191. Textículos de Mary: “Propóstata”

Eu quero ser tua cadela
Engatada no teu pau
Um suicida agarrado na tua perna
Um coração exposto pela via anal


Ninguém imaginaria que, dali a menos de duas décadas, uma das cantoras de maior sucesso no Brasil seria uma drag queen, conhecida por atiçar a internet com seus videoclipes provocantes.

O ano era 2002 e, lá em Recife, uma banda chamada Textículos de Mary (com “x” mesmo) lançava o álbum Cheque girls. Quem conhece o pajubá, o dialeto gay, já sacou de cara o trocadilho escatológico com o título do filme de Andy Warhol e Paul Morrissey, Chelsea girls.

O conteúdo do álbum fazia jus à piada do título: em 12 faixas, geralmente curtas, o que se presenciava era um desfile de personagens do submundo gay, em meio a sexo, drogas, punk rock e, o que é mais importante, muito humor.

Coabitavam Cheque girls tipos como a toxicômana Jennifer (em “Jennifer” e “Legalize Bambam”), que sobrevive sodomizando enrustidos frequentadores de saunas; a travesti ex-comunista “Natasha Orloff”, que “deslanchou de sola quando a União desabou / Ante a esse curso neo-liberalista que em capitalista a Ucrânia transformou / Natasha agora vive intoxicada, topa qualquer parada em que possa lucrar / Sentindo fome, aperta a barriga em uma cinta liga comprada na C&A”; e Beth, “fascista, puta safada / Não gostava de negros / Até ser currada / Às 3 da manhã / Numa encruzilhada / Por “vinte negão” / Na semana passada… / Semana passada!”.

A sonoridade, como disse, é basicamente punk, embora a banda se permitisse diversificações como o ska de “Natasha Orloff”, o reggae de “Entradas E Bandeiras” e ao menos uma faixa descaradamente brega, “Menarca (Sometimes I Feel Like Crazy)”, com os inacreditáveis versos: “Depois do 15º baseado / Eu não respondo por mim / Eu não respondo por nada / Passo a noite, varo a madrugada / Como cadela no cio / De uma bichinha atacada”.

Uma faixa do álbum se tornou conhecida no circuito alternativo daqueles anos 2000: a magnífica “Propóstata” (composta por Chupeta e Friuíli), nosso tema de hoje, que ganhou até um clipe bem produzido, com boa exibição na MTV. A letra é puro deboche gay, brincando com a temática “canina” trazida pela banda que acompanha os Textículos (A Banda das Cachorra) e referenciando “I Wanna Be Your Dog”, dos Stooges.

Além das letras que você não encontrará em nenhum outro conjunto da face da Terra, os Textículos se preocupavam com suas performances, sempre caricaturais, e com seus figurinos – que pareciam roubados de um filme de terror independente, e costurados por um estilista chapado de coca. Um absurdo!

Mais legal é ler as reações da imprensa musical da época. Tenho aqui minha coleção das revistas Rock press Showbizz (onde li pela primeira vez algo sobre o conjunto) e vou transcrever algumas passagens que evidenciam, por um lado, o fascínio despertado pela banda, e por outro, a homofobia descarada que o “politicamente correto”, com sua chatice necessária, tratou de eliminar dos textos midiáticos com alguma seriedade. Veja só:

[…] assim como o Textículos de Mary, espetacular grupo punkmetal gay composto por travestidos mutantes de outro mundo – cantando versos do tipo “eu quero ser tua cadela, minha cara no teu p*” (Showbizz, edição 177, ano 15, nº 4, abril de 2000. Cobertura do Festival Rec Beat em Recife, com texto de Silvia D. com colaboração de Pedro Serra, p. 77).

Numa mesma linha,

O Textículos de Mary precisa de uma gravadora urgentemente. São o Disk Putas com talento. A junção de new wave chiclete com figurino viado só poderia dar coisa boa (Showbizz, edição 191, ano 16, nº 6, junho de 2001. Cobertura do Festival Abril Pro Rock em Recife, com texto de José Flávio Júnior, p. 35).

Já a Rock press não parecia tão complacente com o conjunto:

Dispensando longos comentários, os Textículos de Maruy (PE) fazem rock básico com vestuário cheio de vulgaridades e encenam sexo e pornografia. São engraçados e tocam bem. Mas a música parece ficar em segundo plano (Rock press, ano 6, nº 44, junho de 2002. Cobertura dos 10 anos do Abril Pro Rock, também em Recife, com texto de Sylvie Piccolotto, p. 40).

E isso porque, no ano anterior, veja só o que a revista registrou:

Num constraste total, subiu ao palco a banda mais hypada do Abril Pro Rock 2001: Textículos de Mary. O som não é muito criativo, pelo contrário, punk rock legalzinho, mas bem normal. O diferencial deles é a mise-en-scène: impossível não prestar atenção num bando de malucos metidos em fantasias ridículas, maquiados horrivelmente e, pior, vestindo minissaia, salto alto, acessórios sadomasô, todos com calcinhas atoxadas no rego. Tem até uma mulher bagaceira no meio, só que não tem essa: É TUDO FRUTA. No começo é até engraçado, os caras gritando “eu quero ser sua cadela!” […] num tom de deboche bem afetado, o som sujo e as letras reverentes ao submundo bicha-trash… mas os bofes estavam mesmo a fim de chocar a audiência, e começaram a tocar o terror: o vocalista enfiava o microfone lá onde você tá pensando e uns outros dois ficavam numa pegação escrota, simulando bolagatos e coisas piores. Algo como Secos & Molhados do inferno, ou Marilyn Manson da boca do lixo. Nada de novo, na verdade, mas mesmo assim um espetáculo chocante, de virar o estômago. Alguma exposição na mídia eles deverão conseguir com isso. Resta saber onde esses caras vão dar, com o perdão do trocadilho (Rock press, ano 6, nº 34, maio de 2001. Cobertura do Abril Pro Rock em Recife, com texto de Adolfo Só, p. 32).

Tirando o “Secos e Molhados do inferno” (definição perfeita!), o que é de virar o estômago, me parece, não era a performance teatralíssima dos Textículos, mas tamanho preconceito (e má vontade) do jornalista.

Infelizmente o Textículos só nos legou Cheque girls, hoje um clássico cult. Não fosse o fim prematuro do conjunto, os recifenses poderiam estar aí até hoje, esfregando outras imundícies sensacionais como “Propóstata” na cara de críticos como o autor da última transcrição.

texticulos-de-mary.jpg
Textículos de Mary: punk brega infernal, debochado e afetadíssimo… perto deles, Pabblo Vittar é uma lady bela, recatada e do lar.

Não deixe de conferir o premiadíssimo curta 24 minutos com Textículos de Mary e A Banda das Cachorra (dir.: Flávia da Rosa Borges), um mini-documentário sobre a trajetória da banda recifense. Assista aqui:

3 comentários

  1. Desconhecia completamente.Não sei se a Banda teria espaço hoje,o Brasil encaretou e ficou mais violento.

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    1. Já naquela época o conjunto enfrentou muitas adversidades, não só no meio midiático, mas entre seus próprios pares. Hoje, talvez passassem despercepidos, neutralizados enquanto “lacração musical”.

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