188. Miúcha: “Samba Erudito”

Andei sobre as águas
Como São Pedro
Como Santos Dumont
Fui aos ares sem medo
Fui ao fundo do mar
Como o velho Picard
Só pra me exibir
Só pra te impressionar


Ontem morreu João Gilberto, de quem havíamos falado há pouco.

As notícias sobre o mestre da bossa-nova não eram animadoras desde os últimos anos. João permanecia recluso e, aparentemente, já sem condições de gerir a própria carreira. As manchetes traziam escassas informações, geralmente colocando a filha Bebel Gilberto como protagonista, dado que ela acabou interditando o pai e, assim, assumindo o controle financeiro e jurídico de sua vida. Na disputa de narrativas envolvendo a família Gilberto, acabei ficando do lado de Bebel, que saiu dos Estados Unidos, onde morava, para vir cuidar da situação do pai no Rio de Janeiro.

Imbrólios à parte, agora nada mais interessa. E fico pensando em como o ano de Bebel deve estar sendo difícil, perdendo a mãe, Miúcha, no finalzinho de 2018 e, agora, o pai.

Com este post, lembro de toda a família Gilberto, mas também de seus laços familiares com os Buarque de Hollanda. Estava já programando para, em breve, trazer a canção de hoje, e a partida de João apenas andiantou meus planos.


“Samba Erudito” é uma das mais conhecidas composições de Paulo Vanzolini.

A letra não tem muitos segredos: traz um enunciador descrevendo sua jornada pela (malograda) tentativa de conquistar a pessoa amada. É interessante é que, para relatar seu trajeto, a voz que canta estabelece uma série de comparações com personagens históricos, usando os contextos da religião, da ciência, da política e da literatura.

A canção apareceu pela primeira vez no clássico Onze sambas e uma capoeira (1967), assinado por Vanzolini, mas com faixas cantadas por diversos artistas. Coube a ninguém menos que Chico Buarque defender esse quase-samba-de-breque, cantado propositadamente sem empolgação. Afinal, o sujeito enunciador é um erudito, homem de razão, que não se deixa abalar por qualquer emoção, nem mesmo por uma derrota. A própria melodia contribui para firmar o aspecto racional do discurso de Vanzolini, evitando os pontos mais altos da tessitura e, por meio de suas recorrências, estabelecendo a tematização como recurso estilístico imperante.

No ano seguinte, Chico lançaria a canção num compacto:

Apenas em 1981 é que se ouviria a voz do compositor cantando sua obra: em Paulo Vanzolini por ele mesmo, “Samba Erudito” reaparece com um arranjo semelhante ao de sua versão original. Confira:

E foi em 2002 que conhecemos a versão de Miúcha. Lançada na caixa Acerto de contas, organizada pela Biscoito Fino, a canção aparece em seu primeiro volume, arranjada de forma a aproximá-la do universo chorão. A irmã de Chico Buarque, mais de 20 anos depois da célebre interpretação do autor de “Roda Viva”, deu vida à versão definitva desse curioso samba.

Destaque para a ponte, que traz os principais instrumentos solistas do choro: o cavaco de Lúcio França; a flauta de Jaime Marques Saraiva, mais conhecido como Prata; e o bandolim, pilotado por ninguém menos que Izaías de Almeida. Este, por sinal, já foi muito a São Carlos participar do festival Chorando Sem Parar, com seu conjunto Izaías e Seus Chorões, integrado também por seu irmão Israel de Almeida, que participa dessa versão de “Samba Erudito” no 7 cordas.

Clássico do samba paulista, ou melhor, do samba.

miúcha.jpg
Miúcha, que partiu antes, para receber João no céu…

“Samba Erudito” foi relido de formas muito diversas.

A primeira versão que destaco é a de Jair Rodrigues, sintomaticamente, a mais animada de todas, apresentada no disco Jair (1968). Outro que faz falta nesse mundinho musical… Ouça:

Mônica Salmaso, em Alma lírica brasileira (2001), reaproxima “Samba Erudito” do universo do choro, assim como fez Miúcha. Mas a cantora paulistana vai mais longe: com um arranjo baseado no piano, mas com intervenções de flauta e de tamborim (este, tocado pela própria Mônica), translada o samba de Vanzolini para os primórdios do “tango brasileiro”, como definia Ernesto Nazareth. Parece que estamos ouvindo, de fato, um cançoneta de salão dos anos 1920. Uma aula de releitura… aprecie:

Com uma proposta de mesmo teor, o ator e pianista Rodrigo Vellozo increveu “Samba Erudito” no repertório de Samba de câmara (2009). A versão parece ser baseada na gravação de Miúcha, mas traz intervenções “eruditas”, como o piano do intérprete (que, aliás, é filho de Benito di Paula) e sons camerísticos. Seria uma boa releitura, não fossem os vocais exagerados do cantor; como disse, por seu próprio conteúdo lírico, “Samba Erudito” requer um canto menos passional e mais contido. Veja se estou certo:

Outor jovem intérprete é Gabriel Guerra, que traz uma versão toda intrincada e modernosa, em Nobre guerreiro (2007). Não faz muito meu gosto, mas fica aqui como curiosidade:

Sem cair na tentação de rebuscar demais o registro, como o fizeram os dois intérpretes acima, Juliana Amaral nos presenteia com uma versão minimalista – só voz e cavaquinho – no álbum propriamente intitulado SM, XLS (Samba mínimo, extra luxo super) (2012):

Por fim, há a interessante gravação de Joana Flor, em Indivíduo lugar (2015). O “Samba Erudito” reaparece, primeiro, como uma gafieira. A surpresa fica por conta pela forma como a cantora redistribui os versos pelos compassos musicais, criando pausas que reforçam o aspecto racional da mensagem transmitida por Vanzolini:

2 comentários

  1. Desconhecia a música,a versão da Miúcha é superior por causa do arranjo,a performance-vocal de Jair Rodrigues também é muito boa.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s