193. Marcelo Bonfá: “Depois Da Chuva”

Eu quero olhar ao meu redor
E ver além do que meus olhos podem ver
Além do céu além do mar
E ter certeza de que vou te encontrar


Entre 1999 e o início de 2000, as revistas musicais da época se agitavam diante da possibilidade de que Marcelo Bonfá lançasse um álbum solo. De fato, o ex-baterista da Legião Urbana vinha compondo e tomava aulas semanais de canto. Em algumas entrevisas, chegou a antecipar que seu eventual disco trilharia ares mais eletrônicos, com elementos do trance e do trip-hop.

Em abril de 2000, a revista Showbizz trouxe uma longa matéria com o músico paulista, explorando o material que, finalmente, viera a lume como o álbum O barco além do sol – que, de eletrônico, não trazia quase nada. O título fazia uma clara alusão à Legião: Bonfá seria o barco e, conforme depoimento registrado nessa publicação, o “além” indicaria não a ideia de melhor ou superior, mas apenas a de “outro lugar”. Uma outra estação…

Nos meses seguintes, a música de trabalho tocou relativamente bem em algumas FMs. Lembro de estar com o rádio ligado e, já nos primeiros segundos da introdução, ter percebido que aquele som distorcido, mas bonitinho, só podia ser a tal canção “Depois Da Chuva”. Nesse momento, fui correndo chamar meu pai para escutar – justo ele, quem me apresentou a Legião Urbana.

Encartado num volume da 89 – A revista rock, um CD trouxe outra faixa do álbum, que também cheguei a escutar uma única vez na rádio: “De Um Jeito Ou De Outro”, composta por Bonfá em parceria com o casal líder do Pato Fu, Fernanda Takai e John Ulhoa. (Outra faixa de Takai, em O barco além do sol, era a bonita “Ouro Em Pó”. E o álbum trazia também “Aurora No Subúrbio”, composta com Fausto Fawcett).

Em 2002, finalmente comprei o álbum, passando os meses iniciais daquele ano escutando-o atenciosamente. Afinal, aquele era o material inédito mais próximo possível da Legião Urbana que um fã de Renato Russo poderia escutar. E, de fato, não era um disco ruim: gravado por instrumentistas competentes – basicamente, o Tantra, composto pelos músicos de apoio da última turnê da Legião, Fred Nascimento (guitarras e violões), Gian Fabra (baixo, assinando também algumas letras) e Carlos Trilha (teclados e produção do álbum) -, demonstrava uma enorme boa vontade em ir além do estilo pop/rock associado a Renato Russo.

Sim, algumas faixas, de fato, lembravam bastante o som da Legião (o que é perfeitamente compreensível, já que as bases instrumentais da banda eram, em muitos casos, composições de Bonfá): é o caso de “Vera Cruz” (com os versos “Quando a luz cobrir de ouro e sol / Os campos e os corações do meu país” soando como uma versão camoniana de “Quando O Sol Bater Na Janela Do Teu Quarto”), “A Dama Do Lago” e “Um Dia Pra Nós Dois”. Por outro lado, era evidente a tentativa de se experimentar novos horizontes, e era nessas faixas que Bonfá parecia lograr maior sucesso, como em “O Veleiro De Cristal”, “Aurora No Subúrbio” e a realmente boa “Todos Os Sonhos Do Mundo”.

De toda forma, a melhor faixa do álbum, mais redondinha e bem acabada, era justamente a música de trabalho, “Depois Da Chuva”. Esta também integra a seção legião-urbanesca do álbum, abrindo com uma viradinha de bateria à “Há Tempos”, e trazendo guitarras distorcidas acompanhadas de violões, ambiências de strings nos teclados, além de um xilofone que acrescia um tom levemente inocente à composição. Além dessas reminiscências musicais do passado de Bonfá, a letra referenciava a banda de Brasília (talvez inconscientemente) na letra: “Há tempos eu sei / Que eu não sei viver sem seu carinho”.

O poema-canção se inicia com versos prenhes de querer e desejo de conjunção amorosa. A partir daí, quando a guitarra distorcida se sobressai, uma série de desarranjos, óbices a essa conjunção, parecem se insurgir, justamente como uma tempestuosa sucessão de obstáculos: “Quanta coisa, amor, vimos se perder / E quantas coisas encontramos pra alegrar o coração / Nessas horas eu chego acreditar / Que certas vezes o melhor é se entregar à ilusão”.

Mas, de forma esperançosa, o eu-lírico não se entrega, e assiste à dissolução desse quadro trevoso. A conjunção, afinal, se consuma, cheia de leveza e uma ambiguidade quase infantil: “Mais um pouco e a dor vai embora / Vamos brincar a noite inteira e rir de tudo outra vez”. As nuvens se desfizeram e veio a bonança. E, depois da chuva, é possível retornar ao velho /querer/, mas agora de forma triunfante: “Eu quero olhar ao meu redor / E ver além do que meus olhos podem ver / Além do céu, além do mar / E ter certeza de que vou te encontrar”.

Canção de harmonia simplíssima, mas melodia cativante e um percurso narrativo, no nível lírico, plenamente satisfatório. E, afinal, Marcelo Bonfá, de baterista medíocre, se mostrou um cantor competente.

Entre o acomodado e o ousado, O barco além do sol apaziguou, um pouquinho, as saudades dos fãs da Legião, mostrando que, após a tempestade – ou melhor, depois da chuva – o barco ainda haveria de navegar por novas águas.

marcelo-bonfa
Marcelo Bonfá: superando o fim da Legião com O barco além do sol.

O videoclipe de “Depois Da Chuva” é bonito (diria fofo) e traz as participações do filho e da esposa de Bonfá, Tiago e Simone. A narrativa ali retratada não possui relação explícita com a letra e, estivesse disponível numa versão com resolução melhor, certamente provocaria uma experiência audiovisual mais plena. Mesmo assim, vale a pena assistir:

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