200. Arrigo Barnabé: “Diversões Eletrônicas”

Só você não viu
Mas ela entrou, entrou com tudo
Naquele antro, naquele antro sujo
Você nunca imaginou, mas eu vi
No luminoso estava escrito
“Diversões eletrônicas”


No clássico O som e o sentido: uma outra história das músicas (São Paulo: Companhia das Letras, 1989), José Miguel Wisnik propõe uma historiografia da música que reconhece, nela, a existência de três períodos.

No início – e essa é a inovação pretendida pelo autor – havia a música modal, desenvolvida pelas sociedades pré-capitalistas: a organização de sons e silêncios baseada fortemente no pulso, ressaltando o caráter circular da experiência musical, seu poder em deslocar o ouvinte (e o executante) do transcorrer ordinário do tempo, atirando-o a outra experiência temporal. É o império da tônica, a nota para a qual toda a experiência modal é o início e o fim: o solo – justamente o chão que produz o grão, o substrato da fertilidade.

O mundo modal é aquele da descoberta das relações harmônicas, das escalas e dos modos gregos que, articulados em diversas formas de canto, conduzirão às polifonias que, mais tarde, criarão a necessidade de uma estrutura vertical à sucessão horizontal das notas: a harmonia. Surgem os acordes e a tônica  adquire um novo sentido: organiza uma experiência combinatória de notas simultâneas, criando as sensações de tensão e relaxamento – da tônica à dominante, da dominante de volta à tônica. Estamos no mundo tonal.

E o que se segue ao tonalismo? O período do serialismo, quando a composição se organiza em séries de notas, observando dois paradigmas absolutamente opostos: o da repetição exaustiva da machine-like music (pense nos arpejos fractais de Philip Glass), constituindo o minimalismo; e o da repetição evitada ao máximo, o dodecafonismo.

Sobre essa última vertente da música serial, nas palavras de Wisnik,

Trata-se de olhar para o mais sintomático, e o mais sintomático aqui é o mais radical. O sistema de doze sons criado por Schoenberg em 1923, depois de um período atonal que derivava do aprofundameno das contradições do tonalismo, se apresenta como a decorrência implacável e ao mesmo tempo a antítese do sistema tonal. Ele rejeita cerradamente o princípio tonal, isto é, o movimento cadencial de tensão e repouso (p. 173).

E completa o escritor:

De fato, como qualquer ouvinte constata à primeira audição, a música dodecafônica não se presta à escuta linear, melódica, temática. A memória dificilmente é capaz de repetir o que ouviu, porque a própria música diversifica as suas repetições de modo a que elas não sejam captadas na superfície como repetição. Embora baseada numa sucessão de notas que se repetem, “a construção de uma série, escreve Schoenberg, tem por objetivo retardar o maior tempo possível o retorno de um som já escutado“. O compositor afirmava ainda que “o destaque colocado sobre cada nota dada, pelo fato de que ela é repetida antes da hora, periga investir essa nota da categoria de tônica. A operação sistemática de uma série de doze sons dá a cada um a mesma importância e afasta assim todo o risco de supremacia de algum entre eles” (p. 174).


Em 2005, a TV Cultura recriou o ambiente dos festivais musicais dos anos 1960. Organizou um novo festival da música brasileira e distribuiu, em sua programação, diversas informações sobre aqueles eventos que revelaram tantos nomes fundamentais  da canção popular tupiniquim. Exibiu também alguns documentários sobre a época. Lembro muito bem do episódio sobre o festival de 1967, vencido por Edu Lobo com “Ponteio”.

Mas me chocou, de verdade, o conjunto de cenas de um festival mais tardio, organizado pela própria TV Cultura, o I Festival Universitário MPB, de 1979. Isso porque as imagens e os sons mostravam as performances de Arrigo Barnabé, executando as peças do projeto Clara Crocodilo.

