
Esse jogo não pode ser um a um
O meu clube tem time de primeira
Sua linha atacante é artilheira
A linha média é tal qual uma barreira
O center-forward corre bem na dianteira
A defesa é segura e tem rojão
E o goleiro é igual um paredão


Ontem teve Brasil e Argentina numa das semifinais da Copa América.

A seleção do Tite andava meio desacreditada, ainda mais depois de ter se classificado, apenas na disputa de pênaltis, num minguado zero a zero com o time do Paraguai. A bem da verdade, de todos os jogos das quartas de final, apenas a Argentina marcou gols (dois), contra a Venezuela – o que foi o suficiente para abalar o favoritismo da camisa canarinho.

O time também não parecia muito acertado. Se a defesa tinha uma consistente linha de quatro à frente de Alisson, com Daniel Alves, Thiago Silva, Marquinhos e Alex Sandro (substituindo o lesionado Filipe Luís), daí pra frente o conjunto todo é objeto de polêmicas. Casemiro é um baita volante e Arthur está ali por puro merecimento, mas está bem escalado, ali do lado? E quem é o meia de ligação, peça chave que Tostão, em toda santa coluna na Folha de S. Paulo, vive a considerar como em extinção no futebol brasileiro – apesar de cada vez mais necessária no ludopédio moderno? Coutinho é muito mais atacante do que meia, mas o ataque já está pra lá de congestionado com dois (!) centroavantes: Firmino e Gabriel Jesus. E caindo mais pelos lados, ainda temos Everton.

Apesar de muito fã do Tite, simplesmente não entendi esse ataque pois, na minha cabeça, se o futebol moderno exige jogadores cada vez mais versáteis (como o tal meia de ligação, que marca de uma intermediária a outra e aparece como elemento surpresa nos ataques – Paulinho, que virou ídolo no meu Corinthians e infelizmente nunca conseguiu repetir tais feitos na Seleção, é o exemplo que me vem à cabeça logo de cara), a figura do centroavante precisa é ser repensada, não duplicada.

Bom, o jogo de ontem, espero, serviu para calar minha boca, e retomar o otimismo para com Tite e seus comandados. Era jogo pra um a um no placar, segundo minha prudência de palpiteiro, mas conseguimos uma vitória com “V” maiúsculo sobre os hermanos – que também não jogaram mal e, ainda por cima, contam com o maior futebolista do século XXI, Messi. Dois a zero.

E, se fosse um a um, eu estaria decepcionado por acertar o placar, embora cantarolando a canção de Edgard Ferreira, famosa na voz de Jackson do Pandeiro. Gravada pelo paraibano, pela primeira vez, em 1954 (acredito que como um compacto simples), mais tarde veio a integrar o álbum clássico Sua majestade – o Rei do Ritmo (1960). Embora as pessoas considerem o ritmo como um forró, sabemos da imprecisão dessa nomenclatura, e penso que as células rítmicas de “Um A Um” estão mais próximas do xaxado.

A letra é espertíssima, e assevera na última estrofe: “O meu clube jogando, eu aposto / Quer jogar, um empate é pra você / Eu dou usura a quem aparecer / Um empate pra mim já é derrota / Eu confio nos craques da pelota / E o meu clube só joga pra vencer”.

Já estava com saudade de ver o Brasil jogar assim.

jackson-do-pandeiro.jpg
Jackson do Pandeiro: rei de todos os ritmos do país do futebol.

“Um A Um”, por muito tempo, integrou o repertório dos Paralamas do Sucesso. A canção foi registrada, primeiramente, no animado lado-A do LP Bora Bora (1988). O arranjo, mesclando o reggae com uma batida percussiva brasileiríssima (com um toque afro de João Barone que lembra uma catira, na parte “É encarnado e branco e preto / É encarnado e branco”), antecipou a sonoridade que se escutaria muito nos primeiros álbuns do Skank – não por acaso, uma das bandas noventistas que mais se inspirou nos ritmos brasileiros para construir sua proposta de “samba poconé”. Ouça:

Em 1995, no ao vivo Vamo batê lata, a canção apareceu com um novo arranjo, trazendo na introdução a melodia de outra composição paralâmica, “Se Você Me Quer” (logo, a mais “pandeirada” de seu repertório, presente no disco Big bang, de 1989). No embalo do tetra da Seleção (o disco foi gravado em 1994), Herbert Vianna faz divertidas alterações na letra: “Com Bebeto e Romário eu aposto / Quer jogar, um empate é pra você” – e depois temos “Com Ronaldo e Viola eu aposto” (e aqui, vibro bastante! Mas naquela Copa, Viola só jogou na prorrogação da final com a Itália – e torci muito para que o gol saísse de seus pés -, enquanto Ronaldo, ainda um molequinho que vinha arrebentando no Cruzeiro, não chegou a entrar em campo). Versão alucinante:

Em 2015, no disco Raridades (incluído numa box com a discografia do conjunto), uma versão alternativa para “Um A Um” veio a conhecimento do público. Mais ligeira que os registros anteriores, traz um espertíssimo pandeiro, rendendo um merecido tributo ao Rei do Ritmo, que completaria exatos 100 anos neste 2019. Ouça:

Por fim, há uma outra versão bacana no sincero tributo Revivendo Jackson do Pandeiro (1995), de Fúba do Pandeiro, que nos deixou em 2017:

3 comentários

  1. Gostei da música,quanto ao esporte bretão,ainda não consegui entender por que desperta tanta paixão.Taí um denominador comum onde todas as classes sociais e as diferenças culturais e intelectuais se encontram.

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    1. Excelente comentário. De fato, o futebol tem esse poder sedutor. Penso num dia em que ele se tornará um instrumento de união e conscientização popular, em vez de ser apenas espetáculo alienante – sua faceta mais evidente, na atualidade.

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