190. Jorge Veiga: “Acertei No Milhar”

Acertei no milhar
Ganhei quinhentos contos
Não vou mais trabalhar
E me dê toda a roupa velha aos pobres,
E a mobília podemos quebrar
Isto é pra já!


“Acertei No Milhar” é um dos grandes sucessos de Jorge Veiga, que conheci num momento em que explorava alguns sambas ditos “de época”. A gravação que abre o post, por sinal, é de 1959, tirada do LP Alô! Alô! Canta Jorge Veiga – um dos temas mais antigos do blog, até o momento. A composição é ainda mais anterior: fruto da parceria de Wilson Batista com Geraldo Pereira, veio a lume em 1935.

A letra traz o relato de um sujeito que ganha na loteria e, assim, decide virar sua vida de cabeça pra baixo. Irá quitar suas dívidas, enclausurar seus filhos num colégio interno e se entregar, junto da esposa, ao estilo europeu de viver. Tudo isso para perceber, logo depois, que a nova vida de burguês não passou de um sonho. Por sinal, o tema do onirismo já apareceu aqui no blog, tanto se referindo a canções parcialmente compostas durante o sono (“Velho Ateu”, “Dona”), quanto em obras que davam voz a um personagem sonhador (“Esse É Meu País”, “Um Sonho”).


Tenho em minhas mãos o livro Samba, cultura e sociedade, organizado por Marcelo Braz (São Paulo: Expressão Popular, 2013). Um dos capítulos, escrito pelo próprio organizador, toma como referência o estudo de Cláudia Neiva de Matos, justamente intitulado Acertei no milhar: samba e malandragem no tempo de Getúlio (Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982). Nesse livro, a autora defende a ideia de que a dita malandragem, durante o período investigado em sua pesquisa, se apresentou em duas fases. A primeira refere-se à figura clássica daquele que não quer (ou não gosta de) trabalhar e que vive da vadiagem no espaço público. A segunda traz o malandro regenerado, aquele que precisou aprender a ganhar o pão de forma digna – ainda que não o faça resignadamente ou sem saudosismo em relação à vagabundagem pretérita.

As duas fases da malandragem refletem aspectos da organização da sociedade na capital da república recém-constituída. O compositor Wilson Batista aparecia, ali, como um expectador-participante das mudanças que ocorriam nas décadas iniciais do século XX (sendo a mais marcante o processo de industrialização, instaurando novas relações de trabalho numa sociedade em que a escravidão acabara de ser abolida). Assim, sobre a segunda fase da malandragem em Batista, Braz afirma:

na segunda fase, a crítica ao trabalho desaparece e é substituída por uma aparente resignação […] que no fundo sugere uma tentativa de reposicionamento do “malandro” nas novas relações de trabalho já dominantes, que se consolidariam no período do autoritarismo do Estado Novo varguista […].

Ao mesmo tempo, essa fase parecia demonstrar que as relações de trabalho dominantes pouco podiam oferecer aos trabalhadores, que se moviam num universo alienante no qual as possibilidades de ascensão social pareciam estar limitadas a um imaginário fantasioso, composto de sonhos de uma vida melhor, tão pouco condizente com a realidade (2013, p. 195-196).

É justamente no quadro desse “sonho de uma vida melhor” que “Acertei No Milhar” surge como uma composição que, aparentemente de constatação, se revela como de contestação, numa camada mais profunda.

É triste perceber que, até hoje, sonhos como o do personagem de “Acertei No Milhar” continuam povoando o imaginário, e servindo como alento passageiro, de nossa população de trabalhadores (e do cada vez mais amplo exército industrial de reserva), mais e mais pauperizados e alijados dos produtos de seu trabalho.

jorge-veiga.jpg
Jorge Veiga: dando voz ao samba contestador de Wilson Batista.

A versão inicial de Jorge Veiga para esse clássico do samba de breque ainda não seria a definitiva. Em 1971, o cantor a regravaria, investindo em toques personalíssimos e cheios de humor que já se anunciavam no registro anterior, como nas brincadeiras com as palavras (“telefongone”, “basquente”) e nos diálogos envolvendo Etelvina, a esposa do personagem sonhador:

Além de Jorge Veiga, muita gente regravou “Acertei No Milhar”.

Existe uma outra versão clássica, apresentada por Moreira da Silva em O último malandro (1958):

O velho malandro regravaria o sucesso cerca de 40 anos depois, em 50 anos de samba de breque (1989). A versão nova é mais concisa, mas não menos interessante, e a descrição de Etelvina é o grande diferencial:

Em 1974, Miriam Batucada registrou a canção em Amanhã ninguém sabe. Embora o arranjo esteja influenciado demais pelos ares soft da bossa-nova, a intérprete consegue manter o humor das gravações anteriores de Jorge e de Moreira:

A curiosidade fica por conta da versão de Gilberto Gil, lançada como bônus de Realce (1978). A produção é esquisítissima, tentando tratar “Acertei No Milhar” como um proto-samba-rock. O humor simplesmente desaparece! Mas há um atrativo: ninguém menos que Jackson do Pandeiro, obviamente, no pandeiro. Escute:

Mais recentemente, temos a versão de Jards Macalé, em Jards Macalé canta Moreira da Silva (2001). A letra é atualizada de “500 contos” para “500 mil”. O violão suingado de Macalé é o grande diferencial:

E por fim, há a versão do projeto Samba de breque, o samba perdido (2015), dirigido por Paulo Serau. “Acertei No Milhar” é relida com ares de época, numa interpretação magistral de Paula Sanches. Delicie-se:

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