Sônia Marrach (Música e universidade na cidade de São Paulo: do samba de Vanzolini à Vanguarda Paulistana. São Paulo: Unesp, 2011) narra a origem do projeto, iniciado por Arrigo com o amigo Mário Lúcio Cortes:

Os dois trabalhavam na casa de Mário. Era uma casa meio vazia, a família estava mudando, mas havia um piano no qual Arrigo compunha. Assim, fizeram Clara Crocodilo, em janeiro de 1972, em Londrina: escolheram um compasso, sete por quatro; ninguém faz música nesse compasso. A ideia dos dois era fazer música popular. Colocaram alguns instrumentos de música popular, mas com informação de música erudita. Arrigo tinha lido Balanço da bossa, de Augusto de Campos e achava que este seria o próximo passo da música popular: incorporar toda a percepção das dissonâncias, dos ritmos quebrados, que havia surgido no começo do século com Stravinski, Bartók e todos esses caras malucos. Arrigo achava que o próximo passo na linhagem evolutiva, depois do Tropiicalismo de Caetano e Gil, seria misturar o popular com o erudito (p. 91-92).

Prossegue contando a autora que, nos anos 1970, Arrigo conheceu o dodecafonismo e aprendeu seus fundamentos sozinho. Compôs, então, “Infortúnio” e “Diversões Eletrônicas”, que foram inscritas no festival da TV Cultura. Com uma banda gigantesca (que incluía Itamar Assumpção no baixo), as duas composições dodecafônicas foram se classificando no festival, até que “Diversões Eletrônicas” o vencesse.

Nesse momento, Clara crocodilo já era o projeto de um álbum conceitual, focado na ideia de um personagem mutante (“meio homem, meio réptil”), fruto de uma experiência científica. Entre as paisagens que compõem o enredo da narrativa, está o antro sujo que sedia os fliperamas – e continua Marrach:

Diversões Eletrônicas, letra de Regina Porto e música de Arrigo, mostra o antro sujo, com um luminoso anunciando “Diversões Eletrônicas”, um bar com balcão de fórmica vermelha, lugar onde uma prostituta entra, se embebeda e sai cambaleando até um telefone público. No fliperama ela entrega a grana para um office-boy sacana, “ex-motorista de autorama”, “viciado em máquinas de corrida”.

E paro de falar aqui. Não há mais como descrever “Diversões Eletrônicas”, o inclassificável tema de hoje. Escute e tire suas próprias conclusões: Arrigo é ou não a própria Vanguarda Paulistana?

arrigo-barnabe.jpg
Arrigo Barnabé: dodecafonia e outras genialidades num projeto para a síntese entre o popular e o erudito.

A versão que abre o post é a registrada no LP que compilou os números do festival da TV Cultura.

No ano seguinte (1980), Arrigo lançaria Clara Crocodilo, com a versão definitiva para “Diversões Eletrônicas”:

Em 1999, Arrigo releu Clara Crocodilo num show no Sesc Ipiranga. O registro rendeu um novo lançamento, que representa uma releitura mais contemporânea para o clássico de 1980. “Diversões Eletrônicas” está lá novamente, numa versão estendida:

A curiosidade fica por conta da continuação de “Diversões Eletrônicas”, ironicamente, uma vinheta sinfônico-vocal: “Diversões Não Eletrônicas”. Composta por Arrigo, encerra o álbum de mesmo título de Vânia Bastos, lançado em 1997:

A canção também foi homenageada/relida na “Suíte Fórmica Vermelha”, presente em Suite claras e crocodilos (2014):

3 comentários

  1. O Brasil só vai melhorar no dia que Arrigo Barnabé virar hit-parade em todas as rádios do País,rs – Sobre o livro que inspirou o compositor,Balanço da Bossa,foi o livro sobre música que eu mais gostei,mesmo não concordando com quase nada que o autor escreveu.

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    1. Boa dica de leitura, Ademar! Quem sabe referenciamos “Balanço da bossa” em algum post futuro.
      Quanto a Arrigo tocar nas FMs e nos autofalantes dos carros por aí, é uma divertida utopia! Não custa sonhar…

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