194. Infierno: “Construção”

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido


Muito já se falou sobre o álbum Construção (1971), de Chico Buarque, bem como de sua icônica faixa-título. Popularmente, o disco é conhecido por ter colocado em relevo, pela primeira vez, a crítica social, enquanto tema das canções buarquianas. Em verdade, tal faceta já se anunciava desde a estreia do compositor paulista, Chico Buarque (1966), que trazia “Pedro Pedreiro”.

Mas em Construção, a pegada era outra. Certamente, era um álbum mais sério e, o que é mais importante, mais planejado. Não era apenas uma coleção de canções: tratava-se de um conceito. Nesse sentido, era a obra, até então, que mais aproximou Chico Buarque do universo tropicalista.

Tanto é assim que o clássico arranjo da faixa-título era assinado por ninguém menos que Rogério Duprat, maestro sempre associado ao incrível álbum Tropicália ou Panis et circencis (1968).

Além disso, a abertura do álbum, que enfileirava nada menos que quatro dos maiores clássicos de Chico, era um primor em todos os aspectos possíveis. Iniciava com a ironia mordaz de “Deus Lhe Pague”, pesadíssima; passava pela monotonia de “Cotidiano”; trazia algum alento justamente com “Desalento”; e seguia com “Construção”, retomando a crítica de “Deus Lhe Pague” que, inclusive, era recapitulada na apoteótica coda da canção.

O público já está careca de saber o porquê de “Construção” ser tão lembrada, mas vale a pena elencar, rapidamente, as características da canção. Em primeiro lugar, chama a atenção o emprego de proparoxítonas ao fim de cada verso. Além disso, a letra é formada por três conjuntos de estrofes que possuem a mesma estrutura narrativa; no entanto, cada verso repetido aparece com uma variação, trocando justamente as proparoxítonas, tomadas como tijolos intercambiáveis na construção poética. A harmonia também é um elemento de destaque, baseando-se na repetição exaustiva de acordes menores (Mi Menor e Lá Menor) e trazendo, ao final das estrofes, uma queda cromática nos bordões do violão, que reflete justamente o evento narrado na letra: a queda de um operário que sobe embriagado à construção de um edifício. E, falando em edifício, há quem perceba uma referência ao concretismo – mais um elo com o contexto da Tropicália – na forma como os três conjuntos de estrofes se apresentam: desenhados, parecem formar três edifícios lado a lado, dois com a mesma altura (17 versos) e um menor (6 versos). Por fim, há o arranjo de Duprat que, a partir do segundo conjunto de estrofes, concerta uma orquestração que reproduz a cacofonia urbana, com suas buzinas, roncos de motores, falatórios, apitos, etc. Apesar do tom épico que adorna o evento narrado, o arranjo faz questão de retornar à monotonia inicial, como se o chocante acidente – e terá sido mesmo um acidente? – com o trabalhador não passasse de uma tragédia como tantas outras, incapaz de desmobilizar a dinâmica urbana. (Aqui, penso em “Construção” como a contraparte mais eminentemente social de “Panis Et Circensis” – na qual o narrador, que se desdobra para sensibilizar aqueles ao redor, fracassa retumbantemente, percebendo que “as pessoas na sala de jantar / São ocupadas em nascer… e morrer”).

Num raro momento de tédio e desocupação, fiz um diagrama que buscava mostrar a forma como “Construção” jogava com as proparoxítonas. Não sei se fui bem sucedido, mas não custa compartilhar com os leitores do blog (clique na imagem para ampliá-la):

Construção


Certo dia, talvez em 2003, estava em casa na hora do almoço, assistindo ao Jornal hoje com meus pais. Naquela edição, uma matéria apresentava a banda Infierno, formada no Rio de Janeiro. A reportagem explicava que o conjunto representava uma nova geração da música pesada no Brasil, explorando a sonoridade que, então, era conhecida como new metal. Seu disco de estreia, Infierno (2001), trazia canções com letras em português, elementos do hip-hop e nenhuma vergonha em explicitar as influências africanas sobre a música brasileira. Uma das faixas, inclusive, era uma capoeira – exatamente a canção “Capoeira”.

Mas o que o Jornal hoje ressaltava era o fato de o baixista do conjunto, Denner Campolina, ser também músico erudito, tocando na Sinfônica do Teatro Municipal do Rio (como se os universos metaleiro e clássico não fossem próximos… e isso até a ciência já comprovou, afirmando que “fãs de música clássica e de heavy metal são parecidos”). A matéria também destacava outra curiosidade de Infierno: a presença de uma regravação de “Construção”.

Anos depois é que pude escutar integralmente a releitura metaleira para o clássico de Chico. E minha reação foi de espanto: ao mesmo tempo em que se mantinha fiel ao arranjo original de Duprat, a nova versão encontrava soluções contemporâneas para potencializar a mensagem transmitida pela letra.

Assim, preservando a batida do violão das primeiras estrofes, pequenas intervenções de sons eletrônicos contribuíam para acrescer um caráter robótico, mecânico e determinista à rotina do trabalhador que “atravessou a rua com seu passo tímido”.

Outro destaque é a participação do violoncelista Márcio Mallard, que tocou na gravação original de Chico.

Por fim, a parte da cacofonia urbana é o grande atrativo da versão do Infierno, em que a banda se apresenta bastante à vontade: guitarras distorcidas, microfonias, vocais gritados, a bateria sendo espancada pelo excelente Alex Fonseca… em resumo, muito peso – o peso da desumanização do espaço público e das relações entre os indivíduos.

Não sei se Chico chegou a escutar essa releitura. Mas se escutou, tenho certeza que adorou.

E será muita heresia, de minha parte, afirmar que o Infierno registrou a versão definitiva para a maior canção brasileira de todos os tempos?

infierno.jpg
Infierno: sons infernais da metrópole numa magnífica releitura de “Construção”.

4 comentários

  1. A construção semântica e rítmica da letra é muito boa,a versão do grupo também é muito boa,e o seu texto saiu melhor que a encomenda,rs.

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