195. Reggaço: “O Dom”

Vai música
E me conduz pelo caminho dos sonhos
Galopando num Pégasus
Na asa de um condor
Vou transformar e lapidar
Todo sentimento em poesia
Magia, vibração
É pura alquimia


Há exatos 10 anos, julho de 2009, estava metido numa encrenca (aparentemente) sem fim. Havia cursado a disciplina de Química Quântica Avançada, na pós-graduação, e a avaliação final consistia em nada menos que uma prova escrita contendo 10 questões, que o incrível Prof. Albérico nos entregou no início do mês, esperando que a concluíssemos até dia 31.

Ou seja, 30 dias, 10 questões, 3 questões por dia. E foi mais ou menos nesse ritmo que trabalhei. Rodeado por livros introdutórios e avançados, da física quântica à química orgânica, passei o mês de julho concentrado em operadores, coordenadas polares, integrais triplas, matrizes, funções de onda, combinações lineares de orbitais atômicos, condições de normalização, o método variacional, a teoria das perturbações (e por pouco não fiquei perturbado), entre outros tópicos bastante complexos para minha limitada inteligência – mas suficientemente desafiadores (até estimulantes) para minha disposição em suar a camisa.

No fim, a prova ficou tão primorosa, tão perfeita – com suas 25 páginas, algumas com lindos orbitais atômicos coloridos a lápis de cor (!), mais uma página inteira elencando as referências utilizadas –, que resolvi tirar uma cópia para mim, que guardo até hoje (junto dos intermináveis rascunhos para a resolução das questões). Já o exemplar entregue foi cuidadosamente encardernado com espiral, e confesso ter sentido certo aperto no coração ao deixá-lo com meu professor pra lá de invulgar: àquela altura, estava já apegado à obra que produzi solitariamente (e não me arrependo de tê-la resolvido assim; acredito até muitos dos colegas que decifraram as questões em grupo acabaram por receber notas menores que meu 9,25).

Mas não foi só de química quântica que vivi aquele julho. Para embalar os raros momentos de descanso, assim como alguns relaxantes passeios noturnos por São Carlos a bordo daquele pesado Gol vinho, elegi a trilha sonora perfeita: o disco de estreia da banda Reggaço, natural de Rio Claro, ali do ladinho da minha terra natal.

O álbum foi adquirido de forma curiosa. Acredito que foi em 2006 que a banda passou pelo Centro Acadêmico Armando de Salles Oliveira (CAASO), a entidade representativa dos graduandos da USP São Carlos. Quem pode esclarecer essa questão é meu brotherzinho Scooby – aniversariante de hoje – que, à época, foi diretor da entidade. Mas tenho quase certeza que foi isso mesmo. Eles devem ter tocado numa noite de sexta (que, então, sempre trazia uma ótima programação com sons da região) e, para ampliar sua audiência, deixaram uma pilha de Reggaço (2005) para a retirada gratuita na secretaria do centro acadêmico.

Lembro de, dias depois, ter passado no balcão em que trabalhava nossa querida secretária Sandrinha (por onde anda?) e ter ouvido dela: “Ué, vai embora sem levar um CD? Pega, é de graça!”. E foi assim que o álbum veio a integrar minha coleção, tendo que amargar longos três anos (e nisso, me formei, ingressei numa nova graduação e ainda concluí o mestrado) até eu criar coragem para escutá-lo.

Quando finalmente o fiz, naquele julho de 2009, o CD rodou até perto da gastura. Gostei muito das canções, especialmente de “Paradeiro” (a faixa de abertura), “Salomé”, “Coisa Errada” e “O Homem Clichê”.

A banda, nesse álbum, trazia um reggae reverente à tradição jamaicana, sem arriscar inovações em vão. Mas elas estão lá: preste atenção à maneira como os músicos utilizam teclados e percussões, acréscimos que afastavam Reggaço da mesmice, sem comprometer a fidelidade às sonoridades mais tradicionais do gênero.

A canção tema de hoje é “O Dom”, a segunda do álbum. A letra é puro alto astral e, metalinguisticamente, explica o processo de escrita de um bom reggae. Do jeito que é cantada, dá até a impressão de que compor é algo simples: “Reggae, para lhe dizer ‘eu amo’ / Basta o dom / Me dá o tom”.

Do ponto de vista instrumental, “O Dom” traz os mencionados teclados e, já na introdução, um inusitado emprego de harmônicos no baixo de Bruno Padoveze, que compôs a canção junto de Vanderlei Bastos. Outros destaques são o riff característico da faixa, tocado numa deliciosa gaita de boca, e os elementos percussivos – e procure reparar na sutilíssima presença de um berimbau.

Enfim, “O Dom” é uma obra gostosa de ouvir, representando uma forma brasileiríssima (e escapando ao clichê caricatural) de dizer, por meio do reggae, “eu amo”.

Coisa que, mais do que nunca, estamos precisando dizer e ouvir.

reggaço.jpg
Reggaço: o dom de dizer “eu amo” (e outras positividades) por meio do reggae.

5 comentários

    1. Eu também fucei bastante nos meus arquivos para tentar achar algo referente àquele show. Mas ao menos sabemos que foi entre 2005 e 2006! Levávamos ótimos sons ao CAASO naqueles tempos, que saudade!

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