189. Banda do Mar: “Seja Como For”

Seja como for, eu vou
E vou correndo, não quero perder nada
Custe o que custar, eu dou
Não tenho medo de rato nem barata


Depois do fim do Los Hermanos, não virei “viúva”. Aceitei o “recesso por tempo indeterminado” da banda carioca, resignadamente. Ou melhor, festejei: ao interromper a carreira fonográfica em seu quarto álbum, o conjunto parecia ter a consciência dos riscos implicados numa produção desenfreada de novos lançamentos, capazes sim de satisfazer ao mercado, mas talvez a um alto custo artístico. Melhor assim: quatro álbuns irretorquíveis, entremeados a um ao vivo aqui e outro ali, constituindo um conjunto coerente, nem sempre de difícil assimilação, mas digno.

Ouvi muito todos esses álbuns e já tive o Los Hermanos como minha banda favorita dos anos 1990. E talvez os tenha em altíssima conta assim até hoje. Porém, com o fim das turnês e dos lançamentos, inexplicavelmente, não vim a nutrir nenhuma curiosidade pelo que produziriam, daí em diante, Marcelo Camelo e Rodrigo Amarante, os compositores do conjunto.

Sabia que Amarante integrava a Orquestra Imperial já desde as vésperas de Ventura (2003), e que Camelo desenvolvia uma carreira solo que buscava não se escourar demais no repertório da banda. Até ouvi algo da Orquestra e de Camelo, mas nada que impactasse. Depois, o autor do hit “Anna Júlia” conheceria uma cantora chamada Mallu Magalhães, se enamorando por ela. Permaneci desinteressado pelas produções do casal. Por fim, quando anunciou-se que os dois estavam formando uma nova banda, com o português Fred Pinto Ferreira na bateria, minha reação não foi nem de ceticismo: foi nula mesmo.

Foi bem recentemente, por ter voltado a escutar rádio, que acabei conhecendo duas canções desse conjunto, “Mais Ninguém” e “Hey Nana”. Gostei e fui conferir o restante do homônimo álbum da Banda do Mar, lançado em 2014.

Apesar de ter me amarrado nas novas composições de Camelo – “Dia Clarear” me levou de volta à melancolia de 4 (2005), o álbum derradeiro dos Hermanos, que fecha com a tristíssima trinca “Sapato Novo”/”Pois É”/”É De Lágrima”; e “Faz Tempo” me lembra muito mais “O Vento”, do mesmo 4, do que “My Sweet Lord”, como denunciou a implacável internet –, foi nas faixas cantadas por Mallu que acabei me detendo.

Dessas escutas atenciosas, tirei duas conclusões. A primeira é que há muita química entre o casal e, o que é mais importante, equilíbrio: as canções de Banda do mar se dividem igualitariamente entre composições do rapaz e da moça. Coisa, aliás, que nem sempre acontecia no Los Hermanos, infelizmente. E a segunda conclusão tem a ver com o canto de Mallu: ela é o par ideal de Camelo até no âmbito artístico, roubando o lugar de Rodrigo Amarante. E é curioso que até seus cantos se pareçam: o estilo blasé ou simplesmente “preguiçoso” de Amarante encontra sua exata contraparte feminina no timbre de Mallu.

O que achei mais interessante, nessas canções dela, tem justamente a ver com a forma como a cantora dispõe sua voz para potencializar o significado das letras. Três obras me chamaram a atenção, nesse sentido: “Muitos Chocolates”, “Me Sinto Ótima” e o tema de hoje, “Seja Como For”.

Nessa última, a forma como Mallu canta o “eu vou” condensa semioticamente muita coisa, que parecia não caber em apenas duas palavras. Eu vou e não quero nem saber, ninguém me segura. O mesmo vale para “eu dou”: eu dou e dobro a aposta, se for preciso. A voz que canta, assim, se apodera e apropria de toda a determinação possível, só para permanecer em conjunção com a pessoa amada.

Gosto também como o tom despojado desses versos é abandonado, ainda que momentaneamente, em prol da seriedade implicada no ato de dirigir a palavra ao interlocutor, o você. No verso “Meu bem, você pra mim é privilégio”, é justamente sobre o você que se lança um recurso harmônico que, em termos semióticos, exerce papel análogo ao desempenhado pelo canto de Mallu em outras passagens. Explico: se o verso se inicia sob o acorde de Fá Maior, em “você” altera-se para Fá Menor, suspendendo a leveza que até então imperava e asseverando que o juízo endereçado à pessoa amada é sincero e imutável.

À parte a simplicidade desta e das demais canções de Banda do mar, confesso ter sido conquistado por esse uso tão inteligente dos (escassos) recursos do trio. Não chega aos pés dos Los Hermanos, mas quem disse que seria essa a proposta?

Som de qualidade, para “viúva” nenhuma botar defeito.

banda-do-mar.jpg
Banda do Mar: a sinergia entre Mallu e Camelo mantendo os fãs dos Los Hermanos satisfeitos

6 comentários

  1. Concordo,é melhor parar no auge,como os Beatles também fizeram,que ficar lançando álbuns caça-níqueis.

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    1. Exatamente. Os Titãs, por exemplo, meio que padeceram desse mal, e isso teve um custo artístico bastante alto. Demorou alguns anos – e álbuns – para que a banda paulista recuperasse, ao menos parcialmente, sua boa reputação.

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  2. Conheço a produção solo do Camelo e acho-a muito boa. Para mim, mesmo nível dos Hermanos. A do Amarante até hoje ainda não ouvi direito. Pela Mallu nunca havia me interessado até justamente este belíssimo trabalho da Banda do Mar. Ouvi então, dela, o ótimo “Vem” (2017), com um punhado de boas músicas. Destaco “Guanabara”, “Vai e Vem” e “Casa Pronta”. É nítido que a convivência com o Camelo a fez crescer como compositora.

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    1. Que legal sua fala, Denis, assim como a indicação de algumas canções da Mallu para escutarmos atentamente.
      Sonho em fazer um novo blog, neste mesmo formato, daqui a muitos anos. Quem sabe a Mallu tenha sua merecida postagem nessa nova oportunidade!
      E realmente é plausível que a compositora iniciante, a partir de seu relacionamento com um artista mais experiente, tenha adquirido uma maestria maior em seu ofício. A música brasileira teve muito a ganhar com essa união.
      Grato pelo comentário e pelas reflexões, mais uma vez.

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  3. Rafael, não tem como antecipar os planos para esse novo blog, não? hehehe Estou aos poucos – e em atraso – lendo os posts do “365…”, mas sinto que em breve sentirei falta dos seus ótimos textos…Abraço.

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    1. Pois é, Denis, a ideia era fazer um novo blog neste 2022. Seria análogo a este, mas totalmente focado em temas instrumentais. O problema é que o projeto gráfico dele requer que a escolha dos 365 temas já esteja definida antes do início das postagens, e acabou não dando tempo de fechar a lista até 31/12/2021. Mas estou com alguns planos de fazer um esquenta pra esse projeto, e, se rolar, você ficará sabendo!
      De qualquer forma, vou continuar aguardando seus comentários por aqui! Todo mundo que comenta sempre acrescenta algo que passou despercebido por mim, ou que eu realmente não imaginava, sobre cada canção. Então, é sempre um prazer receber comentários novos.
      Um abraço!

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