197. Candeia: “Pintura Sem Arte”

Me sinto igual a uma folha caída
Sou o adeus de quem parte
Pra quem a vida é pintura sem arte
A flor, esperança se acabou
O amor, o vento levou
Outra flor nasceu, é a saudade
Que invade tirando a liberdade
Meu peito arde igual verão
Mas se é pra chorar, choro cantando
Pra ninguém me ver sofrendo
E dizer que estou pagando


Candeia foi um dos grandes nomes do samba do Rio de Janeiro, para sempre associado à Portela. Na obra Samba, cultura e sociedade, organizada por Marcelo Braz (São Paulo: Expressão Popular, 2013), Guilherme F. Vargues assim se refere à importância do sambista carioca:

em sua fase mais engajada, se alinha com o período da reafirmação da questão racial e com o clima de engajamento político do artista em um país solapado por uma ditadura militar. Vive também a crise da visão folclórica da cultura. Para ele, qualquer projeto cultural era um projeto político e pedagógico de esclarecimento das pessoas articuladas à cultura afro-brasileira (p. 208).

Nascido em 1935, no bairro de Oswaldo Cruz, o sambista floresceu em meio à consolidação das escolas de samba carioca, num período marcado pelo mecenato, a influência do jogo do bicho e a invasão dos acadêmicos das belas-artes (carnavalescos/figurinistas, escultores, bailarinos, etc.). Embora já tivesse composto sambas nacionalistas em tempos anteriores, tendo ganhado seu primeiro samba na Portela aos 17 anos, a partir desse período (final dos anos 1960) Candeia começou a se afastar da escola de samba. Mais tarde, escreveu o manifesto Escola de samba: árvore que esqueceu a raiz (junto de Inard Araújo) e fundou, em 1978, uma nova escola: o Grêmio Recreativo de Arte Negra Quilombo. A ideia do Quilombo era valorizar o samba em suas próprias raízes, à parte dos interesses excusos que submetiam a arte aos ditames do capital e às concessões do desfile oficial. 

Como escreve Vargues,

Candeia se tornou o líder de um “Quilombo” insatisfeito; sua produção artística se tornou engajada e acabaria por seguir o caminho de tantos outros sambistas da MPB, afastando-se definitivamente das escolas de samba tradicionais (p. 210).

No mesmo livro, o organizador Marcelo Braz traz o alerta: não se deve confundir tradição com tradicionalismo (a forma fetichizada da tradição). Argumentando sobre a necessidade da superação (dialética) da oposição entre o arcaico e o moderno, o autor explica que

Na bossa nova, o resultado é outro. Suas criações sugerem algo como um “samba fora do lugar” […] em que forma e conteúdo não se encontram. E isto vale até mesmo para aqueles […] que estiveram subjetivamente (e sinceramente) voltados para “resgatar a tradição”. Tal vontade subjetiva não basta. O esforço, que pode ser até interessante no plano político, é problemático no campo estético-cultural. O “samba fora do lugar” da bossa nova é a própria inadequação que parece ser refletida por Candeia […] (p. 160)

E o autor exemplifica trazendo a letra da canção de hoje, “Pintura Sem Arte”, lançada por Candeia no álbum Axé (1978).

O samba começa traçando um cenário de desolação, em que imperam os valores disfóricos, sob uma harmonia em tom menor. “A flor, esperança se acabou / O amor, o vento levou / Outra flor nasceu, é a saudade / Que invade tirando a liberdade”. A melodia, toda passional, ressalta o estado disjuntivo, e o ouvinte se pergunta: o que virá depois? Onde nos levará tamanha tristeza?

E eis que a segunda parte da canção nos responde de forma surpreendente, numa harmonia, agora, em tom maior: “Por isso eu agradeço a saudade em meu peito / Que vem acalentando os meus sonhos desfeitos / Jardim do passado, flores mortas pelo chão / Pétala, semente de paixão”.

Veja só que percurso fórico interessantíssimo: descrito o quadro desalentador, o sambista se anuncia como um observador externo a ele – pois já o superou. Tomou o desgosto da situação passada como o arauto de um novo estado de ânimo e, da flor da saudade que brotou em seu peito, extraiu a semente de uma paixão futura.

E o que Braz destaca, de “Pintura Sem Arte”, é o compromisso do sambista em, justamente, não fetichizar a tradição – quando o compositor a toma como um dado abstrato, um ideal para o qual deve dirigir seu fazer, ignorando as condições concretas que cercam o ato composicional. Para Candeia, é preciso ir além: “Não, não basta ter inspiração / Não basta fazer uma linda canção / Pra cantar samba se precisa muito mais / O samba é lamento, é sofrimento, é fuga dos meus ais”. Daí o agradecimento do sambista à disforia de outrora, que foi capaz de conectá-lo não apenas com os preceitos estéticos implicados na composição do samba, mas na concretude das necessidades vitais que se instauram na práxis de esculpir uma canção de forma legítima.

“Pintura Sem Arte” é, assim, um dos grandes sambas metalinguísticos que o saudoso cantor do Quilombo nos legou.

candeia.jpg
Candeia: o samba engajado em prol da tradição – não fetichizada – da cultura afro.

“Pintura Sem Arte” foi bastante regravada.

Alcione a incluiu em seu repertório já em 1981, no álbum Alcione. A versão tem um andamento moderado, ressaltando os estados disjuntivos da primeira parte, com um ótimo contraponto entre o 7 cordas e o bandolim:

Décadas depois, em 2004, Dona Surica, pastora da Portela, lançou seu primeiro disco já aos 66 anos. Nesse álbum Surica, “Pintura Sem Arte” aparece impecável:

Dudu Nobre fez uma releitura muito bonita, com destaque para a flauta de Dirceu Leite, em Festa em meu coração (2005):

No mesmo ano, Renato Milagres cantou “Pintura Sem Arte” no álbum Renascença Clube: Samba do Trabalhador. O clima de roda é o grande atrativo dessa versão:

Uma bela versão, bastante cadenciada, aparece no disco-tributo Dia de graça – o samba de Candeia (2011), da cantora paulista Graça Braga:

Enfim, mais uma canção tão perfeita que ninguém conseguiu estragá-la. Candeia não merecia menos.

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