185. Raul Seixas e Marcelo Nova: “Pastor João E A Igreja Invisível”

Eu não sei se é o céu ou o inferno
Qual dos dois você vai ter que encarar
E foi pra não lhe deixar no horror
Que eu vim para lhe acalmar
Se o pecado anda sempre ao seu lado
E o demônio vive a lhe tentar
Chegou a luz no fim do seu túnel, minha filha
O meu cajado vai lhe purificar


Quando lecionei pela primeira vez História da Educação na universidade, especial atenção foi dada à questão da Reforma Protestante – até porque aquela experiência ocorreu em 2017, exatos 500 anos após a publicação das 95 Teses de Martinho Lutero.

Uma das repercussões educacionais desse movimento – para além do fortalecimento de uma cosmovisão adequada ao nascimento das relações de produção capitalistas – foi a importância consagrada (literalmente) à alfabetização. A noção de que todo fiel poderia, ele mesmo, vir a ler e a interpretar as escrituras sagradas foi essencial para a conformação da vertente confessional da pedagogia tradicional. E, embora a passagem do Renascimento para a Modernidade não tenha assistido à alfabetização em massa das camadas populares, ao menos criou-se um ideário a respeito da necessidade de um mínimo domínio da habilidade de leitura para a participação na nova sociedade burguesa que não tardaria a surgir.

As grandes revoluções do século XVIII impulsionariam a escola enquanto instituição responsável por socializar esse mínimo de conhecimentos. Nesse momento, é concebida uma vertente leiga da pedagogia tradicional, formulada em acordo com o método científico de Francis Bacon, tendo como Herbart um de seus grandes expoentes. Para essa pedagogia, a função da escola é transmitir os conhecimentos necessários para a participação nas relações capitalistas, por meio de um processo racionalmente orientado. O resultado esperado é a formação de uma multidão de seres humanos – em acordo com os ideiais da liberdade, igualdade e fraternidade – capazes de vender sua força de trabalho para os proprietários dos meios de produção, assegurando a reprodução das condições de existência do homem e da própria sociedade.

Enquanto a burguesia se apresentava como classe revolucionária, a pedagogia tradicional, em sua vertente leiga, conseguiu de fato colaborar para a maior igualdade entre os homens, na medida em que permitia a ampla assimilação da experiência acumulada historicamente pela humanidade, por parte das novas gerações. Mas se a raiz desse ímpeto alfabetizador, em parte, se apresenta no ideal protestante – de modo que podemos atribuir um caráter progressista à pedagogia decorrente das teses de Martinho Lutero -, também restaram, desse ideal, efeitos polêmicos e questionáveis.

A democratização do acesso às escrituras, questionando as autoridades eclesiásticas da Igreja Católica, levou à proliferação de denominações cristãs, pulverizando o cristianismo em um conjunto variado de seitas. Além das ramificações que se mantiveram mais próximas do ideal reformista do século XVI, surgiram as vertentes que, advogando-se evangelistas ou evangélicas, hoje se mostram em franco crescimento – e não apenas no Brasil.

Cresci num país em que os grandes salões – antes destinados ao prazer leve dos carnavais e dos cinemas – foram se convertendo (literalmente de novo) em enormes templos de culto cristão. E, junto da massificação das ideias religiosas ali propaladas, criou-se certo consenso, na sociedade civil, de que grande parte dos líderes desses movimentos não estão comprometidos exatamente com os ensinamentos cristãos: tais igrejas serviriam, em grande medida, para o acúmulo de riquezas por parte desses pastores, atuando como mais um mecanismo de apropriação privada dos (escassos) bens da classe trabalhadora.

Nunca frequentei esse tipo de espaço de culto, nem pretendo fazê-lo. Conheço pessoas que deles participam, mas evito conversar sobre esse assunto com elas. Não sei até que ponto tais acusações são válidas: se somente para os grandes templos, ou se para a maioria dos estabelecimentos, incluindo os mais (aparentemente) modestos.

O fato é que, para além das repercussões econômicas desse movimento, são inegáveis suas consequências na esfera ideológica. E tais grupos, organizados politicamente (e aqui, tiro o chapéu para eles), conseguiram ocupar uma enormidade de assentos no Parlamento brasileiro, vindo a ditar o ritmo, a forma e o conteúdo de debates importantíssimos, geralmente os conduzindo para as soluções mais conservadoras possíveis.

Nesse sentido, a crítica bem-humorada de Raul Seixas e Marcelo Nova, em “Pastor João E a Igreja Invisível”, continua tão atual e pertinente quanto à época de sua apresentação, no clássico álbum A panela do diabo (1989). Nesse rock reverente ao som estadunidense dos anos 1950 e 60, surge como enunciador o próprio Pastor João, figura abjeta, indecorosa e repugnante.

Triunfante, o líder religioso não se acanha em confessar o teor de seus “negócios”: “Para os pobres e desesperados / E todas as almas sem lar / Vendo barato a minha nova água benta / Três prestações, qualquer um pode pagar / O sucesso da minha existência / Está ligado ao exercício da fé / Pois se ela remove montanhas / Também traz grana e um monte de mulher”. O pastor, além de tudo, é um tremendo sacana, e gosta de um trocadilho: “Pois eu transformo água em vinho / Chão em céu, pau em pedra, cuspe em mel / Pra mim não existe impossível / Pastor João e a Igreja Invisível”.

Ouvindo a canção, parecemos estar diante de um personagem ridiculamente inverossímel. Meu temor é que, Raulzito, profeta como sempre, tenha traçado o quadro de um Brasil – o de hoje – em que o Pastor João está em toda esquina. Ele é tão onipresente que, acostumados a encontrá-lo em cada carteirão, já nem mais enxergamos sua igreja invisível.

Todo bom teísta, aqui, deve ter pensado: “invisível” não significa “inexistente”. Como eu disse, é isso o que temo.

raul-seixas-marcelo-nova.jpg
Raulzito e o “verdadeiro Padre Marcelo” (como costuma se apresentar): denunciando os engodos da religião alienante e exploradora do povo.

Além da versão original de A panela do diabo, existem outras gravações com Marcelo Nova, mas não com Raul Seixas (que nos deixou exatamente na véspera de lançamento desse álbum).

No tributo O baú do Raul: uma homenagem a Raul Seixas (2004), Marcelo faz uma versão pesada e fiel à original, contando inclusive com os clássicos backing vocals femininos:

Mais tarde, o ex-Camisa de Vênus incluiria a faixa no DVD Hoje no Bolshoi (2011), numa versão mais crua. A faixa ficou longa porque, nela, o cantor baiano aproveita para apresentar a banda, que inclui seu filho Drake. Pude assistir a um show dessa época e garanto: “Pastor João E A Igreja Insivível”, tocada nessa pegada, não deixa ninguém parado. Confira:

3 comentários

  1. Mais atual impossível,ainda ontem ouvi um trecho (por curiosidade) de um discurso sobre uma tal ”fogueira-santa”.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s