199. Herbert Vianna: “Uns Dias”

O expresso do oriente
Rasga a noite, passa rente
E leva tanta gente
Que eu até perdi a conta
Eu nem te contei uma novidade, quente
Eu nem te contei


Como o público fiel do blog deve ter reparado, alguns posts tratam mais de diferentes arranjos para uma mesma canção, do que sobre o conteúdo delas.

A canção de hoje é um desses casos. “Uns Dias” apareceu, pela primeira vez, em Bora Bora (1988), LP dos Paralamas do Sucesso que, após a primeira aproximação do conjunto com as sonoridades mais brasileiras em Selvagem? (1986), agregava ainda mais ingredientes para seu caldeirão sonoro.

Além de reggaes (aos quais os ouvintes já estavam acostumados desde faixas como “Melô Do Marinheiro” e a própria “Selvagem”), o novo álbum trazia uma deliciosa lambada instrumental (“Bunda Le Lê”), o funk da faixa-título, sons afro-caribenhos (“Sanfona”), uma cover de Jackson do Pandeiro (“Um A Um”), um excelente rock (“Dois Elefantes”) e quase um lado inteiro do LP dedicado à fossa.

Abalado por ter sido trocado, por Paula Toller, pelo cineasta Lui Farias, Herbert compôs um conjunto de canções espinhosas e deprimidas. Quase todas estavam no lado-B de Bora Bora: uma balada tristíssima ao piano bluesy do argentino Charly Garcia (a clássica “Quase Um Segundo”, mais tarde, regravada por Cazuza), outro blues com rompantes roqueiros (“Três”), uma (fraca) bossa (“O Fundo Do Coração”) e a canção de hoje, outro grande rock dos Paralamas, “Uns Dias”.

A letra é explícita e cortante: “Eu nem te falei / Da vertigem que se sente / Eu nem te falei / Que eu te procurei / Pra me confessar / Eu chorava de amor / E não porque sofria / Mas você chegou, já era dia / E não estava sozinha / Eu tive fora uns dias / Eu te odiei uns dias / Eu quis te matar”.

O arranjo traz alguns fraseados, nos teclados de João Fera, que remetem à escala pentatônica chinesa – coerentemente com a letra, que parte da narração de um sujeito que viajou pelo “expresso do oriente”, até retornar e encontrar sua amada nos braços de outro. Além das certeiras intervenções do “quarto paralama”, o trio de músicos constrói uma base instrumental perfeita, com uma eficiente dupla violão-guitarra e a sempre impressionante cozinha de João Barone e Bi Ribeiro.

Gosto mesmo é da coda, que encerra a canção de forma apoteótica, o que me lembra o final de outra canção do trio: “Vital E Sua Moto”, em sua “versão 90”, gravada para a coletânea Arquivo (1990). Compare as duas gravações: “Uns Dias”, a partir de 2’59″…

…e “Vital E Sua Moto (Versão 90)” a partir de 2’18”:


O tempo passou, os Paralamas se consolidaram como um dos maiores nomes do BRock e, em 1992, Herbert Vianna ousou lançar um álbum solo, Ê batumaré.

Cinco anos depois, veio seu segundo lançamento: Santorini blues. Esse eu tenho e ouvi bastante. O disco é baseado numa sonoridade acústica, com algumas poucas guitarras em meio a muitos violões. Lá estão, por exemplo, “Speed Racer”, a belíssima instrumental “Tweety” e três regravações de canções dos Paralamas: “Dos Margaritas”, “Pólvora” e a própria “Uns Dias”.

Esta, como você pode escutar no registro que abre o post, ganhou um arranjo que, apesar de anunciar a presença de um piano logo nos primeiros segundos, é mesmo uma versão voz-e-violão. Me parece que, ali, Herbert arrisca uma afinação diferente para seu violão, além de utilizar um capotraste na segunda casa, buscando uma sonoridade exótica. O início da faixa, especialmente, com sua alternância de versões modificadas do acorde de Mi Maior, ganha um sabor ainda mais oriental que aquele da gravação original, lembrando a música modal dos países islâmicos. Já o refrão nos devolve ao tonalismo.

Importa ressaltar que a versão de Santorini blues parece ter servido como um experimento, sendo a base sobre a qual os Paralamas construiriam o registro definitivo de “Uns Dias”.

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Herbert Vianna: realizando pequenos experimentos sonoros com “Uns Dias”.

Era 1999 e o Brasil começava a ser tomado por uma onda de álbuns acústicos. Se não me engano, foi em maio daquele ano que recebi a notícia de que os Paralamas do Sucesso também gravariam seu disco de violões. Esperei, então, ansiosamente pela oportunidade de conferir o álbum, lançado meses depois com o selo da MTV. Algum amigo meu – não sei se o Marcos ou o Alberto – gravou o especial, exibido pela emissora, numa fita VHS, que tenho até hoje e que foi reproduzida à exaustão.

Acústico MTV dos Paralamas é um dos melhores álbuns da marca, sem sombra de dúvidas. O quarteto (trio + João Fera) aparecia nu e cru, acompanhado apenas por um naipe de metais, o percussionista Eduardo Lyra, mais o convidado Dado Villa-Lobos. O repertório deixou de fora uma porção de hits e, quando os incluiu, fez questão de alterar os arranjos – às vezes radicalmente, como na nova versão para “Meu Erro”, cantada com Zizi Possi. E “Uns Dias”, aproveitando a base de Santorini blues, foi também completamente refeita.

Uma das poucas faixas do álbum isenta de metais, trouxe novos toques orientais (como o gongo logo na abertura) e, na nova coda, um verdadeiro racha entre as cordas (Herbert com o violão de 6, Dado na viola caipira) e as baquetas de Barone. Um arranjo embasbacante que, lembro de ter lido em algum lugar, nada devia à alquimia indo-arábica dos encontros acústicos entre Page e Plant:

Finalmente, em 2004, após quase perder a vida num acidente de ultraleve, o agora paraplégido Herbert Vianna releu “Uns Dias” com os Paralamas, no álbum justamente intitulado Uns dias ao vivo. A versão retoma o arranjo de Bora Bora e traz a participação de ninguém menos que Roberto Frejat, nas guitarras e no dueto vocal com Herbert. O registro tem um punch impressionante e traz, novamente, a coda épica da gravação original (mas abreviada, infelizmente). Prefiro a acústica, mas gosto é gosto. Confira:

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