201. Djavan: “Lugar Comum”

Acho bom tu relaxar
Aqui, mal começou
Quer valer como isso vai
madrugada romper?
Vê como isso tá show
Olha aquela lá, que blusão
Parece a mesma que tu pegou
E beijou na boca
Muito arriscado…
Ó lá o negão!


Não sou conhecedor da discografia desse alogoano que tanto emociona o Brasil, Djavan. É certo que não é possível ficar indiferente a suas canções: tenho “Oceano” como uma de minhas primeiras lembranças musicais, nutro alguma simpatia pelo hit “Eu Te Devoro” e simplesmente amo “Sina” – à qual Luiz Tatit, em Semiótica da canção: melodia e letra (Escuta, 1994), dedica um capítulo inteiro (!).

Mas confesso: seria maravilhoso dispor de tempo para apreciar a obra completa desse cantor maravilhoso.

Pelo menos posso me orgulhar de ter escutado à exaustão um de seus álbuns, Milagreiro (2001). O disco guarda um hit inesquecível, a agreste faixa-título, um dueto com Cássia Eller que foi tema de novela global (Esperança) em 2004. O colega Túlio Villaça, no imprescindível Sobre a Canção, traz uma análise belíssima sobre a faixa, abrindo seu texto com uma breve revisão sobre a carreira do cancionista:

Entre 1984 e 1986 Djavan sofreu um bocado na mão da crítica. Depois de lançar o álbum Lilás, o segundo gravado em Los Angeles, sob a produção de Ronnie Foster (o primeiro, Luz, recebera elogios rasgados), embora várias das canções tivessem estourado nas paradas, inclusive a música título, muitos estranharam que ele tivesse feito um álbum de música pop, cheio de teclados, com pouquíssimo das características regionais que haviam alavancado sua popularidade e justamente haviam possibilitado este início de carreira internacional.

A reação dele foi radical: Meu Ladoo álbum seguinte, tirava quase todas as sonoridades sintéticas e colocava o violão em primeiríssimo plano, dialogando diretamente com a voz. E, para que não ficassem dúvidas sobre qual era o lado dele, fechou o disco com o Hino de Congresso Nacional Africano e com o Hino da Juventude Negra da África do Sul. Já não apontava só para o Nordeste, mas mais atrás e além.

A partir daí, ele tem conseguido, de formas diferentes, promover este encontro sem tantos choques, de forma mais homogênea, e o álbum seguinte, Não é azul mas é mar, novamente gravado nos EUA e talvez o trabalho de Djavan de maior êxito no exterior, é prova disso. Em alguns momentos ele parece pender mais para o pop, como na fase Bicho Solto (1998); em outros, volta a beber nas fontes das Alagoas, como em Novena (1994). E acrescente-se que, ao lado destas duas vertentes, foi somando outras escutas como o jazz, que possibilitam leituras diversas de suas primeiras influências.

Em 2001 Djavan gravou Milagreiro, em que faz mais uma dessas voltas para casa.

Outro sucesso de Milagreiro, representando de fato a tal “volta pra casa”, é a canção de abertura, “Farinha”, uma ode à substância nutritiva extraída da “planta da família das euforbiáceas / De nome Manihot utilissima / Que um tio meu apelidou de macaxeira”. Um xote-reggae delicioso que pensei, sinceramente, em abordar aqui no blog. (E acabo de fazê-lo, ainda que en passant).

Mas o disco guarda outras surpresas. Gosto muito de “Ladeirinha”, obra que começa plácida e doce, para então adquirir um inimaginável peso no que poderia compor um refrão, mas não chega a fazê-lo: “O dia é vago quando eu não a flagro a sorrir para mim / Posso ver imagens no nada / Duendes no edredon / E é só dormir pra ouvir em qualquer lugar / Sirenes no ar / Ressaltando você”. Outra que cogitei tematizar.

Acabei por me decidir por outra faixa formidável, também uma de minhas favoritas: “Lugar Comum”. Escondida entre outras canções igualmente admiráveis, trata-se de um dos momentos mais representativos da sonoridade enxuta que dá vida às canções do álbum. Com efeito, Milagreiro foi gravado com um time reduzidíssimo de músicos, que participam praticamente de todas as canções, incluindo os filhos Max (guitarras e violões) e João Viana (bateria).

Nosso tema de hoje, bastante à vontade nesse conjunto de palco/estrada, se apresenta como um blues com veia roqueira, com uma pegada semelhante à do clássico “Higher Ground” de Stevie Wonder. Compare:

A letra é bastante explícita, refutando o senso comum de que o texto djvaniano é hermético e puro nonsense: o tema é orgiástico; estamos numa casa de swing, ou pelo menos, numa divertida suruba doméstica. Os versos não me deixam mentir: “Cada uma mais demais / E neguinho mandando ver / Ouvido aqui ouve de tudo / Menos sobre amor de mãe / Aqui tá bom pra mentir / Lugar assim ninguém nem tá aí / Aqui eu posso ser quem sou / Ou ser ator… / Tá ficando um arrocho danado / Tô quase maluco / É demais o cheiro que a gente tem / E com tantos dedos / A coisa melhora bem”.

O andamento destaca justamente esse frescor da libertação sexual, num topos bacante facílimo de recriar na imaginação. E o mais interessante é a métrica empregada, que ressalta acentuações sincrônicas ao pulso, num procedimento de figurativização melódica que ajuda a delinear a simultaneidade de uma série de acontecimentos eróticos: ninguém é de ninguém/todo mundo é de todo mundo.

Como não gostar desse cabra?

Me arrependo de não ter tratado dessa canção antes. A ausência de Djavan em 365 Canções Brasileiras estava quase imperdoável.

djavan.jpg
Djavan: artífice da canção livre de enquadramentos estilísticos, temáticos e poéticos.

2 comentários

  1. Ainda bem que você escolheu uma música com letra mais direta,a única coisa que magoa o compositor alagoano é dizer que suas letras não tem sentido.Da minha parte eu acho que está dentro do padrão emepebista,boa parte das canções de Caetano,Gil e companhia eu não entendo patavina.

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s